sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Um calor sempre diferente...

Rita, descalça sobre o chão quente e vermelho, encaminhava-se para Pablo. Trazia vestida uma túnica laranja que lhe tapava os joelhos. O seu cabelo estava preso com uma rosa vermelha que condizia com os lábios molhados do vinho.

O contraste das cores que Rita levava, com o preto da camisa de Pablo desenhavam as diferenças dos seus mundos e ao mesmo tempo, na distância do contraste, nascia a ilusão de uma paixão. Parecia uma paixão que ia e vinha conforme o vento mas dificil de apagar. Tão dificil que Rita sonhava e mesmo acordada, parecia recordar tudo como se realmente tivesse acontecido. Como se sentisse o cheiro dele no seu corpo, o sabor da saliva na sua boca, um calor especial que lhe percorria a pele e sempre que adormecia e sonhava, o mesmo calor sempre diferente.

Do sonho trouxe todos os pormenores e o delicado toque da hospedeira confundia-se com o sopro de Pablo no seu ombro, como se lhe sussurrasse um segredo que da força das palavras nescesse uma brisa que lhe engomava as gelhas da pele arrepiada.

Patrícia Prata, in My Second Novel

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Tem de chegar...

É como estar à beira da falésia e ver o mar
Um mar profundo e desconhecido que refresca o olhar
É como querer mais e não poder andar
Como se a voz faltasse no momento de falar
E as palavras se enrolassem por não saberem o que dizer


É um beijo breve que salga o paladar
Faz sede, tanta sede e seca-lhe a garganta por não ter para beber
É debruçar-se na falésia para ver as profundezas do mar
E sentir que o mar foge para esconder a sua côr
E sentir que a altura é grande demais para o caminho

É a janela que não fecha à procura do alento
É a resposta evasiva por não saber que dizer
Não quer não ter, não quer perder mas não quer dar
E a recordação desse calor tem de chegar..
Tem de chegar...

Patrícia Prata

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Manifesto das Almas

Rita tinha uma saia comprida e folhada, a sua camisa parecia espartilhada e sentia o seu peito apertado contra si mesmo. Via-se como se inrompesse de folhas escritas pela mão de Cadalso. Como se da sátira aos costumes espanhóís surgisse o encantamento do exotismo cigano. Dançava com Pablo, noutra vida, era como uma reminiscência, uma memória esquecida pelo tempo de algumas vidas já passadas. Pablo apertava com sensualidade, a cintura de Rita. E ela sabia! Ela sabia dançar! Os olhares eram cúmplices, e apesar de ser outra época, a paixão era a mesma. O cenário eram os Cafés Cantantes, sítios onde os ciganos andaluzes dançavam e cantavam para ganhar a vida. Via um homem mais velho sentado numa cadeira baixa, toda vermelha e debroada a desenhos amarelos. Tocava guitarra com emoção, e era ele quem dava o ritmo aos passos dela e de Pablo. Sorria como se os conhecesse há anos. Aquilo era o flamenco, era o flamenco de Rita e de Pablo. Não era a técnica, mas a atitude, era um manifesto de almas.

Patrícia Prata, In my Second Novel

Sobre os mosaicos...

O espelho já não reflectia as suas imagens, eram apenas silhuetas. Olivier encostava Clara, com a força do seu desejo, contra si mesmo, carregando em si a vontade que era de ambos. O vestido preto já não era vinho, era aroma. Estava caido no chão, como pretexto de não impedir mais aquilo que os dois desejavam intensamente. Clara deitada sobre os mosaicos, via sobre si o peito delineado de Olivier. Sentia que a água se misturava com o prazer e o som da torneira não permitia que as vozes agitadas e a respiração forte se ouvissem para além da porta.

Patrícia Prata, in My Second Novel

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As regras convencionais do trato

Pablo observava-lhe os seus cabelos longos que lhe caiam sobre o peito e um botão mal apertado da camisa, deixava revelar-lhe uma sensualidade não intencional. Ancorava-lhe a retina na camisa mal apertada e ao mesmo tempo receou que Rita percebesse e o interpretasse mal. Aqueles segundos foram os suficientes para saber de cor as ondulações do seu cabelo, o jeito como caiam sobre o seu peito e até quantas rugas tinham as falanges dos seus dedos. Ouvia as explicações de Rita, embriagado na doçura de um mel cristalino. Apetecia dar-lhe um beijo, mas não teria sentido. Ambos pensavam o mesmo mas nenhum tomaria iniciativa. As regras convencionais de trato a desconhecidos não permitiriam que isso acontecesse.

Patrícia Prata, In My Second Novel

À procura da alma...

Pablo aparentava um ar maduro, alguma rigidez no rosto carregava-lhe as gelhas da face, como expressões de rosto marcadas pelos anos da vida de dançarino. Viam-se noites não dormidas, uma vida de devaneios constantes e amores incertos em noites esquecidas. Era um homem que, inevitavelmente chamava a atenção. Não lhe faltava vivência mas dava a sensação de um vazio inexplicável, como se ele próprio não desse conta que o tinha. Ou talvez o quisesse disfarçar, entre o sorriso sedutor que distraia quem o olhasse à procura da sua alma.

Patrícia Prata, In My Second Novel

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Mais ou menos

Sempre é tudo mais ou menos
O céu não fica vermelho
O sangue não corre nas veias
Está bem como ficou
Vem e grita ao rio
Quero saber se aí tens alma
Ou se em vez tens um vazio

Esse olhar nada me dá
O silêncio desinteressa-me
Não sinto o pulso agitado
Não vejo o querer acordado
Quero a vontade ao chegar
Quero a força do abraçar
Senão, deixa-me sossegada
Sei viver sem o quase nada

Não vale a pena o tão pouco
Acordo-te para dizer que fui
Não me peças os porquês
Deixa-me ir.
Amanhã já não te lembras.
Eu não me lembro.
Não foi nada.

A vela não se apagou.
A vela nunca acendeu.

Patrícia Prata

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Nega-me o mel

Trago sangue na tarde
Ferida na mão
E uma vela no meu coração

Esse ar quente que leva à estrada
Puxa-me e não quero andar
Não quero partir no caminho

Reaje ao meu pedido
Indiferença como conluio
Perco-me na razão
Digo que não sem pensar
Mudei de ideias agora
Digo que sim para te ver
Tenho de me proteger

Cansada da dúvida que me segue
Outra vez essa voz que me pede
Deixa-me seguir em frente
Não fales, não mostres a voz
Fecha o olhar que me dás
Leva o aroma da pele
Dá-me limão
Nega-me o mel

Dás num dia
Negas na noite
A noite fria que aquece a espera
Se o dia chegasse todos os dias
Cansei de ver o sol chegar

Azeda-me o coração
É mais fácil ver-te partir
Não dói nem chora de dor
Cortei o pé da flor
As pétalas no chão
Deixam saudades, não faz mal

Prefiro não conhecer-te mais
Não te reveles a mim
As pétalas, deixa-as voar
Amanhã já não me lembro
O cansaço tirou-me a vontade
Não sei, amanhã não me sorrias

Quero lembrar-me da indiferença
As pétalas já voaram
Já não sei quem podias ser

Patrícia Prata

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Livro www.corposeditora.com


Já saiu o meu primeiro livro!!
Na Fnac por encomenda ou em http://www.corposeditora.com/

:):):):):):):)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Partitura do Romance

Fábio lia-lhe todos os movimentos como se fossem uma pauta, o seu olhar percorria o corpo de Bia de baixo para cima, como se faz num pentagrama. A sua clave era o olhar, pois era a referência para Fábio de como ler o seu corpo. Trazia a doçura que ele procurava e o desejo de a desfolhar em partituras. Via-lhe a respiração como os compassos que trazia nos dedos. Tudo batia certo. Foi um momento perfeito.

By Patrícia Prata, in My Second Novel

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Tira a roupa para te provar

A chuva parou de cair, com a força de raiva contida, sempre molha esse ódio morto, que pára com o pulsar do mundo e se torna absorto. Já não tem os olhos vermelhos nem as veias dilatadas. Tiraram-lhe os freios, deu-lhes novas galreadas. Respira fundo, o sol chegou, enche os pulmões com o cheiro da uva, com o mosto que destila o teu âmago. Tira a roupa para te provar...

By Patrícia Prata

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A chuva

A chuva do meu pensamento, molha-me de palavras que caem na janela, presas no vento de discursos alheios, folhas que saem rasgadas por freios. Prende-me ao seio da fúria da chuva, leva-me no vendaval do asfalto cinzento, porque esse beijo roubado, levado, foi-me tirado em pecado. A chuva limpa a tirania, dessa tua alma vazia.

By Patrícia Prata

A ablução do espírito

Jesús respirou fundo, como se procurasse na alma a profundidade de uma resposta original: “A destilação é um processo muito sensual e profundo, é como se procurasses a purificação da alma. Imagina que acreditas em Deus e nas histórias do Inferno e do Céu. Acreditarias também que a tua alma na profundeza é pura, mas que se manchou no contacto com a sociedade, que é um mal necessário à sobrevivência. Chegaste, então a um ponto da tua vida que analisas a tua vivência, os teus pecados, a tua generosidade, o teu altruísmo, o teu egoismo, enfim tudo o que faz de ti a pessoa que és hoje. Se pudesses, escolherias então, o melhor de ti e o pior expulsarias do teu corpo, como se fosse a ablução do espírito. Mas a reflexão e decisão de separares as tuas virtudes dos teus defeitos, só aconteceria depois de um momento importante na tua vida, algo que te deixasse a pensar no que realmente vale a pena, um momento quente, de ebulição. Esse momento era o que tornaria possível essa separação. Isto tudo para te dizer que a destilação é a separação de duas substâncias diferentes através do aquecimento, a purificação.”

Patrícia Prata, in My Second Novel

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O muro

O vislumbre do muro que separava um país do outro causava arrepios. O arame farpado tornava visceral a ideia da transposição, como se o caminho fosse a austeridade disfarçada de inconsciência. Seiscentos quilómetros de uma patologia sem reflexão. Era na Cidade de Tijuana que a cerca se estendia até ao mar e na ilegalidade dos túneis que a passavam, pesavam as mortes dos dramas dos transeuntes.

Patrícia Prata, in My Second Novel

domingo, 4 de outubro de 2009

Na contra-luz da vida

Filipa tirava fotografias a todas elas e procurava a perfeita para si. Andava entusiasmada com a viagem, há muito tempo que procurava uma pausa daquele género, uma abstracção do peso da vida que levava. Procurava, como todas as restantes, livrar-se das imperfeições do dia-a-dia, dos detalhes menos agradáveis, das frustrações. Todas sabiam que eram apenas vinte e um dias. Mas gostariam que fossem como uma foto tirada contra o sol: a silhueta perfeita pela ausência de detalhes. Na contra-luz não se vêem imperfeições. Todas queriam viver nem que fossem apenas vinte um dias na contra-luz da sua vida.

Patrícia Prata, in My Second Novel

domingo, 27 de setembro de 2009

O medo de assumir...

A miopia de Francisco era intencional e era dolorosa, tornara-se numa doença sem retorno. A sua miopia iria levá-lo à permanente cegueira, à infelicidade total. No seu inconsciente sabia que nunca ia ser feliz, mas preferia viver na ilusão de um dia encontrar a mulher que o preenchesse, preferia que a fraude da sua vida cobrisse os seus olhos, porque a vergonha que o atormentava era terrivelmente pesada para os seus ombros e não suportaria o peso de admitir que a sua felicidade estaria nos braços de um homem. Gostava, realmente, que ele conseguisse ser feliz, que o medo que o afrontava rompesse as correntes que o impediam de seguir o seu verdadeiro caminho mas a defesa automática e inconsciente que transportava na sua mente, rejeitava todas as motivações e emoções que o levariam a tomar fosse que passo fosse nessa direcção e a repressão conduzia-o para baixo, tão fundo que já nem ele próprio ouvia a sua voz interior. Estava abafada pelos seus receios e medos e o seu enterro já tinha sido há tanto tempo que as letras lapidadas na sua mente já tinham desaparecido, já nem se lembrava do que se tratava. E como era uma intenção solene, tinha decidido buscar o pote de ouro no fim do arco-iris, num dia sem chuva, num dia seco. Caminhava e, no seu cepticismo sabia que nada ia encontrar mas a teimosia em contrariar-se, alimentava-lhe a força das pernas e continuava a andar, e andava, andava. Num caminho sem volta mas sem destino.

Patrícia Prata, in My First Novel

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Per voi Paolo, se sai chi sono io

Sinossi

Laura è stato il viaggio di una vita. La vostra generazione disse di non mescolare tra loro e, comunque, riducendo lo spazio di una vettura del Trans-route Siberian si limita a vivere con un gruppo di persone provenienti da due generazioni di fronte a voi. L'amore che provava per Paolo, un italiano di trent'anni più vecchio, che aveva dato lui la passione per l'esperienza idilliaca delle loro mani, i giovani del suo corpo, il desiderio lussurioso di una donna che aveva conosciuto là e che i conflitti con il nonno, Laura ha dimostrato che il percorso era più importante della destinazione e che, attraverso tutte le interferenze che deriverebbe da un viaggio generazionale, Laura avrebbe fatto una donna diversa.

Patrícia Prata, in My First Novel

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sinopse

Laura fazia a viagem da sua vida. A sua geração dizia-lhe que não se misturasse com as outras e, no entanto, reduzindo-se a um espaço de uma carruagem do Transiberiano , via-se confinada á convivência com um grupo de pessoas de duas gerações á sua frente. O amor que sentia por Paolo,um italiano trinta anos mais velho, que lhe dera a paixão idilica pela experiência das suas mãos, na juventude do seu corpo; o desejo lascivo de uma mulher que ali tinha conhecido e os conflitos com o seu avô, mostravam a Laura que o caminho era mais importante que o destino e que através de todas as interferências geracionais que resultariam daquela viagem, fariam de Laura uma mulher diferente.

Patrícia Prata, in My first Novel

Renascer mulher

Lia-lhe os gestos como se fossem um livro, a vontade de saber o final era cada vez maior e assim como tinha acontecido com Paolo, decorava-lhe todas as movimentações do corpo. Pareciam perfeitas naquele contexto e na sua ausência de feminilidade, surgia uma sensibilidade fora do normal, como se tivesse renascido mulher apenas para aquele momento.

Patrícia Prata, In My First Novel

Resposta muda á Natureza

No fim soltou um suspiro, como se tivesse esperado uma eternidade para me dizer tudo aquilo. Eu ainda estava a digerir as suas palavras, quando um silêncio mudo se apoderou das planicies verdes onde estávamos. Não se ouviam nem vozes nem ruido nenhum, parecendo que a própria Natureza se tinha calado para ouvir a minha resposta. Aqueles segundos intermináveis deram espaço para Inês olhar para mim, e com o olhar, pedir uma reacção.

Patrícia Prata, in My First Novel

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Presa num corpo de mulher...

Mas ali estava ela… a alma perfeita, presa a um corpo feminino. Momentos houveram que me apetecia beijá-la. Era tudo tão certo, tão profundo, sem cedências, sem calculismos, que a única barreira que existia era ela ser mulher. Quantas vezes não pensava em tocar-lhe nos lábios, para saber, para compreender… Sempre achei que o beijo dizia muito mais das pessoas do que os sapatos!

Patrícia Prata, in My first novel

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O mundo não vive só de heróis...

No dia do acidente tinha decidido morrer, tinha escolhido mandar-se duma ribanceira para não enfrentar os problemas, para não ter de os resolver. Para alguém se decidir matar é porque perdeu as forças num caminho que acha que já não tem volta. Que por mais que faça seja o que for, nada interessará, nada mudará o futuro que se espera negro. O curriqueiro é lidar com um futuro incerto e a incerteza já é um tormento bastante pesado mas lidar com um futuro aparentemente trágico é preciso muita coragem para se levantar e dizer que temos força para o derrubar. Se o suicidio é cobardia, talvez seja, mas o mundo não vive só de heróis.

Patrícia Prata, in My First Novel

domingo, 13 de setembro de 2009

Discurso incongruente

Via-me num discurso incongruente. Queria sentir tudo, mas não me queria dar, queria ver mais longe, mas sentia-me míope, queria ouvir mais, mas o ouvido era selecto e do cheiro que andava no ar, só os bons aromas queria provar. Se não sentisse o mau sabor, nunca conseguiria saber o verdadeiro paladar das coisas. Mas sentia-me mais segura e mais protegida. Havia uma fresta aberta na minha janela, pronta para receber o lado lunar das coisas e esperava que esta viagem me preparasse para a recepção.

Patrícia Prata, in my First Novel

Da janela do comboio vejo a Sibéria...

Recostei-me a espreitar pela janela, e como se fosse um filme, espiava as planícies que corriam pela tela, como se fugissem de alguma coisa. Haviam alturas que pareciamos passar por sitios que Deus se tinha esquecido que existiam. Estavam reservados ao abandono, como se tivessem cometido todos os pecados mortais e os tivessem deixado ali por ser proibido o perdão.

Patrícia Prata, in My first novel

A chegada..

Chegámos á estação de comboios. Uma estação como outra, de qualquer cidade do mundo: agitada, cheia de gente com malas de um lado para o outro, um grupo de turistas com mapas na mão e mochilas ás costas, uma familia com os filhos a correr de entusiasmo, uma namorada que parte, um marido que chega, enfim um misto de emoções que se sentia no ar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sensualidade de um amor maduro

Fiquei a pensar em toda aquela situação. Sentia-me a reagir, não tinha a certeza dos meus sentimentos. Aqueles acontecimentos baralhavam-me os sentidos. Não sabia se gostava do Paolo ou se o meu orgulho tinha ficado ferido. Quando o vi tão aflito em me perder e percebi a honestidade das suas palavras, alguma coisa mudou em mim. Sentia que estava a ser egoista e mesmo ruim. Gostava da ideia de ter um homem como ele a amar-me. Era extremamente sensual sabê-lo, mas não sabia até que ponto gostava dele.

Patrícia Prata, in My first novel

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Restringindo o espaço, dilatando o tempo

Todas as tardes que passava com ele na sua casa, eram agradáveis e tinha sempre vontade de lá voltar. Como é que restringindo o espaço e dilatando o tempo, as coisas mudavam? Eram, apenas, duas variáveis que se alteravam, tudo o resto era constante e, no entanto, tudo ficava diferente.
Tinha de fazer um esforço para não ser egoista, para me identificar emocionalmente com o eu dele, para perceber que era eu que tinha de ceder, porque a idade ganha esse estatuto, teria de ter eu a responsabilidade de tornar aquela viagem agradável, era eu que tinha de estar agradecida.

Patrícia Prata, in My first novel

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Silhueta gravada

Apagaram-se algumas velas e o brilho dos olhos intensificava-se, vendo-se, apenas, silhuetas na sala. Sabia bem como era a de Paolo, tudo o que lhe dizia respeito estava gravado na minha memória. Todos os traços do seu rosto estavam impressos na minha mente. Era uma coisa nova para mim. Tantos pormenores deliciosos e eu não me conseguia separar deles.Sentada a ver o espectáculo, os meus pensamentos embrenhados na escuridão daquela sala, levavam-me duas filas acima. O cheiro das cerejas lembravam-me o sabor da sua boca. Queria olhar para trás mas a evidência prendia-me os músculos do pescoço. Ao mesmo tempo não queria que ele percebesse que o procurava, nem ele nem os demais.

Patrícia Prata, in My first novel

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Segredou-me com um beijo...

Senti que estava alguém comigo, porque a temperatura do meu corpo começou a subir. Aos meus braços abertos na água, sobrepuseram-se outros. Senti a respiração no meu ouvido como uma brisa querubinica, os meus olhos não o viam mas o meu corpo sentia o seu desejo. A força dos seus braços puxava o meu corpo contra o seu e ficámos como duas conchas que encaixavam perfeitamente uma na outra. Um beijo segredou-me no pescoço a vontade que tinha em conhecer o meu sabor.

Patrícia Prata, in My first novel

domingo, 30 de agosto de 2009

Don´t be caught!

Paolo sorria para mim e dizia, em voz baixa, o quanto me desejava e ao mesmo tempo tocava-me nos joelhos nus, que eu levava, por trazer calções vestidos. A minha pele arrepiava-se com o seu toque e ao mesmo tempo, o medo de que as pessoas, daquela mesa, se apercebessem, fazia-me desejá-lo mais e a pressão da Inês ao meu lado, contraia-me o peito do medo de ser apanhada. Não sabia se era dos condimentos apimentados daquela refeição ou se do contexto que eu estava a viver, as maçãs do meu rosto enrubesciam.

Patrícia Prata, in My first novel

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Imóvel

O ar arrombou-me o peito como se quisesse furar os pulmões, sentia os joelhos a tremer e as veias a latejar do sangue que passava a correr. Queria correr mas os pés não se moviam, queria abrir os braços mas os ombros pesavam-me, queria sorrir mas os lábios estavam ressequidos. Pedia a Deus, no meu pensamento, que ele viesse até mim, porque eu não conseguia. E como se Deus quisesse dar prova que me ouvia, Paolo veio na minha direcção.

Patrícia Prata, in My first novel

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Olhar lascivo

Queria conhecê-la, saber mais dela e facilmente conquistei a sua atenção. Um dia convidei-a para ser nossa companhia num jantar, minha e do meu avô e ela aceitou com um sorriso, acompanhando-nos nessa noite. Foi agradável e de certo modo, lisonjeador. Inês olhava para mim, de uma forma libidinosa, quase lasciva e isso agradava-me. Nunca me tinha sentido desejada por uma mulher e apesar de não ser um desejo reciprocuo, enchia-me o ego. Era muito educada e nunca se aproximou demasiadamente, de forma a respeitar o meu espaço. Tinha consciência que a minha forma de agir a deixava na dúvida. Ela não conseguia perceber se eu olhava para ela, da mesma forma, que ela olhava para mim e eu fazia-o com consciência. Queria provocá-la para saber até onde ela iria. Foi uma injustiça feroz, eu estava a agir sabendo, de antemão, que não iria reagir. Sentia-me como um homem que galanteia as mulheres, só pelo prazer da conquista. E a infantilidade trouxe-me a consequência indesejada: ultrapassei a distância de segurança.

Patrícia Prata, in My first novel

domingo, 23 de agosto de 2009

Encantada...

Tinha um cabelo grisalho de maturidade e quando esboçava um sorriso mostrava uma confiança que me desarmava. Ao mesmo tempo o seu olhar buscava o regaço de candura, de alguma pureza perdida nos anos que tinham escorregado por entre os dedos das mãos. Parecia chamar-me de dentro, como se quisesse soltar um grito mas não tivesse coragem e entre nós um iman geográfico, puxava o lugar onde eu estava para junto do dele. Aquele clima intimista, de luzes fechadas pelo som da voz do fadista, e as letras desconcertantes do Fernando Pessoa, faziam com que os nossos olhares se tornassem suspeitos.
Sentia-me encantada com a sua forma de ser.

Patrícia Prata, in My first novel

Passado Perfeito...

O seu olhar era feliz, dizia que já tinha vivido tudo o que queria, e mais importante que isso, tinha sentido e experenciado tudo o que prentendia: amou uma mulher uma vida inteira, teve três filhos com muito amor, netos e bisnetos. Nunca tinha tido muito dinheiro, apenas o suficiente para viver e dar a viver aos seus filhos. Não fazia falta. “Temos de aprender a viver com aquilo que a vida nos dá, senão somos uns eternos insatisfeitos, uns infelizes. Não podemos relativizar, constantemente tudo e é nossa opção escolher a felicidade e a paz de espírito. Tornamo-nos mais felizes e fazemos mais felizes quem nos rodeia e por isso posso morrer hoje, com a consciência que tive um “Passado Perfeito”…” – disse ele com uma voz também ela enrrugada. Fiquei a pensar no que ele disse e comecei a olhar a paisagem tranquila que nos rodeava. O rio calmo sobressaia dos verdes montes que serviam de base e em baixo as casas de madeira com telhados inclinados e compridos salpicavam de cores o verde das montanhas.Era uma tranquilidade contagiosa que tinha chegado áqueles montes e margens para se instalar e não tinha intenção de se ir embora.

Patrícia Prata, in My first novel

No lago, a denúncia de um desejo...

De olhos fechados, apenas a água separava os nossos corpos. As suas mãos percorriam-me como se eu fosse um caminho já conhecido e nas minhas curvas, deitavam-se como se tivessem sido elas a moldarem-me. O meu coração bombeava, com toda a força, o sangue que corria para todos os pontos do meu corpo e a respiração acelerada fazia com que os meus pulmões conhecessem de verdade os seus limites. Queria virar-me para ele mas não me deixava, a sua experiência na juventude do meu corpo parecia um contrasenso. Invadia-me o espaço num hiato de tempo distante que separava as nossas duas gerações.

Patrícia Prata, in My first novel

E se lhe dissesse?

E se lhe dissesse? E se lhe dissesse que o procurava porque ele me intrigava; que a sua idade não me assustava; que me apetecia beijá-lo sem falar no assunto, sem ter de explicar porque se beija um desconhecido, sem grandes conclusões moralistas? E se eu lhe dissesse que quando ele passa tremo de ansiedade, transpiro de vergonha, sorrio por dentro como se fosse uma menina apaixonada pela primeira vez...

Patrícia Prata, in My first novel

Excertos

Estávamos já longe das casas, longe dos olhares indiscretos, embrenhados naquela paisagem que nos chamava para dentro dela. Eu apenas sorria. Esperava que acontecesse qualquer coisa mas não sabia bem o quê, pensava na idade dele, coisa que lhe tinha dito que não, e parecendo-me ler o pensamento, disse-me como se a voz saisse de um fundo de um poço “cinquenta e nove… tenho cinquenta e nove anos, Laura!”.

Patrícia Prata, in My first novel

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Não tens as palavras certas


Tens um discurso incerto
Palavras que as dás ao vento
Verdades não dizes de perto
Mentiras no teu pensamento

Enleias-me no teu discurso
Com doces palavras segredas
A mentira é teu recurso
Que com doces palavras azedas

Sei que o fazes, não me enganas
Mas deixo-te continuar
Para que as palavras que emanas
Me sigam a perturbar

O teu olhar não é honesto
Confesso que disso sei
E é esse o meu protesto
Porque em ti acreditei

Já não me enganas agora
Não tens as palavras certas
Que da boca saem para fora
E que são sempre descobertas.

Patrícia Prata, 17 de Agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

No trem da vida que passa...



Encontrei-me no caminho
De mil quilómetros andados
Num mundo quase sozinho
Das voltas já revirado

Percorri vezes sem conta
Para encontrar explicação
Para que a dúvida que me afronta
Sossegasse no meu coração

Conheci a verdade nua
Que não via da convivência
O olhar roubou-me a lua
O discurso foi incongruência

Olhei de frente e não queria,
Custava-me a digerir
Que em pouco tempo um novo dia
Poderia não mais surgir

Regurgitei palavras dadas
Não fiquei mais sossegada
Sentia como que pancadas
Que não me davam quase nada

Os olhos turvos da água
A força na parede do peito
A expressão que enrruga a mágoa
E a causa torna-se efeito

Prometi não chorar de raiva
No trem da vida que passa
Porque na fúria da saraiva
O sol mostra a sua graça

E se um dia mau que passou
Trouxe ao mundo solidão
Outro dia a mais entrou
Na vida que me deu a mão

Patrícia Prata, 14 de Agosto de 2008


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 06/08/2009 - 15º Dia – Pequim,Grande Muralha - China (+7h que em Lisboa)


Adormeci de manhã e não dei o tempo suficiente ao meu avô para se despachar. Consegui arranjar-me em 5 minutos mas não podia exigir dele o mesmo e fizémos esperar a camioneta inteira cerca de meia hora.

É uma coisa que me inquieta: fazer esperar alguém, de certa forma até me altero e aquele ar pacífico, próprio de mim, transforma-se e é visivel a minha agitação.

Aquilo não me podia acontecer, especialmente no dia pelo qual eu tanto esperei: o da visita á Grande Muralha.

Aquele quarto tornou-se em quarto de guerra. Querendo apressar o meu avô, o velho ditado do "quanto mais depressa, mais devagar" punha-se a jeito no contexto. Não comemos nada e fomos directamente para a camioneta. Cerca de 60 olhos miravam-nos em reprovação. Pedi desculpa pelo sucedido e iniciámos a viagem.

O azul do céu de Pequim esconde-se por trás de uma nuvem cinzenta de poluição. Parece estar sempre nublado e a caminho da muralha, a humidade descia e apoderava-se do cume das montanhas que iam surgindo no caminho. Parecia que estava prestes a chover e o frio do ar condicionado da camioneta dava a sensação de tempo invernoso lá fora. Na base da Muralha saimos da camioneta e um sopro quente acalentou-me o corpo. O guia deixou-nos á vontade e informou-nos que tinhamos cerca de 1h30 para fazermos o que quiséssemos. Cá em baixo existiam alguns cafés e casinhas de artesanato e o meu avô optou por ali ficar, juntamente com outros companheiros que preferiram não subir.

Comi qualquer coisa para ganhar forças. Aquele troço de muralha era muito alto e o calor não ia facilitar a subida.

Respirei fundo e comecei a subir. Era o culminar da viagem, aquilo porque tanto esperava: estar numa das 7 maravilhas do mundo.

Deviam estar milhares de pessoas ali concentradas, umas a subir e outras a descer. Todas iam bem dispostas pois pareciam que por ali estar iam fazer parte da história. Era, pelo menos, o que eu sentia.


Subi cerca de 3 torres em meia hora. Apetecia-me subir mais, mas fiquei com medo de chegar atrasada. Os 8.850 km que se estendem sob a muralha pareciam-me pouco. São praticamente os mesmos kms que percorri no Transiberiano. Cada vez que subia uma torre, olhava para baixo e a altura era assustadora. Os degraus altos não ajudavam. Quantas pessoas não devem ter perecido na sua construção. Diz-se que cerca de 250.000 homens! E que mais de um milhão entre soldados, camponeses e cativos foram necessários para a sua construção.


Estava radiante! Subia as escadas como se no fim fosse encontrar um pote de ouro! Nem o calor nem os degraus me puxavam para trás, apenas o limite do tempo. Passei por alguns companheiros de viagem que se via tentarem o mesmo.

Na subida das escadas chegava a formar-se fila e foi nessa altura, da terceira torre, que achei sensato iniciar a descida. Fui tirando várias fotos e filmes nos vários niveis em que me encontrava. Queria tudo bem documentado. E a meio da descida, aconteceu outra vez: um grupo de chineses pediu-me para tirar fotos. Eu respondi que sim e no fim perguntei-lhes, em inglês, porque queriam tirar fotos comigo e eles responderam-me: "Pretty!Pretty!". Foram irresistiveis aquelas palavras. Ainda que não fosse verdade tornou o meu dia mais feliz.


Cheguei a tempo de comprar uns souvenirs. Tinha de adquirir um iman da grande muralha para o meu frigorifico. Qualquer dia não tenho espaço para o abrir mas de certa forma é a prateleira dos meus troféus. Existe coisa melhor do que se viajar?

Parti da Muralha com a sensação de "dever cumprido".

Dali fomos almoçar a um restaurante. A comida chinesa era mais agradável que a russa e a mongol mas o meu estômago ainda se sentia deprimido. De qualquer forma a mesa rodava no meio e eu comia com os pauzinhos para dar alguma alegria á refeição.

Cruzei-me com o italiano. Que consolo para os meus olhos. Era uma pausa de pensamentos para a minha mente. Tinha conseguido arranjar uma forma de me abstrair de tudo quando o via. Sabia que não ia passar daquilo mas punha-me bem disposta.

O ritual mantinha-se, depois de almoço mais uma visita. Desta vez a uma fábrica de seda. Mostravam como faziam tudo, desde os casulos até á produção de roupa. Foi interessante mas não tinha intenção de comprar nada.

Voltámos ao hotel para um belo banho. A ideia era um jantar glamoroso de despedida: ia ser á nossa última noite em Pequim e o regresso ás nossas casas. Todos os grupos de várias nacionalidades se iam juntar naquele jantar.

Eu meti as minhas calças de ganga e uma t-shirt. Não podia evitar o ar descontraido que sempre tive durante a viagem. Ia soar a forçado. Um toque despercebido para me sentir bonita. era o que bastava.

Viu-se nos trajes alguma preocupação. Alguns, a meu ver, exagerados, optei por não criticar, preferi tentar entender a alegria com que os passeavam.

O jantar foi animado. Todos sentiam, que apesar de algumas adversidades levavam na bagagem algo positivo, nem que fossem os souvenirs!

O nosso, companheiro de bordo, médico, disse á plateia algumas palavras que me fizeram esboçar um sorriso. Falou da viagem e como tinha sido uma experiência importante para todos nós e agradeceu-me a mim e ao outro neto a nossa juventude. Fiquei feliz, porque pensei que apesar da minha ausência, num mundo que é só meu, consegui transmitir alguma coisa.

Olhei para o grupo e tirei-lhes fotos. Não queria perder a imagem das pessoas, que de certa forma, contribuiram para a minha bolinha de mercúrio. A maior parte delas conseguiram fazer com que eu me debruçasse a pensar em coisas que nunca me tinham passado pela cabeça.

A sua contribuição foi valiosa e agora compreendo uma frase que li na revista "Volta ao Mundo" antes de embarcar nesta aventura : "Chamam-lhe a mãe de todas as aventuras porque atravessa dois continentes, dez mil quilómetros de ferrovias e oito fusos horários. Mas sobretudo porque ninguém volta a ser o mesmo depois de fazer o transberiano." Eu acrescentaria que trazemos connosco a experiência das vidas com quem partilhámos o caminho.

De facto, não voltarei a ser a mesma.

domingo, 9 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 05/08/2009 - 14º Dia – Pequim, Cidade - China (+7h que em Lisboa)


Passámos o Deserto de Gobi e vi os camareiros do comboio a andarem a tapar todas as janelas e portas do comboio para que a areia não entrasse.

O terreno era árido, mas não tinha aquele ar de deserto que se está á espera. Chegámos a passar por alguma vegetação rasteira onde corriam camelos livremente. Estava á espera de poder dar uma volta com eles mas no sitio onde o iamos fazer houve uma questão logistica que nos impediu de o fazer.

De manhã acordámos estava o dia a despertar. Eram 5 da manhã e iamos chegar a Pequim por volta das 06h20. Tinha dormido muito melhor porque em Erlian mudámo-nos para o comboio chinês e ainda que nos possamos abstrair de algumas coisas para nos concentrarmos na viagem, dormir numa cabine com mais condições proporciona um soninho mais descansado.

Fomos directamente para um hotel que ficava perto da estação ferroviária. Não tinhamos comido no comboio, iamos tomar o pequeno almoço nesse hotel.

A despedida dos nossos camareiros foi emocionante. Parece que não, mas estivémos cerca de duas semanas juntos e a Viktoria e o Sasha foram os melhores camareiros que se podia ter. Apesar de não falar nem português nem inglês a Viktoria sorria, acenando com a mão e dizendo Patricia! Tocou-me no coração.

Chegámos ao hotel e fomos comer. A pirâmide de Maslow não engana, enquanto não temos as nossas necessidades básicas satisfeitas ninguém passa ás seguintes. Nem o "eu tenho" ou o "eu fiz" se ouvia. Queriamos comer.

Passei pelo grupo de italianos que partilhava connosco esta viagem. Não nos misturávamos muito, passávamos por eles e éramos mutuamente simpáticos.

Não sei porquê mas aquele italiano inquietava-me. Como é possivel não sei, porque nunca falei com ele. Acho que ele olhava para mim e percebia e, de certa forma, ficava embevecido por uma miúda olhar para ele. Uma miúda que deveria ter metade da idade dele... é que davam-me sempre menos de 25 anos e o italiano, que aparentava ter 40 tinha na verdade 59!!

Havia vezes, que arranjava uma desculpa esfarrapada para passar na carruagem 7 e poder cruzar o meu olhar com o dele. Eu sei que ele olhava, essas coisas percebem-se mas a razão era diferente. Devia-lhe encher o ego e eu gostava de ver o charme dele a passear-se.

Depois de bem alimentados seguimos em direcção á Praça Tiananmen. Tiananmen significa paz celestial... até parece uma graçola sem graça nenhuma... não tenho conhecimento histórico (mais uma vez uma ajuda dos engenheiros dava jeito) para saber se o nome dado á praça é anterior ao massacre de 4 de Junho de 1989. Eu tinha 9 anos e lembro-me como se fosse ontem... Quando o Partido Comunista decidiu suprimir os protestos pela força e entrou com tanques na Praça matando tudo e todos os que se encontravam pela frente... ainda era pequena para entender... agora sou grande e continuo sem perceber...

Quando entrei na Praça só me lembrava desse dia de sangue. Olhei em redor e vi as milhares de pessoas que se juntavam ali. A maioria eram chineses e vinham de todas as partes da China. É época alta e os chineses fazem muito o "vão para fora cá dentro". Vêem-se alguns ocidentais, mas não tantos quanto eu esperaria.

Pareciamos formigas na designada maior praça do mundo. E, de facto, é muito grande e imponente. Num dos extremos uma foto gigante do sr. Mao Tsé Tung, um dos fundadores do Partido Comunista Chinês, impunha-se como dois olhos controladores sobre a praça. Eu própria me sentia observada.

Iamos em direcção á Cidade Proibida e a caminhada prometia cerca de 2h30 de chão, uma ponta de calor húmido acompanhava-nos para torná-la mais dificil. Entrámos nos portões da Cidade, uma cidade dentro da de Pequim que quando outrora tinha sido residência de imperadores estava proibida a quaisquer pessoas que não fizessem parte da familia do imperador ou do seu pessoal doméstico. Não visitámos todos os 980 edificios que existem nesta cidade mas conseguimos perceber a sua importância como centro cerimonial e político do governo chinês, nem que fosse pela sua grandiosidade.

Os chineses são um povo, na sua maioria, pacifico. Nem sequer parecem muito habituados á presença ocidental. Já tinha percebido que ao passar tiravam fotos como os seus telemóveis mas foi na Cidade proibida que me senti uma verdadeira vedeta. Um grupo de chineses fizeram fila para tirar fotos comigo. Parecia que me conheciam de algum lado. Riam-se, abraçavam-me e pediam-me afincadamente que eu deixasse tirar mais uma foto com eles. Os parceiros iam mudando, dos mais novos aos mais velhos todos queriam uma foto ao meu lado. Tudo aquilo me parecia surreal mas engraçado. Percebi que queriam uma foto comigo por eu ser diferente, por ter os olhos grandes.

Estávamos exaustos. Todos nós tinhamos percorrido cerca de 4 km sob um calor enraivecido.

Almoçámos noutro hotel. Já nos sentiamos mais juntos, mais grupo. Com a barriga cheia seguimos para um templo mas continuava tudo muito parecido, não sei se seria do cansaço mas tudo já era muito igual para mim. Passei a maior parte do tempo a falar com o nosso guia de Pequim. Era chinês mas como de costume falava espanhol. Senti uma aproximação por sermos da mesma idade e a conversa fluia com facilidade. Creio que era eu que precisava de ver e falar com pessoas da minha geração por sentir que a minha juventude era absorvida naquele meio. Assim carregava as baterias.

Voltámos ao hotel . O meu avô estava exausto e preferiu comer no quarto. Eu por minha vez toda a desculpa era boa para sair. Fomos jantar a um restaurante, relativamente, perto do hotel e quando voltámos fui a pé comer um gelado. Aquela sensação de liberdade arrepiou-me a pele, como se a não sentisse há já 15 dias. Estava sozinha a comer um gelado e a passear pelas ruas de Pequim. Quis partilhar aquele momento com pessoas que ali não estavam. Peguei no telefone e liguei aos meus amigos em Lisboa. Sentia umas saudades desenfreadas deles todos e eles mostraram que também sentiam minhas.
Estava quase... Mais dois dias e estaria no meu território.
Voltei para o hotel com a intenção de descansar, o dia seguinte iria visitar a grande muralha e queria estar descansada pois fazia grande expectativa.

Entrei no quarto, deitei-me e adormeci. Nem o facto do meu avô andar de um lado para o outro, como costume, me tirou o peso dos olhos.

TRANSIBERIANO - 04/08/2009 - 13º Dia – Erlian - China (+7h que em Lisboa)


Chegados á fronteira entre a Mongólia e a China, já como tinha acontecido entre a Russia e a Mongólia, o comboio parou algumas horas para a verificação dos passaportes por parte das autoridades locais.


Já nos tinhamos zangado, eu e o meu avô. Nem sequer consigo dizer a razão. Apesar de me considerar extremamente paciente haviam alturas que estava prestes a explodir, porque o "porque sim e o porque não" têm esse efeito em mim.


A distância entre as gerações não é razão suficiente para tantos desacatos. Creio que a maior parte das pessoas, excepto as que se encontravam lado a lado das nossas cabines, se apercebiam das longas e tortuosas conversas que mantinha com o meu avô na cabine 8.

Na sua opinião, eu era alguém, que por ser gerente, estaria habituada a "mandar" e que a minha vontade tinha de ser feita. Para além do que não me expressava oralmente com a fluidez que ele achava ser necessária para a compreensão das pessoas.


Ora, quando eu tentava me expressar era logo mandada calar, porque eu não deixava falar ninguém. Perante tamanha incongruência de discurso, a minha resistência ia abaixo e debatendo-me com o facto de ficar nervosa, sem saber como reagir, continha esses nervos debaixo de uma força a que o meu corpo não estava habituado. Sentia as veias a dilatarem-me no pescoço e o sangue a correr como louco em direcção á cabeça.

Acabava por fechar os olhos, respirar fundo e ausentar-me da cabine até conseguir fazer reset no meu estado de espírito. Quando voltava, o meu avô continuava a falar mas eu já não respondia. Considerava ser uma forma de manter o respeito que tinha por ele e procurar na adversidade a tranquilidade.


Naquele dia adormeci assim. Sabia que ele estava zangado mas era incapaz de lhe pedir desculpa, apenas porque não encontrava razão nenhuma para isso. Mas sei que se o fizesse, o meu avô restauraria o seu lugar e ficaria feliz.


Acordei cedo. Tinham-me dito que só seria preciso sair do comboio por volta do meio dia, depois das autoridades vasculharem-nos a vida impressa nos passaportes. O meu avô estava cansado. Como é costume não tinha dormido nada. De noite parece que ganha vida e anda pela cabine a arrumar não sei o quê.


Levantei-me, fui tomar o pequeno almoço e trouxe-lhe o seu até á cabine, como continuava a dormir deixei-lho em cima da mesa. Ainda era cedo e parámos na fronteira quando me deu a sede; já esperávamos pelos policias há pelo menos 1h. Fui até á carruagem do restaurante beber água e esticar as pernas que neste percurso devo demorar uns 4 minutos. Quando voltei estava montada tamanha confusão á porta da minha cabine que percebi logo o cenário. O aglomerado era constituido por policias, pelos camareiros e pelos restantes passageiros das cabines do lado. Quando me viram gritaram "Patrícia! Patricia! Onde estavas?!". Dirigi-me á cabine, esperando já o arraso público. Estava o meu avô sentado, desgrenhado e gritando-me "Nunca mais me fazes isto!!", ainda tentei responder "Fui só buscar água" mas não valeu a pena. Estava tão enraivecido por ter policias dentro da sua cabine a falarem-lhe numa lingua que não entendia que a culpada era eu e só eu.

Fui buscar os passaportes e dei aos policias. Um deles perguntou-me "It's your husband?" e eu franzi os olhos e disse "No, it's my grandfather!". O policia chinês olhou para mim e abanou a mão como se se tivesse queimado, querendo partilhar da minha preocupação com toda a situação.

O aglomerado dissipou-se e o meu avô só me dizia, com ironia, que estava feliz por eu lhe fazer tanta companhia e o ajudar tanto.

Tenho consciência que me tinha andado a afastar para procurar a tranquilidade e serenidade que não consigo ter junto do meu avô. Talvez tenha sido egoista nessa busca e tenho consciência que optei pela via mais fácil.


Saimos para Erliang, a cidade de entrada na China logo a seguir á Mongólia. Era outra cidade sem grandes coisas para ver mas era notável que diferença entre paises se podia concretizar em apenas 724 km.

Tudo estava, aparentemente, organizado: um sitio para os carros, outro para as casas, outro para os riquechós. Nada parecia fora do sitio e dava a sensação de ter sido uma cidade pensada.


Mesmo durante o almoço as confusões que pareciam existir noutras cidades aqui não se verificavam.

Não demorámos muito tempo aqui, logo a seguir ao almoço voltámos ao comboio para seguirmos para Pequim.

TRANSIBERIANO - 03/08/2009 - 12º Dia – Ulaan Bataar - campo (+7h que em Lisboa)

Já há alguns dias que não tinhamos o privilégio de dormir numa cama confortável, espaçosa e sem balanço depois de ter tomado um banho refrescante com água corrente quente.

Como dizia Sócrates, na obra de Platão - Fédon, só se tem verdadeiro prazer depois de se conhecer a dor. E, na realidade, no nosso dia-a-dia, que não nos damos conta de determinadas coisas que temos e que estamos habituados, só percebemos o seu valor na sua ausência. E nesta ausência de algumas coisas que damos como certas todos os dias é que dei valor a como elas nos fazem falta, assim como um bom banho e um sono descansado.

Depois deste ressuscitar de sensações, esquecidas pelo hábito, levantámo-nos e fomos tomar um pequeno almoço revigorante: um belo pequeno almoço continental.
Habituados, igualmente, ao pequeno almoço do comboio, que era servido com base em rações de unidades pormenorizadamente contabilizadas, os nossos olhos, que também comem, sorriram de degustação.

Ninguém falava. Todos passeavam pela sala do Hotel enchendo os pratos e correndo para as mesas para se deliciarem. Queriamos estar de barriga cheia para o passeio que se avizinhava.

Saimos para a camioneta onde o nosso simpático guia nos esperava. Já tinha colado de manhã o sorriso na cara e não tinha intenção de o tirar. Vinha com a alegria de trabalhar estampada no rosto, acreditando que disso os seus dois filhotes, que com tanto orgulho me mostrou no seu telemóvel, dependiam.

A paisagem tornou-se mais natural. Dava a sensação de sermos uma corrente de água que rompia os vales das montanhas e que contemplava nas suas margens a verdura que alimentava as vacas e os iaques passeantes .

A camioneta parecia não reparar que pela sua frente passeavam animais. Era tudo tão natural que pertenciam todos á paisagem. O condutor desviava-se das vaquinhas sem qualquer hesitação e um suspiro de alivio proliferava-se pela camioneta. Depois o sorriso de quem se apercebe que tudo aquilo era normal.

O caminho era longo, passávamos por vários acampamentos para turistas. A ideia destes espaços era proporcionar um descanso real, introduzido na natureza verdadeira. As tendas chamavam-se "ger" que são as habitações típicas dos nómadas mongóis. Tinham os confortos básicos essenciais e estavam situados no meio de montanhas fantásticas, sem grande altitude, mas reclamando para si todo o verde que encontravam no caminho. Este espaço natural era naturalmente partilhado com as vacas e iaques, que com toda a generosidade e passividade o faziam sem reclamar.

Passámos por uma pedra enorme com o feitio de uma tartaruga e lá em cima meia dúzia de pessoas queriam mostrar que a coragem podia ser da altura de uma rocha.
Regateámos um pouco com quem estava a vender artesanato no sopé da pedra e quem fazia a tradução era uma miudita dos seus 10 anos, que andava a correr de um lado para o outro tentando atender todos os turistas e ajudando sua mãe que não falava uma palavra em inglês.
Continuámos o nosso caminho até chegarmos ás nossas "gers". Iamos almoçar nelas. Estavam situadas num dos tantos vales que existiam nessa zona. Lembro-me que no caminho para lá sentia que percorria kms com a sensação que não ia dar a lado nenhum.
As tendas estavam em cima de uma plataforma de madeira que dava a sensação de ser um terraço e mantinha aquele grupo de tendas ao mesmo nivel. A nossa estava marcada com a bandeira portuguesa. Entrámos e sentámos-nos pelas mesas disponíveis. A comida não chamava por mim... andava a comer do mesmo há vários dias, apenas mudavam as cores dos legumes. Dizia aos meus companheiros de refeição o quanto sentia falta de um polvo á lagareiro com grelos salteados. Tenho a impressão que concordavam comigo mas que não queriam falar no assunto para não serem saudosistas. Nas viagens que faço a primeira ausência que sinto é da comida portuguesa. Mas na falta de melhor enchi a barriga com a intenção de ludubriar o estômago.
Ficámos ali um bocado. Andei pela planicie atrás das vaquinhas que descansavam. Sentia-me livre e apetecia-me andar sozinha a gozar aquele momento. Quem também costumava andar sozinha como eu, era a fotógrafa. Chamemos-lhe assim, porque sempre trazia uma máquina com um ar muito profissional e, de facto, as fotos transmitiam técnica. Também me tirou algumas, a mim e ao meu avô. Vinha do norte com um casal e irmã que demonstravam ser pessoas requintadas. O marido muito discreto e simpático e a esposa tinha uns olhos enormes e brilhantes, pareciam querer sair para falar mais.
Depois do almoço fomos a um hotel que se situava no meio destes vales e que aparentava ser uma antiga residência de um imperador oriental. Tinhamos vindo aqui para ver um espectáculo de folclore local.
Assemelhou-se muito ao espectáculo que tinhamos ido ver no dia anterior, na cidade de Ulaan Bataar e eu que ainda estava com a natureza a revirar-me os olhos de paixão, deixei-me levar e optei por andar no meio dela. Brincava com um cachorrinho que por ali andava a passear a sua juventude. A sua atrapalhação com as patitas e os saltinhos que dava, revelava boa disposição. Aproveitei-me disso. Senti-me uma miuda de 15 anos que brinca com o seu animalzinho de estimação e deixei-me estar...
Tinha sido um dia longo e regressámos ao Hotel quebrados do cansaço.

sábado, 8 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 02/08/2009 - 11º Dia – Ulaan Bataar (+7h que em Lisboa)


Ulaan Bataar é a capital da Mongólia.


Quando chega a Dezembro, começo a pensar nas minhas viagens do ano seguinte e tenho sempre alguns destinos já pensados, mas nunca eu pensei ir á Mongólia. Por razão nenhuma em especial. Mongólia?! O que há lá?!
Pois bem, foi uma surpresa agradável.


Chegámos ao centro da cidade, onde uma praça enorme pretende revelar que o seu povo é grande. Mostram, profundo respeito pela religião mas segundo o nosso guia local, são pouco praticantes de budismo.


A cidade está, praticamente, em construção. Vêem-se muitos edificios de habitação a erguerem-se entre as ruas e aparentam ser de qualidade. Por entre as gruas, aparecem os edificios antigos que parecem cerzir a cidade. Os carros movem-se em consciência automática, porque não há sinais, nem passadeiras, nem nada que nos faça lembrar as regras a que nós ocidentais estamos habituados. Mas não é preciso! Aqui funciona. Ninguém se atropela e sobrevivem, perfeitamente, á confusão.


É um pulsar do mundo com a batida diferente do nosso.


Seguimos em direcção ao miradouro. O miradouro tinha mais de 300 escadas e levava-nos aos olhos da cidade. Comecei a subir as escadas ao ritmo da descida do oxigénio. Pareciam hesitantes os que lá foram: apetecia chegar lá a cima sem ter que subir as escadas pois sob o calor seco que se fazia sentir, estas dúvidas eram legítimas.
Ao mesmo tempo que eu, subiu um senhor. Viaja sozinho. Costuma juntar-se ás irmãs e a amiga delas para fazer quarteto. É mais fácil… Um trio tem sempre um lugar vazio.


Não o conheço… é daquelas pessoas que passa despercebida. Que não deixa pegada… A única coisa que me lembro dele são os ténis que usava. Achava-os giros e modernos. Não sei porque recordo isto.

Faz-me lembrar uma amiga minha que realmente repara nessas coisas: o que é que a pessoa calça. Sempre que conhece alguém, nomeadamente, um rapaz que lhe interessa, repara no género de sapatos que usa. Eu, de facto, sempre ouvi dizer que o calçado revela muito das pessoas mas tal observação passa-me ao lado. Geralmente não julgo ninguém pelos sapatos mas fico intrigada como me ficou na memória este senhor pelos apetrechos que levava calçados.


Outro casal subiu. Muito simples e humildes. Têm uma ternura nos olhos que me enche o coração. De vez em quando um despique entre eles passa as paredes da cabine… mas um despique saudável, chegam a ser engraçados. Parece levarem a vida com leveza, sem grandes dissertações ou raciocinios. Vivem-na, ponto.


Cheguei lá a cima e apesar de eu estragar a média de idades não interessa nada, porque cheguei lá tão ofegante e cansada como qualquer outra pessoa com mais idade. O calor sugou-me a energia. Respirei fundo e olhei em redor, era um monumento em memória dos combatentes da guerra, mongóis e russos, lado a lado.


Quando olhei, tão alta que estava, sentia-me como se tivesse ido colocar a última estrela no cimo da árvore, para lhe dar aquele brilho especial. Que planicie verdejante se estendia naquele mapa! Os telhados coloridos brincavam na grama como se fossem morangos prontos para ser colhidos. Parecia que a Primavera tinha chegado em altura inesperada.

Do queixo da cidade, via-se o buda no seu regaço, que aparece no meio do nada, porque o seu meio envolvente são pequenas casinhas baixas, o que faz dar mais ênfase ao gigante dourado.

Descemos até ele. Um cheiro a incenso no ar marcava o território sagrado. Aproximavam-se com ar de respeito e agradecimento… um agradecimento pela vida e não tanto com o ar de angústia, do querer pedir algo em oração. Não sei se é próprio do ocidental ou do católico… a vida é miserável, nada é suficiente para agradecer e pedimos tudo até que Deus fique com os bolsos vazios.


Uma senhora do grupo, pelo qual sinto uma grande admiração, disse-me numa certa ocasião, uma frase muito bonita: “Deus não ficou pobre com o que já me deu e não ficará com o que ainda me vai dar”.

Fiquei a pensar naquelas palavras e creio, também, pensar da mesma forma até porque acredito que Deus não está aqui para nos castigar. Se os católicos dizem que Deus é nosso pai, que razão teria ele para nos prejudicar? Se um pai da terra só quer ver os seus filhos bem, não seria o Pai do Céu a querê-los mal. Não sei ainda que fé é a verdadeira… não sei se interessa muito. Eu sou católica, cresci a acreditar que existe um Deus e se nos criou á sua imagem, deu-nos o livre arbitrio para fazermos as nossas escolhas e o retorno depende de nós porque apanhamos com duas mãos o que com uma damos.


A fé revela a força de uma pessoa. Os bravos que não acreditam em nada ou não dizem verdade ou um dia quebram.

Seguimos para o palácio de Inverno.

O calor seguia-nos como se fôssemos flores para abelhas, fazendo-nos transpirar e molhar as t-shirts. A maior parte tinham sido compradas já nesta viagem. Já se viam t-shirts de Moscovo, da Praça Vermelha, verdes, amarelas, um misto colorido de “salada russa”.


Não estava muito conservado este Palácio… as cores outrora fortes estavam esbatidas do sol e a madeira comida pelos bichos.

Seguiamos o nosso guia: um rapaz alto com rosto autêntico de mongol. Olhos rasgados e sorriso simpático, falava espanhol e tentava falar português.
Quando dava as indicações soltava uma gargalhada, de vez em quando, quando emitia palavras portuguesas e reconhecia que não as conseguia pronunciar muito bem.
A certa altura perguntou-me o nome e disse que era um nome muito bonito mas eu não consegui retribuir-lhe o elogio porque o seu nome era tão dificil de pronunciar como estranho para os meus ouvidos.
O Palácio não era só um edificio, tinha várias daquelas casinhas vermelhas orientais cerzidas de telhados bicudos e debroados a dourado. Quando entrávamos dentro dessas casas corria uma aragem fresca e aliviava-nos o calor. Pensei que fosse ar condicionado colocado lá para apaziguar os turistas que por lá passavam mas, segundo o guia, aquele ar fresco era próprio das casas, tinham sido feitas de forma a serem frescas no Verão e conservar o calor no Inverno.
Os pátios levavam-nos de um edificio a outro, supostamente sem nenhuma regra mas existiam umas setas que tornavam o itinerário mais rigido, para que não nos esquecessemos de visitar nenhuma casa mas como era de esperar dispersamo-nos. Dividimo-nos, sem intenção aparente, em pequenos grupos, encontrando-nos entre nós numa ou outra casa.


Cruzei-me algumas vezes com o compadre do Sr. Alegre que também me tirou fotos ao longo da viagem por sua iniciativa. De inicio mostrava-se um pouco mais distante, ou pelo menos não tão dado, o que revelava mais facilmente que só se dá se gostar mesmo.

Gosto de pessoas assim, genuínas, não faz fretes, o que é importante e completamente honesto para toda a gente.


Como o invejo! Tantas vezes que me falta a coragem de dizer: “Tu és uma seca! Se me desamparasses a loja fazias melhor! Estás-te a repetir, essa história já me contaste 3254 vezes!“. Quantas vezes?! A muita gente! Mas alguma coisa em mim receia magoar alguém e deu-me uma capacidade de resistência que por vezes não queria ter… faz-me perder tempo.


Depois de almoço fomos a um espaço de criação textil. Era um espectáculo onde, para além das danças e músicas tradicionais mongóis, houve um desfile de alta costura que conjugava a sensualidade das roupas orientais com a beleza da sua tradição.


Estávamos a precisar deste momento de relax. Apenas beleza… sem grandes explicações teóricas, apenas ver e sentir.

TRANSIBERIANO - 01/08/2009 - 10º Dia – Ulan Ude (+8h que em Lisboa)


Ulan Ude fica na fronteira com a Mongólia. Pertence á Russia mas já se nota uma presença oriental.


Fomos visitar um templo budista, o maior deste género, na Rússia.
Todos os templos em que entrámos tinhamos de entrar pelo lado direito e sair pelo esquerdo. Ao sairmos, tinhamos de o fazer de costas, em sinal de respeito.


Os budistas parecem ser, mesmo, como nos filmes: calmos e tranquilos, de um despojamento tal que creio ser de uma coragem tremenda. Não sei se será da cultura… mas vivem tão desprendidos que é impressionante. Eu considero-me uma pessoa já tão desprendida, muitas vezes desprendida não só dos bens materiais..
Este desprendimento, muitas vezes, entra em choque com as pessoas. Esperam de mim coisas que eu não consigo dar… e a dificuldade é que não tenciono dar… iria contra a prioridade de manter a tranquilidade como função vital da minha vida.
De vez em quando quando tento quebrar esta barreira corrompe-se a linha que protege a minha tranquilidade. São poucas as vezes que o fiz e das últimas vezes foi para tentar uma aproximação entre as gerações. No caso com o meu avô.


Quando me pediu para fazer esta viagem, não posso dizer que era aquilo que mais me apetecia fazer. Os planos seriam ir com os meus amigos descontrair para o Algarve. Essa descontracção que eu ando em busca desde Novembro.
Tão simples… ir para o Algarve é a coisa mais curriqueira que pode haver. Mas o objectivo era esse. Descontracção, chinelo no pé e diversão.


O convite não veio na melhor altura, mas é sempre assim. Os desafios são isto mesmo. Se não houver nada para abdicar a dificuldade não é visivel.


Sentei-me a pensar e concordei que o meu avô merecia que fosse. Estava consciente da dificuldade que seria, porque sei que eu e o meu avô somos diferentes e apesar de sermos grandes amigos, uma viagem que proporciona tanta proximidade pode causar instabilidade. Pode. Porque, inevitavelmente, nos revelamos e revelamos o nosso eu mais desinteressante.

TRANSIBERIANO - 31/07/2009 - 9º Dia – Lago Baikal (+8h que em Lisboa)


Quem me dera acordar assim todos os dias… Despertei pelas 7h da manhã e espreitei pela janela… Fácil! Foi só levantar o pescoço para cima. O comboio estava parado e levantei-me mais um bocadinho, encavalitando-me na janela… Do que se via, parecia que estávamos por cima de uma ponte… em baixo a vista para o lago onde se viam uns campistas junto ás margens a tomar banho..


Nem pensei mais um segundo! De um salto sai da cama e fui buscar o biquini e a roupa… Tive de saltar o ritual do banho! Por estarmos numa reserva natural o comboio não pode andar muito depresa, o que faz com que não haja força suficiente para fazer chegar a água aos duches. Bonito! Banhinho que é bom, nem vê-lo hoje!


Estava aquela aragem da manhã e ao mesmo tempo uma neblina agradável que conferia áquela imagem a pimenta que faltava para ser perfeita. Comecei a descer a pequena elevação que ia dar a um aglomerado de casinhas… não mais do que umas seis.


Reencontrei-me com o lago com a alegria de quem não vê um grande amigo há muito tempo e senti as pálpebras a tremer por sentir os olhos que reflectiam sobre aquele quadro romanceado. Não faltava nada… As montanhas que explodiam de verde, a brisa que se ondulava pelas folhagens e um barco atracado nas margens. Parecia um quadro pintado pelas mãos de um poeta..

Nesta pequenina aldeia vivem meia dúzia de siberianos e com quem me cruzei, reconheci no olhar uma certa candura… Foi como se seus olhos me revelassem a inocência da ignorância.. Não resisti a captar o olhar de uma senhora de sorriso simpático, já marcado pela idade..
Subi novamente até ao comboio, desci do outro lado e segui até á zona onde tomavam banho.
Diz a lenda que quem toma banho no Lago Baikal fica jovem toda a vida e não podia resistir á possibilidade remota de ser verdade.


Foi-nos, entretanto, feito o convite (convite pago) para irmos na carruagem da frente, na parte exterior para vermos a paisagem.
O comboio ia devagar ao longo das margens do lago e aproveitei-me do céu solarengo que provocava a beleza da água. Ambos se debatiam pela primazia. Não consegui decidir. A conjuntura da “coisa” fez-me crer que o todo pode ser a soma das partes…

O almoço foi um barbecue animado. Os empregados do comboio juntaram-se e cantaram para nós. Uma das empregadas, já mais sénior, muito alegre puxava por nós. Nem mesmo os mais novos tinham tanta vida como esta senhora!

Seguimos para uma pequena localidade junto ás margens do Baikal de barco. Pudémos visitar um museu e uma igreja.
Mas de hoje o que retenho é o lago.
O lago Baikal é o maior lago de água doce do mundo. Já sabia disto, mas não sabia que era assim tão imenso. Parece o oceano… não se vê terra.
Neste momento estou a escrever sentada na cabine e tenho como pano de fundo o pôr do sol sobre esta lago… que inspiração divina..


O comboio parou agora.


Sinto o cansaço a correr-me no corpo. Dormi pouco, comi mal. Mas a alma ficou alimentada porque o que os meus olhos viram deleitaram-me o paladar. Que dia agradável.
Vou dormir sob este céu estrelado.

TRANSIBERIANO - 30/07/2009 - 8º Dia – Irkutsk (+8h que em Lisboa)


Mais uma hora no relógio. Menos uma hora de sono. Assim a diferença horária até se suporta bem. Passa por nós de forma subtil.


Esta viagem tem sido muito diferente das que estou habituada. Quase sempre vamos sem nada muito organizado… os hotéis marcados, os vôos comprados mas pouco mais. O resto vai-se fazendo, vai-se descobrindo e regemo-nos pelas vontades do momento.


Aqui isso não se poderia passar. A média de idades das pessoas que fazem esta viagem deve estar acima dos 50 anos e acredito que se chega a uma idade que não se está para alguns sacrificios. E se há dinheiro, o Transiberiano é uma boa opção.


A heterogeneidade do nosso grupo é tão grande que consigo encontrar pessoas de todos os géneros, estratos e cultura.
Gostaria de falar de todos, porque nestes 8 dias, todos eles e individualmente contribuiram para que a minha “bolinha de mercúrio” crescesse.


E mais outro dia comprido. Saimos ás 09h30 e só voltámos ás 22h00 ao comboio.
De manhã começámos pela visita panorâmica á cidade, como já é hábito.


Todas as cidades têm guias locais.
Nesta cidade a guia russa falava espanhol. E ,claro está, o TUGA desenrrasca-se sempre e até percebe espanhol e sujeita-se… que remédio! Sempre fomos os “desenrrascas”. Não percebo é porque é que continuamos assim… na cauda do mundo… E a “abanar a abanar” que nem cãozinho… enfim…


Aquela voz aguda proliferava-se pela camioneta. Parecia uma velhinha sentada junto á lareira a contar histórinhas. Um som que se tornou ruido e que acabou invadindo-me de tal forma que não conseguia concentrar-me nas palavras.


Dirigimo-nos para fora da cidade de Irtursk para almoçar, junto ao Lago Baikal, numas casinhas de madeira.
Fui para longe nos meus pensamentos… a ideia idilica de uma casa de campo junto a um lago foi espelho do que os meus olhos viram. Uma paisagem indescritivel… Ainda bem que existem as fotografias para poder demonstrar um pouco melhor..
Do almoço fomos ao museu da madeira, que mostrava vários tipos de casas utilizadas pelos indigenas. No terminal das casas mais uma paisagem que se revelou como um tranquilizante.. Se eu não sabia como seria a minha casa de sonho, agora tenho a certeza. O meu sonho é acordar com uma paisagem destas…


Almoçámos com o grupo do Sr. Alegre. Fez-me bem porque estava a entrar em saturação, impaciente. Vieram apaziguar-me. Que grupo agradável!
Há uma série nova na televisão que se chama “Os olhos de Ângela” e de certa forma fizeram-me lembrar a mulher do Sr. Alegre. Os seus olhos transparecem sensatez. Revi-me neles não só porque acredito que também sou assim mas porque desejei sê-lo quando chegar á sua idade. Sensatez… foi o que eu vi naqueles olhos.

TRANSIBERIANO - 29/07/2009 - 7º Dia – Krasnoyarsk (+7h que em Lisboa)


O dia começou cedo.


Acordámos com menos uma hora que o dia anterior. Mesmo assim o sono não tomou conta de mim. Queria que o dia me revelasse que valia a pena viajar porque a expectativa cresce sempre que saio do comboio para conhecer uma nova cidade.


É acreditar que a “bolinha de mercúrio” vai crescer mais um pouco.
Esperámos, novamente, pelo avô e neto. Mais um caso neste comboio.
Quando parecia insólito um caso, eis que aparecem dois. Dois netos com seus avós. Duas gerações tão distantes no tempo mas tão próximas no espaço. Um espaço que pode ser desconfortável de tão próximo.


A diferença ainda é maior que a minha e o miúdo, tão orgulhoso de acompanhar o avô. De vez em quando via-se uma pontinha de cansaço, de paciência a esgotar-se… mas como o compreendo… E sei que nada disso poderá significar uma maior ou menor afecto.
O avô fazia-me soltar gargalhadas. A espontaneidade dele fazia-me rir… haviam vezes que de repente se ouvia a sua voz a dizer “SAL!” ou “BRANDY!”… aparentemente do nada ter-se-ia lembrado que queria aquilo imediatamente.
E lá vinham eles os dois, de passo atrasado, no fundo do comboio… o menino de 17 anos com o avô de 74.
57 anos de um hiato profundo e de um carinho visivel.


Antes de chegarmos reparei que a paisagem se modificou durante a noite. Ganhou uma vida diferente. Ganhou montes e pessoas, casinhas engraçadas de madeira e estradinhas e sinos e cãezinhos a correr, meninas a dançar, cavalos a passear… Era um presépio vivo!


Eram quase seis da manhã! Em Portugal, lembrei-me que se estariam prestes a deitar. Levantei-me e fui para a sala dos chuveiros para tomar banho.
Esta altura do dia faz-me lembrar os acampamentos em que participei. Recordo-me do frio que apanhava para tomar banho. O que acontece aqui é que a água é muito pouca, sai um fiozinho, quase que tenho de chapinhar para levar água ao corpo. Depois ensaboo-me e espero que a água volte a aparecer.
Estou a começar a gostar deste ritual. Pelo menos sinto sempre uma expectativa em relação ao banho… É engraçado como podemos, facilmente, relativizar as coisas e apercebermo-nos como temos a vida facilitada. Um banho, que é uma coisa tão banal para nós, pode tornar-se numa incógnita todos os dias.. Parece quase inconcebivel…


Acabando o banho, volto ao camarote para apanhar o meu casaco. Tenho de ir da carruagem 6 até á 11 que é onde fica o restaurante. Cada carruagem é separada por duas portas pesadas e mais duas portas finas no inicio de cada uma(no mínimo). Portanto… é fazer as contas! Na carruagem 10 é onde fica o primeiro restaurante e é nessa zona que começa o “nauseabundo”. Não sei porquê... mas quando passo nesse sitio há um cheiro que quase me faz regurgitar! Nem o hábito faz o monge! Mai andiammo! Entro na carruagem 10 e já tomam o pequeno almoço, ou direi mesmo “la coladzione” os nossos fratellos italianos, pessoas bem dispostas, com ar descontraido mas arranjado, mostrando que não se preocupam com o ar que têm mas preocupando-se. Têm um sorriso simpático e acolhedor. Quando passo por eles, entre as carruagens, sempre me entregam um olhar em mãos e me abrem as portas… Pensava que os italianos fossem uns brutos… foi a ideia com que fiquei quando os conheci na terra deles…


Nesta carruagem “ a galéra” também toma o pequeno almoço! É! Também estão cá “uns caras” do Brasil!! Parecem simpáticos. Têm aquele ar sofisticado do Rio de Janeiro mas sem grandes snobismos.


Saimos para a cidade de Krasnoyarsk. Chegámos cedo e ainda se sentia na cidade aquele cheiro de madrugada.
A nossa guia local, uma mulher alta e magra, com uma presença forte, expressava-se em espanhol.. Sem problema… já estamos habituados. Demonstrava conhecimento nas explicações mas não conseguia ser imparcial… as suas convicções politicas saiam-lhe da pele como aroma que se transpira. Pareceu-me uma mulher decidida e independente, com alguma revolta. O seu olhar distante advinha da cultura e não do coração, porque transmitia sensibilidade. Conversámos durante o almoço e eu ia traduzindo-lhe do espanhol para o português ou vice versa.


No final da visita a guia ofereceu a algumas pessoas um termómetro para medir a temperatura ambiente mas a diferença está na amplitude térmica, que marca 50º negativos até 50º positivos.
Foi agradável receber um. Já tenho um sitio especial para ele, como todas as coisas que trago das minhas viagens… para além dum cantinho especial na minha memória.


A primeira paragem foi ao sitío onde esta foi fundada. Existe um arco de celebração dos seus 375 anos. No centro um monumento a homenagear alguém que, por amor, tinha vindo para a Sibéria. Perdi-me um pouco ao ouvir a história deste senhor… pareceu-me interessante… era alguém que vinha da América latina com um propósito qualquer… mas entretanto, enquanto a guia explicava tão simpáticamente, deixei-me levar nos meus pensamentos… quando voltei á terra tinha perdido o essencial da história.

Mais adiante parámos num memorial dos mortos pela 1ª Guerra Mundial. Logo cá fora se impunham uns quantos tanques, poderosos, grandes. Mostravam o poderio adormecido sob forma bélica, mas não registei nenhuma admiração profunda.


Quando entrei no edificio senti que as almas daqueles homens nos espiavam. Queriam mostrar quanto sofreram e tinham deixado ali as almas para tomar conta do recado. E os arrepios que senti na pela era a forma de se expressarem.
Na entrada, um painel cilindrico estendia-se sob o tecto e tinha uma fotografia de uma senhora que transpirava tristeza mas um certo “calejamento” na alma não a deixava chorar.
Apertava a mão na boca, com a força da esperança. Fiquei ali alguns minutos a especular os seus pensamentos..


Tanto para a esquerda como para a direita existiam grandes paineis com os nomes de todos aqueles que morreram na guerra.
Corri os paineis que estavam por ordem alfabética e em cima de cada coluna tinha a letra correspondente. Fui caminhando junto aos painéis seguindo a ordem e, por cada letra que lia, pensava em nomes conhecidos, que inevitavelmente me levavam a pessoas conhecidas.. Que tristeza. Que atrocidades foram cometidas..
É tão fácil esquecermos estes lapsos da humanidade!


Parei numa das salas que tinha cartas de identidade autênticas. ou seja, pessoas autênticas! E prendi-me a um olhar. Um olhar de incerteza mas ao mesmo tempo de esperança. Senti-me desconfortável e desolada. A esperança tinha sido em vão…


Continuámos a nossa visita á cidade.
Passámos no rio Angará e fomos num barco rápido dar a volta a parte do rio. A paisagem era tranquila. O rio calmo sobressaia dos verdes montes que serviam de base e em baixos as casas de madeira com telhados inclinados e compridos salpicavam de cores o verde da paisagem.
A tranquilidade era contagiosa, tinha chegado áquelas montanhas e margens para se instalar e não tinha intenção de se ir embora.


Todos entraram para dentro do barco, estava um grupo de folclore russo tipico da zona a cantar e dançar mas não consegui resistir á beleza natural e optei por ficar na parte exterior.
Cruzei os braços sobre a varanda do barco, encostei o queixo e fiquei, com os olhos semi cerrados, a olhar a natureza. Sentia o calor do sol da manhã a entrar-me na pele e o aroma fresco do mar e ludibriar-me o olfacto.. Que paz de espirito.. não me apetecia sair dali.. estava a carregar as baterias da minha alma.

TRANSIBERIANO - 28/07/2009 – 6º Dia – Novosibirsk (+ 6h que em Lisboa)


Mais uma cidade da Sibéria.

É uma cidade de estudantes. Concentra-se aqui grande número de Universidades e investigadores que estão na chamada “Cidade dos Cientistas”.

E não é que temos neste grupo tantos doutores?! Sabem tanto… Incrivel como quando se juntam sabem sempre uns mais que outros… “Agora cale-se que eu vou falar!”, disse alguém num almoço com uma agressividade estonteante. Pensei vir dali uma revelação inovadora, tal era a convicção da senhora para falar… hummm… afinal…

Pensei que estas coisas eram de miudos… que ser adulto significava tudo menos “bater o pé”.

Visitámos o Museu dos Caminhos de Ferro. Fiquei a pensar como foi possivel pôr aqueles monstros a trabalhar imaginando quantos cavalos seriam precisos para puxar aquelas carruagens. Pareciam elefantes que se erguem no meio da savana, grandes, poderosos mas lentos. Creio que se quisessem fugir não podiam, tal o peso que lhes pertence.

A Novosibirsk é mais uma cidade na Sibéria. Não senti nenhum impacto, verdadeiramente importante.
Neste caso creio que se organizasse a visita de forma diferente ganhariamos mais com isso. Ou talvez na verdade, apesar de ser a 3ª maior cidade da Sibéria não tenha mesmo nada de especial para ver.

Precisava aqui de uma ajuda do casal de engenheiros que sempre me esclareciam e ajudavam a complementar a história que os guias contavam, dando mais consistência aos trechos que eu ia absorvendo das longas ladainhas que se proliferavam pelo micro.

Muito bonita a engenheira, com o ar maternal que eu precisei de ver a certa altura no comboio. Naquela certa altura que a rigidez do meu avô emergiu que nem lava de vulcão.
Fica sempre com aqueles olhos a sairem-lhe das órbitas e eu na ambiguidade de me querer impôr e de achar que não vale a pena. Para quê dificultar-lhe a vida, que ao fim ao cabo, não sei quanto tempo será. Para quê, se tanto lhe devo? Sinto sempre que devo resistir á ira e deixar passar.

Naquele dia, os meus 29 anos tornaram-se pequenos. Sentia-me uma menina pequena que queria o colo da mãe. As lágrimas forçavam-se a sair e eu não lhes consegui fazer frente nem as consegui esconder da mãe, que não era minha mas que pela distância a encarnou. Tão amavelmente e também com lágrimas nos olhos me estendeu a mão e me levou para a sua cabine.
Ali me deixaram, ela e o marido, para eu encontrar a paz que sempre busco.

TRANSIBERIANO - 27/07/2009 - 5º DIA – Yekaterinburg (+ 5h que em Lisboa)


Passámos grande parte do tempo no comboio. Quando entrámos na Sibéria, propriamente dita, não sei porquê mas senti entusiasmo. “Estou na Sibéria, pá! … na Sibéria!!”, pensei para mim. E um sorriso estampou-se-me na cara.

É engraçado como a imaginação me levava a outros sitios quando pensava na Sibéria. Certo… , estamos no Verão e não há neve… até faz muito calor, mas sempre pensei na Sibéria como uma área muito montanhosa, taciturna de tão rispida que me transmitia ser. Imaginava as cabras montanhesas a subirem os montes encrespados cobertos de neve.
Mas… ainda só vi planícies. Grandes extensões de planicies, verdes, com uns quantos arbustos e umas quantas árvores… creio serem abetos. Ao longe uma estradinha onde segue um camião de transporte de mercadoria. Outro comboio que passa na linha do lado. Uma manada. Um bando de pássaros..
Mas não é propriamente uma desilusão.

Parámos em Yekaterinburg. Estivémos aqui pouco mais que 2h. Valeu a pena. Não porque a cidade fosse algo de extraordinário, porque o não era. Uma cidade sem grandes revelações, com alguns monumentos bonitos, como uma Igreja ortodoxa mas nada de excepcional.

O que mais nos interessou foi estarmos no ponto que separa a Ásia da Europa. E é no centro desta cidade que existe uma pedra. Uma pedra… bom… na verdade um calhau. Não muito grande, de um tom branco e rosado, completamente disforme que marca essa separação. E lá estive eu a tirar “a foto”. “Aqui estou na Ásia! Aqui estou na Europa!”.

Na cidade de Yekaterinburg foi onde mataram a familia dos Romanov, uma das dinastias dos czares, que só há pouco tempo, se descobriu como tinham sido brutalmente assassinados.

Foi um dia inteiramente de viagem. Voltámos ao comboio perto do meio dia. Meio dia para nós, menos 5h para Lisboa. A esta altura já acertei o relógio 2 vezes. Sempre a perder horas de sono.

Começo a sentir que uma viagem de comboio consegue ser mais agradável do que um cruzeiro. Apesar da ideia ser a mesma, de irmos parando em várias cidades, a sensação de independência é maior. Ou pelo menos a sensação de impotência que sinto quando vou num cruzeiro é grande. Saber que estou no meio do mar, sem acesso a nada causa-me alguns arrepios.
O comboio está em andamento, é um facto. Mas a terra está mesmo ali á mão. Sinto que se precisar posso sair.

A noite foi longa mas passou depressa. Os carris marcavam o passo do comboio como se fossemos a cavalgar e acabei por adormecer embalada por esse movimento. Os olhos foram-se cerrando por baixo das inúmeras estrelas que decoram o céu da Sibéria. Um céu inexplorado pela ausência de industrialização e desenvolvimento.

Sinto, cada vez mais, que as coisas simples têm mais valor para mim.

TRANSIBERIANO - 26/07/2009 - 4º DIA – KAZAN (+ 2h que em Lisboa)



Já andava a pensar em dar-lho mas faltava-me a coragem. Pensei que pudesse achar ridiculo de tão imaturo que é. Mas decidi-me a dar. Peguei num dos meus poemas (“Irrequieta Escrita”) e fui oferecer á autora, esperando que o aceitasse como forma de agradecimento. E de facto aceitou e tive boa critica, que me faz sorrir os olhos.


São duas senhoras que nada têm a ver uma com a outra, a autora e a irmã. Não as decifrei. Revelam-se de formas diferentes. A autora agarrou-se muito aos seus livros e é natural que assim seja. Todos nós nos agarramos ao nossos orgulhos, e quando não são os filhos ou esses orgulhos não se vêem, temos tendência a falar neles para que nos olhem.


Seguimos para Kazan.
Kazan é uma cidade Tártara. É uma cidade limpa e agradável, talvez picturesca. Não tem nada de muito antigo. Vive da industria e está junto a um rio.
No centro existe uma mesquita com cúpulas azuis turquesa, também ela recente, construida em 2004. Vem da convicção do governador desta cidade, que tanto os muçulmanos como os protestantes podem coexistir sem conflitos e que há espaço para ambas as religiões. Por isso em Kazan, onde se vê uma mesquita, logo a seguir se verá uma igreja católica.
O centro da cidade tem duas atracções. É a tal mesquita de cupulas turquesas e uma torre inclinada, que faz lembrar a de Pisa pela sua inclinação, mas é de tijolo.


Reza a lenda que Ivan, O Terrivel se apaixonou pela, então Rainha de Kazan, que era viúva, por ter perdido o marido na guerra. Guerra essa provocada por Ivan. Quando este veio a Kazan com o intuito de invasão apaixonou-se e quis casar com a Rainha. A Rainha disse que só lhe faria a vontade se Ivan construisse uma Torre de 7 andares em 7 dias.
Ivan assim fez. No 7º dia, a Rainha sobe até ao último andar e lança-se da torre.
Assim se vê: os homens são a cabeça, mas as mulheres são o pescoço. Viram sempre para onde nós queremos. Ivan fez o que ela queria, mas ela não fez o que ele queria, casar com ela. Foi um pouco drástica mas conseguiu-o.
As mulheres estão sempre na História. Bem ou mal falem de nós, mas falem! E é curioso como algumas são mesmo assim.


Quis conhecer a senhora de quem alguém lhe atribuiu cinco “coisinhas desagradáveis”.
Aproximei-me e creio ter compreendido os comentários mas não consigo resistir á genuidade desta senhora. É de facto genuina e isso surpreende-me e cativa-me. Não está cá para agradar gregos e troianos mas sinto-lhe a força a sair das veias. A vida, creio, não lhe ter sorrido sempre e o valor que dá ás coisas é muito próprio, centra-se no seu mundo e da familia. E o marido complementa-a de tal forma como nunca vi. Não esperarão ver um casal de apaixonado aos beijos, mas a cumplicidade ás vezes está até no silêncio…