sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Um calor sempre diferente...
O contraste das cores que Rita levava, com o preto da camisa de Pablo desenhavam as diferenças dos seus mundos e ao mesmo tempo, na distância do contraste, nascia a ilusão de uma paixão. Parecia uma paixão que ia e vinha conforme o vento mas dificil de apagar. Tão dificil que Rita sonhava e mesmo acordada, parecia recordar tudo como se realmente tivesse acontecido. Como se sentisse o cheiro dele no seu corpo, o sabor da saliva na sua boca, um calor especial que lhe percorria a pele e sempre que adormecia e sonhava, o mesmo calor sempre diferente.
Do sonho trouxe todos os pormenores e o delicado toque da hospedeira confundia-se com o sopro de Pablo no seu ombro, como se lhe sussurrasse um segredo que da força das palavras nescesse uma brisa que lhe engomava as gelhas da pele arrepiada.
Patrícia Prata, in My Second Novel
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Tem de chegar...
Um mar profundo e desconhecido que refresca o olhar
É como querer mais e não poder andar
Como se a voz faltasse no momento de falar
E as palavras se enrolassem por não saberem o que dizer
É um beijo breve que salga o paladar
Faz sede, tanta sede e seca-lhe a garganta por não ter para beber
É debruçar-se na falésia para ver as profundezas do mar
E sentir que o mar foge para esconder a sua côr
E sentir que a altura é grande demais para o caminho
É a janela que não fecha à procura do alento
É a resposta evasiva por não saber que dizer
Não quer não ter, não quer perder mas não quer dar
E a recordação desse calor tem de chegar..
Tem de chegar...
Patrícia Prata
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Manifesto das Almas
Patrícia Prata, In my Second Novel
Sobre os mosaicos...
Patrícia Prata, in My Second Novel
terça-feira, 24 de novembro de 2009
As regras convencionais do trato
Patrícia Prata, In My Second Novel
À procura da alma...
Patrícia Prata, In My Second Novel
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Mais ou menos
O céu não fica vermelho
O sangue não corre nas veias
Está bem como ficou
Vem e grita ao rio
Quero saber se aí tens alma
Ou se em vez tens um vazio
Esse olhar nada me dá
O silêncio desinteressa-me
Não sinto o pulso agitado
Não vejo o querer acordado
Quero a vontade ao chegar
Quero a força do abraçar
Senão, deixa-me sossegada
Sei viver sem o quase nada
Não vale a pena o tão pouco
Acordo-te para dizer que fui
Não me peças os porquês
Deixa-me ir.
Amanhã já não te lembras.
Eu não me lembro.
Não foi nada.
A vela não se apagou.
A vela nunca acendeu.
Patrícia Prata
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Nega-me o mel
Ferida na mão
E uma vela no meu coração
Esse ar quente que leva à estrada
Puxa-me e não quero andar
Não quero partir no caminho
Reaje ao meu pedido
Indiferença como conluio
Perco-me na razão
Digo que não sem pensar
Mudei de ideias agora
Digo que sim para te ver
Tenho de me proteger
Cansada da dúvida que me segue
Outra vez essa voz que me pede
Deixa-me seguir em frente
Não fales, não mostres a voz
Fecha o olhar que me dás
Leva o aroma da pele
Dá-me limão
Nega-me o mel
Dás num dia
Negas na noite
A noite fria que aquece a espera
Se o dia chegasse todos os dias
Cansei de ver o sol chegar
Azeda-me o coração
É mais fácil ver-te partir
Não dói nem chora de dor
Cortei o pé da flor
As pétalas no chão
Deixam saudades, não faz mal
Prefiro não conhecer-te mais
Não te reveles a mim
As pétalas, deixa-as voar
Amanhã já não me lembro
O cansaço tirou-me a vontade
Não sei, amanhã não me sorrias
Quero lembrar-me da indiferença
As pétalas já voaram
Já não sei quem podias ser
Patrícia Prata
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Livro www.corposeditora.com
Na Fnac por encomenda ou em http://www.corposeditora.com/
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Partitura do Romance
By Patrícia Prata, in My Second Novel
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Tira a roupa para te provar
By Patrícia Prata
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
A chuva
By Patrícia Prata
A ablução do espírito
Patrícia Prata, in My Second Novel
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
O muro
Patrícia Prata, in My Second Novel
domingo, 4 de outubro de 2009
Na contra-luz da vida
Patrícia Prata, in My Second Novel
domingo, 27 de setembro de 2009
O medo de assumir...
Patrícia Prata, in My First Novel
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Per voi Paolo, se sai chi sono io
Laura è stato il viaggio di una vita. La vostra generazione disse di non mescolare tra loro e, comunque, riducendo lo spazio di una vettura del Trans-route Siberian si limita a vivere con un gruppo di persone provenienti da due generazioni di fronte a voi. L'amore che provava per Paolo, un italiano di trent'anni più vecchio, che aveva dato lui la passione per l'esperienza idilliaca delle loro mani, i giovani del suo corpo, il desiderio lussurioso di una donna che aveva conosciuto là e che i conflitti con il nonno, Laura ha dimostrato che il percorso era più importante della destinazione e che, attraverso tutte le interferenze che deriverebbe da un viaggio generazionale, Laura avrebbe fatto una donna diversa.
Patrícia Prata, in My First Novel
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Sinopse
Patrícia Prata, in My first Novel
Renascer mulher
Patrícia Prata, In My First Novel
Resposta muda á Natureza
Patrícia Prata, in My First Novel
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Presa num corpo de mulher...
Patrícia Prata, in My first novel
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O mundo não vive só de heróis...
Patrícia Prata, in My First Novel
domingo, 13 de setembro de 2009
Discurso incongruente
Patrícia Prata, in my First Novel
Da janela do comboio vejo a Sibéria...
Recostei-me a espreitar pela janela, e como se fosse um filme, espiava as planícies que corriam pela tela, como se fugissem de alguma coisa. Haviam alturas que pareciamos passar por sitios que Deus se tinha esquecido que existiam. Estavam reservados ao abandono, como se tivessem cometido todos os pecados mortais e os tivessem deixado ali por ser proibido o perdão.
Patrícia Prata, in My first novel
A chegada..
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Sensualidade de um amor maduro
Patrícia Prata, in My first novel
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Restringindo o espaço, dilatando o tempo
Tinha de fazer um esforço para não ser egoista, para me identificar emocionalmente com o eu dele, para perceber que era eu que tinha de ceder, porque a idade ganha esse estatuto, teria de ter eu a responsabilidade de tornar aquela viagem agradável, era eu que tinha de estar agradecida.
Patrícia Prata, in My first novel
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Silhueta gravada
Patrícia Prata, in My first novel
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Segredou-me com um beijo...
Patrícia Prata, in My first novel
domingo, 30 de agosto de 2009
Don´t be caught!
Patrícia Prata, in My first novel
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Imóvel
Patrícia Prata, in My first novel
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Olhar lascivo
Patrícia Prata, in My first novel
domingo, 23 de agosto de 2009
Encantada...
Sentia-me encantada com a sua forma de ser.
Patrícia Prata, in My first novel
Passado Perfeito...
Patrícia Prata, in My first novel
No lago, a denúncia de um desejo...
Patrícia Prata, in My first novel
E se lhe dissesse?
Patrícia Prata, in My first novel
Excertos
Patrícia Prata, in My first novel
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Não tens as palavras certas

Para que as palavras que emanas
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
No trem da vida que passa...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009
TRANSIBERIANO - 06/08/2009 - 15º Dia – Pequim,Grande Muralha - China (+7h que em Lisboa)

domingo, 9 de agosto de 2009
TRANSIBERIANO - 05/08/2009 - 14º Dia – Pequim, Cidade - China (+7h que em Lisboa)

O terreno era árido, mas não tinha aquele ar de deserto que se está á espera. Chegámos a passar por alguma vegetação rasteira onde corriam camelos livremente. Estava á espera de poder dar uma volta com eles mas no sitio onde o iamos fazer houve uma questão logistica que nos impediu de o fazer.
De manhã acordámos estava o dia a despertar. Eram 5 da manhã e iamos chegar a Pequim por volta das 06h20. Tinha dormido muito melhor porque em Erlian mudámo-nos para o comboio chinês e ainda que nos possamos abstrair de algumas coisas para nos concentrarmos na viagem, dormir numa cabine com mais condições proporciona um soninho mais descansado.
Fomos directamente para um hotel que ficava perto da estação ferroviária. Não tinhamos comido no comboio, iamos tomar o pequeno almoço nesse hotel.
A despedida dos nossos camareiros foi emocionante. Parece que não, mas estivémos cerca de duas semanas juntos e a Viktoria e o Sasha foram os melhores camareiros que se podia ter. Apesar de não falar nem português nem inglês a Viktoria sorria, acenando com a mão e dizendo Patricia! Tocou-me no coração.
Chegámos ao hotel e fomos comer. A pirâmide de Maslow não engana, enquanto não temos as nossas necessidades básicas satisfeitas ninguém passa ás seguintes. Nem o "eu tenho" ou o "eu fiz" se ouvia. Queriamos comer.
Passei pelo grupo de italianos que partilhava connosco esta viagem. Não nos misturávamos muito, passávamos por eles e éramos mutuamente simpáticos.
Não sei porquê mas aquele italiano inquietava-me. Como é possivel não sei, porque nunca falei com ele. Acho que ele olhava para mim e percebia e, de certa forma, ficava embevecido por uma miúda olhar para ele. Uma miúda que deveria ter metade da idade dele... é que davam-me sempre menos de 25 anos e o italiano, que aparentava ter 40 tinha na verdade 59!!
Havia vezes, que arranjava uma desculpa esfarrapada para passar na carruagem 7 e poder cruzar o meu olhar com o dele. Eu sei que ele olhava, essas coisas percebem-se mas a razão era diferente. Devia-lhe encher o ego e eu gostava de ver o charme dele a passear-se.
Depois de bem alimentados seguimos em direcção á Praça Tiananmen. Tiananmen significa paz celestial... até parece uma graçola sem graça nenhuma... não tenho conhecimento histórico (mais uma vez uma ajuda dos engenheiros dava jeito) para saber se o nome dado á praça é anterior ao massacre de 4 de Junho de 1989. Eu tinha 9 anos e lembro-me como se fosse ontem... Quando o Partido Comunista decidiu suprimir os protestos pela força e entrou com tanques na Praça matando tudo e todos os que se encontravam pela frente... ainda era pequena para entender... agora sou grande e continuo sem perceber...
Quando entrei na Praça só me lembrava desse dia de sangue. Olhei em redor e vi as milhares de pessoas que se juntavam ali. A maioria eram chineses e vinham de todas as partes da China. É época alta e os chineses fazem muito o "vão para fora cá dentro". Vêem-se alguns ocidentais, mas não tantos quanto eu esperaria.
Pareciamos formigas na designada maior praça do mundo. E, de facto, é muito grande e imponente. Num dos extremos uma foto gigante do sr. Mao Tsé Tung, um dos fundadores do Partido Comunista Chinês, impunha-se como dois olhos controladores sobre a praça. Eu própria me sentia observada.
Iamos em direcção á Cidade Proibida e a caminhada prometia cerca de 2h30 de chão, uma ponta de calor húmido acompanhava-nos para torná-la mais dificil. Entrámos nos portões da Cidade, uma cidade dentro da de Pequim que quando outrora tinha sido residência de imperadores estava proibida a quaisquer pessoas que não fizessem parte da familia do imperador ou do seu pessoal doméstico. Não visitámos todos os 980 edificios que existem nesta cidade mas conseguimos perceber a sua importância como centro cerimonial e político do governo chinês, nem que fosse pela sua grandiosidade.
Os chineses são um povo, na sua maioria, pacifico. Nem sequer parecem muito habituados á presença ocidental. Já tinha percebido que ao passar tiravam fotos como os seus telemóveis mas foi na Cidade proibida que me senti uma verdadeira vedeta. Um grupo de chineses fizeram fila para tirar fotos comigo. Parecia que me conheciam de algum lado. Riam-se, abraçavam-me e pediam-me afincadamente que eu deixasse tirar mais uma foto com eles. Os parceiros iam mudando, dos mais novos aos mais velhos todos queriam uma foto ao meu lado. Tudo aquilo me parecia surreal mas engraçado. Percebi que queriam uma foto comigo por eu ser diferente, por ter os olhos grandes.
Estávamos exaustos. Todos nós tinhamos percorrido cerca de 4 km sob um calor enraivecido.
Almoçámos noutro hotel. Já nos sentiamos mais juntos, mais grupo. Com a barriga cheia seguimos para um templo mas continuava tudo muito parecido, não sei se seria do cansaço mas tudo já era muito igual para mim. Passei a maior parte do tempo a falar com o nosso guia de Pequim. Era chinês mas como de costume falava espanhol. Senti uma aproximação por sermos da mesma idade e a conversa fluia com facilidade. Creio que era eu que precisava de ver e falar com pessoas da minha geração por sentir que a minha juventude era absorvida naquele meio. Assim carregava as baterias.
TRANSIBERIANO - 04/08/2009 - 13º Dia – Erlian - China (+7h que em Lisboa)

TRANSIBERIANO - 03/08/2009 - 12º Dia – Ulaan Bataar - campo (+7h que em Lisboa)
Como dizia Sócrates, na obra de Platão - Fédon, só se tem verdadeiro prazer depois de se conhecer a dor. E, na realidade, no nosso dia-a-dia, que não nos damos conta de determinadas coisas que temos e que estamos habituados, só percebemos o seu valor na sua ausência. E nesta ausência de algumas coisas que damos como certas todos os dias é que dei valor a como elas nos fazem falta, assim como um bom banho e um sono descansado.
Depois deste ressuscitar de sensações, esquecidas pelo hábito, levantámo-nos e fomos tomar um pequeno almoço revigorante: um belo pequeno almoço continental.
Ninguém falava. Todos passeavam pela sala do Hotel enchendo os pratos e correndo para as mesas para se deliciarem. Queriamos estar de barriga cheia para o passeio que se avizinhava.
Saimos para a camioneta onde o nosso simpático guia nos esperava. Já tinha colado de manhã o sorriso na cara e não tinha intenção de o tirar. Vinha com a alegria de trabalhar estampada no rosto, acreditando que disso os seus dois filhotes, que com tanto orgulho me mostrou no seu telemóvel, dependiam.
A paisagem tornou-se mais natural. Dava a sensação de sermos uma corrente de água que rompia os vales das montanhas e que contemplava nas suas margens a verdura que alimentava as vacas e os iaques passeantes .
A camioneta parecia não reparar que pela sua frente passeavam animais. Era tudo tão natural que pertenciam todos á paisagem. O condutor desviava-se das vaquinhas sem qualquer hesitação e um suspiro de alivio proliferava-se pela camioneta. Depois o sorriso de quem se apercebe que tudo aquilo era normal.
O caminho era longo, passávamos por vários acampamentos para turistas. A ideia destes espaços era proporcionar um descanso real, introduzido na natureza verdadeira. As tendas chamavam-se "ger" que são as habitações típicas dos nómadas mongóis. Tinham os confortos básicos essenciais e estavam situados no meio de montanhas fantásticas, sem grande altitude, mas reclamando para si todo o verde que encontravam no caminho. Este espaço natural era naturalmente partilhado com as vacas e iaques, que com toda a generosidade e passividade o faziam sem reclamar.
Passámos por uma pedra enorme com o feitio de uma tartaruga e lá em cima meia dúzia de pessoas queriam mostrar que a coragem podia ser da altura de uma rocha.
sábado, 8 de agosto de 2009
TRANSIBERIANO - 02/08/2009 - 11º Dia – Ulaan Bataar (+7h que em Lisboa)

Quando chega a Dezembro, começo a pensar nas minhas viagens do ano seguinte e tenho sempre alguns destinos já pensados, mas nunca eu pensei ir á Mongólia. Por razão nenhuma em especial. Mongólia?! O que há lá?!
Pois bem, foi uma surpresa agradável.
Chegámos ao centro da cidade, onde uma praça enorme pretende revelar que o seu povo é grande. Mostram, profundo respeito pela religião mas segundo o nosso guia local, são pouco praticantes de budismo.
É um pulsar do mundo com a batida diferente do nosso.
Seguimos em direcção ao miradouro. O miradouro tinha mais de 300 escadas e levava-nos aos olhos da cidade. Comecei a subir as escadas ao ritmo da descida do oxigénio. Pareciam hesitantes os que lá foram: apetecia chegar lá a cima sem ter que subir as escadas pois sob o calor seco que se fazia sentir, estas dúvidas eram legítimas.
Ao mesmo tempo que eu, subiu um senhor. Viaja sozinho. Costuma juntar-se ás irmãs e a amiga delas para fazer quarteto. É mais fácil… Um trio tem sempre um lugar vazio.
Não o conheço… é daquelas pessoas que passa despercebida. Que não deixa pegada… A única coisa que me lembro dele são os ténis que usava. Achava-os giros e modernos. Não sei porque recordo isto.
Outro casal subiu. Muito simples e humildes. Têm uma ternura nos olhos que me enche o coração. De vez em quando um despique entre eles passa as paredes da cabine… mas um despique saudável, chegam a ser engraçados. Parece levarem a vida com leveza, sem grandes dissertações ou raciocinios. Vivem-na, ponto.
Cheguei lá a cima e apesar de eu estragar a média de idades não interessa nada, porque cheguei lá tão ofegante e cansada como qualquer outra pessoa com mais idade. O calor sugou-me a energia. Respirei fundo e olhei em redor, era um monumento em memória dos combatentes da guerra, mongóis e russos, lado a lado.
Quando olhei, tão alta que estava, sentia-me como se tivesse ido colocar a última estrela no cimo da árvore, para lhe dar aquele brilho especial. Que planicie verdejante se estendia naquele mapa! Os telhados coloridos brincavam na grama como se fossem morangos prontos para ser colhidos. Parecia que a Primavera tinha chegado em altura inesperada.
Uma senhora do grupo, pelo qual sinto uma grande admiração, disse-me numa certa ocasião, uma frase muito bonita: “Deus não ficou pobre com o que já me deu e não ficará com o que ainda me vai dar”.
A fé revela a força de uma pessoa. Os bravos que não acreditam em nada ou não dizem verdade ou um dia quebram.
Seguimos para o palácio de Inverno.
Não estava muito conservado este Palácio… as cores outrora fortes estavam esbatidas do sol e a madeira comida pelos bichos.
Quando dava as indicações soltava uma gargalhada, de vez em quando, quando emitia palavras portuguesas e reconhecia que não as conseguia pronunciar muito bem.
A certa altura perguntou-me o nome e disse que era um nome muito bonito mas eu não consegui retribuir-lhe o elogio porque o seu nome era tão dificil de pronunciar como estranho para os meus ouvidos.
O Palácio não era só um edificio, tinha várias daquelas casinhas vermelhas orientais cerzidas de telhados bicudos e debroados a dourado. Quando entrávamos dentro dessas casas corria uma aragem fresca e aliviava-nos o calor. Pensei que fosse ar condicionado colocado lá para apaziguar os turistas que por lá passavam mas, segundo o guia, aquele ar fresco era próprio das casas, tinham sido feitas de forma a serem frescas no Verão e conservar o calor no Inverno.
Os pátios levavam-nos de um edificio a outro, supostamente sem nenhuma regra mas existiam umas setas que tornavam o itinerário mais rigido, para que não nos esquecessemos de visitar nenhuma casa mas como era de esperar dispersamo-nos. Dividimo-nos, sem intenção aparente, em pequenos grupos, encontrando-nos entre nós numa ou outra casa.
Cruzei-me algumas vezes com o compadre do Sr. Alegre que também me tirou fotos ao longo da viagem por sua iniciativa. De inicio mostrava-se um pouco mais distante, ou pelo menos não tão dado, o que revelava mais facilmente que só se dá se gostar mesmo.
Como o invejo! Tantas vezes que me falta a coragem de dizer: “Tu és uma seca! Se me desamparasses a loja fazias melhor! Estás-te a repetir, essa história já me contaste 3254 vezes!“. Quantas vezes?! A muita gente! Mas alguma coisa em mim receia magoar alguém e deu-me uma capacidade de resistência que por vezes não queria ter… faz-me perder tempo.
Depois de almoço fomos a um espaço de criação textil. Era um espectáculo onde, para além das danças e músicas tradicionais mongóis, houve um desfile de alta costura que conjugava a sensualidade das roupas orientais com a beleza da sua tradição.
Estávamos a precisar deste momento de relax. Apenas beleza… sem grandes explicações teóricas, apenas ver e sentir.
TRANSIBERIANO - 01/08/2009 - 10º Dia – Ulan Ude (+8h que em Lisboa)

Fomos visitar um templo budista, o maior deste género, na Rússia.
Todos os templos em que entrámos tinhamos de entrar pelo lado direito e sair pelo esquerdo. Ao sairmos, tinhamos de o fazer de costas, em sinal de respeito.
Os budistas parecem ser, mesmo, como nos filmes: calmos e tranquilos, de um despojamento tal que creio ser de uma coragem tremenda. Não sei se será da cultura… mas vivem tão desprendidos que é impressionante. Eu considero-me uma pessoa já tão desprendida, muitas vezes desprendida não só dos bens materiais..
Este desprendimento, muitas vezes, entra em choque com as pessoas. Esperam de mim coisas que eu não consigo dar… e a dificuldade é que não tenciono dar… iria contra a prioridade de manter a tranquilidade como função vital da minha vida.
De vez em quando quando tento quebrar esta barreira corrompe-se a linha que protege a minha tranquilidade. São poucas as vezes que o fiz e das últimas vezes foi para tentar uma aproximação entre as gerações. No caso com o meu avô.
Quando me pediu para fazer esta viagem, não posso dizer que era aquilo que mais me apetecia fazer. Os planos seriam ir com os meus amigos descontrair para o Algarve. Essa descontracção que eu ando em busca desde Novembro.
Tão simples… ir para o Algarve é a coisa mais curriqueira que pode haver. Mas o objectivo era esse. Descontracção, chinelo no pé e diversão.
O convite não veio na melhor altura, mas é sempre assim. Os desafios são isto mesmo. Se não houver nada para abdicar a dificuldade não é visivel.
Sentei-me a pensar e concordei que o meu avô merecia que fosse. Estava consciente da dificuldade que seria, porque sei que eu e o meu avô somos diferentes e apesar de sermos grandes amigos, uma viagem que proporciona tanta proximidade pode causar instabilidade. Pode. Porque, inevitavelmente, nos revelamos e revelamos o nosso eu mais desinteressante.
TRANSIBERIANO - 31/07/2009 - 9º Dia – Lago Baikal (+8h que em Lisboa)

Nem pensei mais um segundo! De um salto sai da cama e fui buscar o biquini e a roupa… Tive de saltar o ritual do banho! Por estarmos numa reserva natural o comboio não pode andar muito depresa, o que faz com que não haja força suficiente para fazer chegar a água aos duches. Bonito! Banhinho que é bom, nem vê-lo hoje!
Estava aquela aragem da manhã e ao mesmo tempo uma neblina agradável que conferia áquela imagem a pimenta que faltava para ser perfeita. Comecei a descer a pequena elevação que ia dar a um aglomerado de casinhas… não mais do que umas seis.
Reencontrei-me com o lago com a alegria de quem não vê um grande amigo há muito tempo e senti as pálpebras a tremer por sentir os olhos que reflectiam sobre aquele quadro romanceado. Não faltava nada… As montanhas que explodiam de verde, a brisa que se ondulava pelas folhagens e um barco atracado nas margens. Parecia um quadro pintado pelas mãos de um poeta..
Nesta pequenina aldeia vivem meia dúzia de siberianos e com quem me cruzei, reconheci no olhar uma certa candura… Foi como se seus olhos me revelassem a inocência da ignorância.. Não resisti a captar o olhar de uma senhora de sorriso simpático, já marcado pela idade..
Subi novamente até ao comboio, desci do outro lado e segui até á zona onde tomavam banho.
Diz a lenda que quem toma banho no Lago Baikal fica jovem toda a vida e não podia resistir á possibilidade remota de ser verdade.
Foi-nos, entretanto, feito o convite (convite pago) para irmos na carruagem da frente, na parte exterior para vermos a paisagem.
O comboio ia devagar ao longo das margens do lago e aproveitei-me do céu solarengo que provocava a beleza da água. Ambos se debatiam pela primazia. Não consegui decidir. A conjuntura da “coisa” fez-me crer que o todo pode ser a soma das partes…
O almoço foi um barbecue animado. Os empregados do comboio juntaram-se e cantaram para nós. Uma das empregadas, já mais sénior, muito alegre puxava por nós. Nem mesmo os mais novos tinham tanta vida como esta senhora!
Seguimos para uma pequena localidade junto ás margens do Baikal de barco. Pudémos visitar um museu e uma igreja.
Mas de hoje o que retenho é o lago.
O lago Baikal é o maior lago de água doce do mundo. Já sabia disto, mas não sabia que era assim tão imenso. Parece o oceano… não se vê terra.
Neste momento estou a escrever sentada na cabine e tenho como pano de fundo o pôr do sol sobre esta lago… que inspiração divina..
O comboio parou agora.
Sinto o cansaço a correr-me no corpo. Dormi pouco, comi mal. Mas a alma ficou alimentada porque o que os meus olhos viram deleitaram-me o paladar. Que dia agradável.
Vou dormir sob este céu estrelado.
TRANSIBERIANO - 30/07/2009 - 8º Dia – Irkutsk (+8h que em Lisboa)

Esta viagem tem sido muito diferente das que estou habituada. Quase sempre vamos sem nada muito organizado… os hotéis marcados, os vôos comprados mas pouco mais. O resto vai-se fazendo, vai-se descobrindo e regemo-nos pelas vontades do momento.
Aqui isso não se poderia passar. A média de idades das pessoas que fazem esta viagem deve estar acima dos 50 anos e acredito que se chega a uma idade que não se está para alguns sacrificios. E se há dinheiro, o Transiberiano é uma boa opção.
A heterogeneidade do nosso grupo é tão grande que consigo encontrar pessoas de todos os géneros, estratos e cultura.
Gostaria de falar de todos, porque nestes 8 dias, todos eles e individualmente contribuiram para que a minha “bolinha de mercúrio” crescesse.
E mais outro dia comprido. Saimos ás 09h30 e só voltámos ás 22h00 ao comboio.
De manhã começámos pela visita panorâmica á cidade, como já é hábito.
Todas as cidades têm guias locais.
Nesta cidade a guia russa falava espanhol. E ,claro está, o TUGA desenrrasca-se sempre e até percebe espanhol e sujeita-se… que remédio! Sempre fomos os “desenrrascas”. Não percebo é porque é que continuamos assim… na cauda do mundo… E a “abanar a abanar” que nem cãozinho… enfim…
Aquela voz aguda proliferava-se pela camioneta. Parecia uma velhinha sentada junto á lareira a contar histórinhas. Um som que se tornou ruido e que acabou invadindo-me de tal forma que não conseguia concentrar-me nas palavras.
Dirigimo-nos para fora da cidade de Irtursk para almoçar, junto ao Lago Baikal, numas casinhas de madeira.
Fui para longe nos meus pensamentos… a ideia idilica de uma casa de campo junto a um lago foi espelho do que os meus olhos viram. Uma paisagem indescritivel… Ainda bem que existem as fotografias para poder demonstrar um pouco melhor..
Do almoço fomos ao museu da madeira, que mostrava vários tipos de casas utilizadas pelos indigenas. No terminal das casas mais uma paisagem que se revelou como um tranquilizante.. Se eu não sabia como seria a minha casa de sonho, agora tenho a certeza. O meu sonho é acordar com uma paisagem destas…
Almoçámos com o grupo do Sr. Alegre. Fez-me bem porque estava a entrar em saturação, impaciente. Vieram apaziguar-me. Que grupo agradável!
Há uma série nova na televisão que se chama “Os olhos de Ângela” e de certa forma fizeram-me lembrar a mulher do Sr. Alegre. Os seus olhos transparecem sensatez. Revi-me neles não só porque acredito que também sou assim mas porque desejei sê-lo quando chegar á sua idade. Sensatez… foi o que eu vi naqueles olhos.
TRANSIBERIANO - 29/07/2009 - 7º Dia – Krasnoyarsk (+7h que em Lisboa)

Acordámos com menos uma hora que o dia anterior. Mesmo assim o sono não tomou conta de mim. Queria que o dia me revelasse que valia a pena viajar porque a expectativa cresce sempre que saio do comboio para conhecer uma nova cidade.
É acreditar que a “bolinha de mercúrio” vai crescer mais um pouco.
Esperámos, novamente, pelo avô e neto. Mais um caso neste comboio.
Quando parecia insólito um caso, eis que aparecem dois. Dois netos com seus avós. Duas gerações tão distantes no tempo mas tão próximas no espaço. Um espaço que pode ser desconfortável de tão próximo.
A diferença ainda é maior que a minha e o miúdo, tão orgulhoso de acompanhar o avô. De vez em quando via-se uma pontinha de cansaço, de paciência a esgotar-se… mas como o compreendo… E sei que nada disso poderá significar uma maior ou menor afecto.
O avô fazia-me soltar gargalhadas. A espontaneidade dele fazia-me rir… haviam vezes que de repente se ouvia a sua voz a dizer “SAL!” ou “BRANDY!”… aparentemente do nada ter-se-ia lembrado que queria aquilo imediatamente.
E lá vinham eles os dois, de passo atrasado, no fundo do comboio… o menino de 17 anos com o avô de 74.
57 anos de um hiato profundo e de um carinho visivel.
Antes de chegarmos reparei que a paisagem se modificou durante a noite. Ganhou uma vida diferente. Ganhou montes e pessoas, casinhas engraçadas de madeira e estradinhas e sinos e cãezinhos a correr, meninas a dançar, cavalos a passear… Era um presépio vivo!
Eram quase seis da manhã! Em Portugal, lembrei-me que se estariam prestes a deitar. Levantei-me e fui para a sala dos chuveiros para tomar banho.
Esta altura do dia faz-me lembrar os acampamentos em que participei. Recordo-me do frio que apanhava para tomar banho. O que acontece aqui é que a água é muito pouca, sai um fiozinho, quase que tenho de chapinhar para levar água ao corpo. Depois ensaboo-me e espero que a água volte a aparecer.
Estou a começar a gostar deste ritual. Pelo menos sinto sempre uma expectativa em relação ao banho… É engraçado como podemos, facilmente, relativizar as coisas e apercebermo-nos como temos a vida facilitada. Um banho, que é uma coisa tão banal para nós, pode tornar-se numa incógnita todos os dias.. Parece quase inconcebivel…
Acabando o banho, volto ao camarote para apanhar o meu casaco. Tenho de ir da carruagem 6 até á 11 que é onde fica o restaurante. Cada carruagem é separada por duas portas pesadas e mais duas portas finas no inicio de cada uma(no mínimo). Portanto… é fazer as contas! Na carruagem 10 é onde fica o primeiro restaurante e é nessa zona que começa o “nauseabundo”. Não sei porquê... mas quando passo nesse sitio há um cheiro que quase me faz regurgitar! Nem o hábito faz o monge! Mai andiammo! Entro na carruagem 10 e já tomam o pequeno almoço, ou direi mesmo “la coladzione” os nossos fratellos italianos, pessoas bem dispostas, com ar descontraido mas arranjado, mostrando que não se preocupam com o ar que têm mas preocupando-se. Têm um sorriso simpático e acolhedor. Quando passo por eles, entre as carruagens, sempre me entregam um olhar em mãos e me abrem as portas… Pensava que os italianos fossem uns brutos… foi a ideia com que fiquei quando os conheci na terra deles…
Nesta carruagem “ a galéra” também toma o pequeno almoço! É! Também estão cá “uns caras” do Brasil!! Parecem simpáticos. Têm aquele ar sofisticado do Rio de Janeiro mas sem grandes snobismos.
Saimos para a cidade de Krasnoyarsk. Chegámos cedo e ainda se sentia na cidade aquele cheiro de madrugada.
A nossa guia local, uma mulher alta e magra, com uma presença forte, expressava-se em espanhol.. Sem problema… já estamos habituados. Demonstrava conhecimento nas explicações mas não conseguia ser imparcial… as suas convicções politicas saiam-lhe da pele como aroma que se transpira. Pareceu-me uma mulher decidida e independente, com alguma revolta. O seu olhar distante advinha da cultura e não do coração, porque transmitia sensibilidade. Conversámos durante o almoço e eu ia traduzindo-lhe do espanhol para o português ou vice versa.
No final da visita a guia ofereceu a algumas pessoas um termómetro para medir a temperatura ambiente mas a diferença está na amplitude térmica, que marca 50º negativos até 50º positivos.
Foi agradável receber um. Já tenho um sitio especial para ele, como todas as coisas que trago das minhas viagens… para além dum cantinho especial na minha memória.
A primeira paragem foi ao sitío onde esta foi fundada. Existe um arco de celebração dos seus 375 anos. No centro um monumento a homenagear alguém que, por amor, tinha vindo para a Sibéria. Perdi-me um pouco ao ouvir a história deste senhor… pareceu-me interessante… era alguém que vinha da América latina com um propósito qualquer… mas entretanto, enquanto a guia explicava tão simpáticamente, deixei-me levar nos meus pensamentos… quando voltei á terra tinha perdido o essencial da história.
Quando entrei no edificio senti que as almas daqueles homens nos espiavam. Queriam mostrar quanto sofreram e tinham deixado ali as almas para tomar conta do recado. E os arrepios que senti na pela era a forma de se expressarem.
Na entrada, um painel cilindrico estendia-se sob o tecto e tinha uma fotografia de uma senhora que transpirava tristeza mas um certo “calejamento” na alma não a deixava chorar.
Apertava a mão na boca, com a força da esperança. Fiquei ali alguns minutos a especular os seus pensamentos..
Tanto para a esquerda como para a direita existiam grandes paineis com os nomes de todos aqueles que morreram na guerra.
Corri os paineis que estavam por ordem alfabética e em cima de cada coluna tinha a letra correspondente. Fui caminhando junto aos painéis seguindo a ordem e, por cada letra que lia, pensava em nomes conhecidos, que inevitavelmente me levavam a pessoas conhecidas.. Que tristeza. Que atrocidades foram cometidas..
É tão fácil esquecermos estes lapsos da humanidade!
Parei numa das salas que tinha cartas de identidade autênticas. ou seja, pessoas autênticas! E prendi-me a um olhar. Um olhar de incerteza mas ao mesmo tempo de esperança. Senti-me desconfortável e desolada. A esperança tinha sido em vão…
Continuámos a nossa visita á cidade.
Passámos no rio Angará e fomos num barco rápido dar a volta a parte do rio. A paisagem era tranquila. O rio calmo sobressaia dos verdes montes que serviam de base e em baixos as casas de madeira com telhados inclinados e compridos salpicavam de cores o verde da paisagem.
A tranquilidade era contagiosa, tinha chegado áquelas montanhas e margens para se instalar e não tinha intenção de se ir embora.
Todos entraram para dentro do barco, estava um grupo de folclore russo tipico da zona a cantar e dançar mas não consegui resistir á beleza natural e optei por ficar na parte exterior.
Cruzei os braços sobre a varanda do barco, encostei o queixo e fiquei, com os olhos semi cerrados, a olhar a natureza. Sentia o calor do sol da manhã a entrar-me na pele e o aroma fresco do mar e ludibriar-me o olfacto.. Que paz de espirito.. não me apetecia sair dali.. estava a carregar as baterias da minha alma.
TRANSIBERIANO - 28/07/2009 – 6º Dia – Novosibirsk (+ 6h que em Lisboa)

É uma cidade de estudantes. Concentra-se aqui grande número de Universidades e investigadores que estão na chamada “Cidade dos Cientistas”.
E não é que temos neste grupo tantos doutores?! Sabem tanto… Incrivel como quando se juntam sabem sempre uns mais que outros… “Agora cale-se que eu vou falar!”, disse alguém num almoço com uma agressividade estonteante. Pensei vir dali uma revelação inovadora, tal era a convicção da senhora para falar… hummm… afinal…
Pensei que estas coisas eram de miudos… que ser adulto significava tudo menos “bater o pé”.
Visitámos o Museu dos Caminhos de Ferro. Fiquei a pensar como foi possivel pôr aqueles monstros a trabalhar imaginando quantos cavalos seriam precisos para puxar aquelas carruagens. Pareciam elefantes que se erguem no meio da savana, grandes, poderosos mas lentos. Creio que se quisessem fugir não podiam, tal o peso que lhes pertence.
A Novosibirsk é mais uma cidade na Sibéria. Não senti nenhum impacto, verdadeiramente importante.
Neste caso creio que se organizasse a visita de forma diferente ganhariamos mais com isso. Ou talvez na verdade, apesar de ser a 3ª maior cidade da Sibéria não tenha mesmo nada de especial para ver.
Precisava aqui de uma ajuda do casal de engenheiros que sempre me esclareciam e ajudavam a complementar a história que os guias contavam, dando mais consistência aos trechos que eu ia absorvendo das longas ladainhas que se proliferavam pelo micro.
Muito bonita a engenheira, com o ar maternal que eu precisei de ver a certa altura no comboio. Naquela certa altura que a rigidez do meu avô emergiu que nem lava de vulcão.
Fica sempre com aqueles olhos a sairem-lhe das órbitas e eu na ambiguidade de me querer impôr e de achar que não vale a pena. Para quê dificultar-lhe a vida, que ao fim ao cabo, não sei quanto tempo será. Para quê, se tanto lhe devo? Sinto sempre que devo resistir á ira e deixar passar.
Naquele dia, os meus 29 anos tornaram-se pequenos. Sentia-me uma menina pequena que queria o colo da mãe. As lágrimas forçavam-se a sair e eu não lhes consegui fazer frente nem as consegui esconder da mãe, que não era minha mas que pela distância a encarnou. Tão amavelmente e também com lágrimas nos olhos me estendeu a mão e me levou para a sua cabine.
Ali me deixaram, ela e o marido, para eu encontrar a paz que sempre busco.
TRANSIBERIANO - 27/07/2009 - 5º DIA – Yekaterinburg (+ 5h que em Lisboa)

É engraçado como a imaginação me levava a outros sitios quando pensava na Sibéria. Certo… , estamos no Verão e não há neve… até faz muito calor, mas sempre pensei na Sibéria como uma área muito montanhosa, taciturna de tão rispida que me transmitia ser. Imaginava as cabras montanhesas a subirem os montes encrespados cobertos de neve.
Mas… ainda só vi planícies. Grandes extensões de planicies, verdes, com uns quantos arbustos e umas quantas árvores… creio serem abetos. Ao longe uma estradinha onde segue um camião de transporte de mercadoria. Outro comboio que passa na linha do lado. Uma manada. Um bando de pássaros..
Mas não é propriamente uma desilusão.
Parámos em Yekaterinburg. Estivémos aqui pouco mais que 2h. Valeu a pena. Não porque a cidade fosse algo de extraordinário, porque o não era. Uma cidade sem grandes revelações, com alguns monumentos bonitos, como uma Igreja ortodoxa mas nada de excepcional.
O que mais nos interessou foi estarmos no ponto que separa a Ásia da Europa. E é no centro desta cidade que existe uma pedra. Uma pedra… bom… na verdade um calhau. Não muito grande, de um tom branco e rosado, completamente disforme que marca essa separação. E lá estive eu a tirar “a foto”. “Aqui estou na Ásia! Aqui estou na Europa!”.
Na cidade de Yekaterinburg foi onde mataram a familia dos Romanov, uma das dinastias dos czares, que só há pouco tempo, se descobriu como tinham sido brutalmente assassinados.
Foi um dia inteiramente de viagem. Voltámos ao comboio perto do meio dia. Meio dia para nós, menos 5h para Lisboa. A esta altura já acertei o relógio 2 vezes. Sempre a perder horas de sono.
Começo a sentir que uma viagem de comboio consegue ser mais agradável do que um cruzeiro. Apesar da ideia ser a mesma, de irmos parando em várias cidades, a sensação de independência é maior. Ou pelo menos a sensação de impotência que sinto quando vou num cruzeiro é grande. Saber que estou no meio do mar, sem acesso a nada causa-me alguns arrepios.
O comboio está em andamento, é um facto. Mas a terra está mesmo ali á mão. Sinto que se precisar posso sair.
A noite foi longa mas passou depressa. Os carris marcavam o passo do comboio como se fossemos a cavalgar e acabei por adormecer embalada por esse movimento. Os olhos foram-se cerrando por baixo das inúmeras estrelas que decoram o céu da Sibéria. Um céu inexplorado pela ausência de industrialização e desenvolvimento.
Sinto, cada vez mais, que as coisas simples têm mais valor para mim.
TRANSIBERIANO - 26/07/2009 - 4º DIA – KAZAN (+ 2h que em Lisboa)

São duas senhoras que nada têm a ver uma com a outra, a autora e a irmã. Não as decifrei. Revelam-se de formas diferentes. A autora agarrou-se muito aos seus livros e é natural que assim seja. Todos nós nos agarramos ao nossos orgulhos, e quando não são os filhos ou esses orgulhos não se vêem, temos tendência a falar neles para que nos olhem.
Seguimos para Kazan.
Kazan é uma cidade Tártara. É uma cidade limpa e agradável, talvez picturesca. Não tem nada de muito antigo. Vive da industria e está junto a um rio.
No centro existe uma mesquita com cúpulas azuis turquesa, também ela recente, construida em 2004. Vem da convicção do governador desta cidade, que tanto os muçulmanos como os protestantes podem coexistir sem conflitos e que há espaço para ambas as religiões. Por isso em Kazan, onde se vê uma mesquita, logo a seguir se verá uma igreja católica.
O centro da cidade tem duas atracções. É a tal mesquita de cupulas turquesas e uma torre inclinada, que faz lembrar a de Pisa pela sua inclinação, mas é de tijolo.
Reza a lenda que Ivan, O Terrivel se apaixonou pela, então Rainha de Kazan, que era viúva, por ter perdido o marido na guerra. Guerra essa provocada por Ivan. Quando este veio a Kazan com o intuito de invasão apaixonou-se e quis casar com a Rainha. A Rainha disse que só lhe faria a vontade se Ivan construisse uma Torre de 7 andares em 7 dias.
Ivan assim fez. No 7º dia, a Rainha sobe até ao último andar e lança-se da torre.
Assim se vê: os homens são a cabeça, mas as mulheres são o pescoço. Viram sempre para onde nós queremos. Ivan fez o que ela queria, mas ela não fez o que ele queria, casar com ela. Foi um pouco drástica mas conseguiu-o.
As mulheres estão sempre na História. Bem ou mal falem de nós, mas falem! E é curioso como algumas são mesmo assim.
Quis conhecer a senhora de quem alguém lhe atribuiu cinco “coisinhas desagradáveis”.
Aproximei-me e creio ter compreendido os comentários mas não consigo resistir á genuidade desta senhora. É de facto genuina e isso surpreende-me e cativa-me. Não está cá para agradar gregos e troianos mas sinto-lhe a força a sair das veias. A vida, creio, não lhe ter sorrido sempre e o valor que dá ás coisas é muito próprio, centra-se no seu mundo e da familia. E o marido complementa-a de tal forma como nunca vi. Não esperarão ver um casal de apaixonado aos beijos, mas a cumplicidade ás vezes está até no silêncio…
