quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Partitura do Romance

Fábio lia-lhe todos os movimentos como se fossem uma pauta, o seu olhar percorria o corpo de Bia de baixo para cima, como se faz num pentagrama. A sua clave era o olhar, pois era a referência para Fábio de como ler o seu corpo. Trazia a doçura que ele procurava e o desejo de a desfolhar em partituras. Via-lhe a respiração como os compassos que trazia nos dedos. Tudo batia certo. Foi um momento perfeito.

By Patrícia Prata, in My Second Novel

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Tira a roupa para te provar

A chuva parou de cair, com a força de raiva contida, sempre molha esse ódio morto, que pára com o pulsar do mundo e se torna absorto. Já não tem os olhos vermelhos nem as veias dilatadas. Tiraram-lhe os freios, deu-lhes novas galreadas. Respira fundo, o sol chegou, enche os pulmões com o cheiro da uva, com o mosto que destila o teu âmago. Tira a roupa para te provar...

By Patrícia Prata

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A chuva

A chuva do meu pensamento, molha-me de palavras que caem na janela, presas no vento de discursos alheios, folhas que saem rasgadas por freios. Prende-me ao seio da fúria da chuva, leva-me no vendaval do asfalto cinzento, porque esse beijo roubado, levado, foi-me tirado em pecado. A chuva limpa a tirania, dessa tua alma vazia.

By Patrícia Prata

A ablução do espírito

Jesús respirou fundo, como se procurasse na alma a profundidade de uma resposta original: “A destilação é um processo muito sensual e profundo, é como se procurasses a purificação da alma. Imagina que acreditas em Deus e nas histórias do Inferno e do Céu. Acreditarias também que a tua alma na profundeza é pura, mas que se manchou no contacto com a sociedade, que é um mal necessário à sobrevivência. Chegaste, então a um ponto da tua vida que analisas a tua vivência, os teus pecados, a tua generosidade, o teu altruísmo, o teu egoismo, enfim tudo o que faz de ti a pessoa que és hoje. Se pudesses, escolherias então, o melhor de ti e o pior expulsarias do teu corpo, como se fosse a ablução do espírito. Mas a reflexão e decisão de separares as tuas virtudes dos teus defeitos, só aconteceria depois de um momento importante na tua vida, algo que te deixasse a pensar no que realmente vale a pena, um momento quente, de ebulição. Esse momento era o que tornaria possível essa separação. Isto tudo para te dizer que a destilação é a separação de duas substâncias diferentes através do aquecimento, a purificação.”

Patrícia Prata, in My Second Novel

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O muro

O vislumbre do muro que separava um país do outro causava arrepios. O arame farpado tornava visceral a ideia da transposição, como se o caminho fosse a austeridade disfarçada de inconsciência. Seiscentos quilómetros de uma patologia sem reflexão. Era na Cidade de Tijuana que a cerca se estendia até ao mar e na ilegalidade dos túneis que a passavam, pesavam as mortes dos dramas dos transeuntes.

Patrícia Prata, in My Second Novel

domingo, 4 de outubro de 2009

Na contra-luz da vida

Filipa tirava fotografias a todas elas e procurava a perfeita para si. Andava entusiasmada com a viagem, há muito tempo que procurava uma pausa daquele género, uma abstracção do peso da vida que levava. Procurava, como todas as restantes, livrar-se das imperfeições do dia-a-dia, dos detalhes menos agradáveis, das frustrações. Todas sabiam que eram apenas vinte e um dias. Mas gostariam que fossem como uma foto tirada contra o sol: a silhueta perfeita pela ausência de detalhes. Na contra-luz não se vêem imperfeições. Todas queriam viver nem que fossem apenas vinte um dias na contra-luz da sua vida.

Patrícia Prata, in My Second Novel