sábado, 4 de dezembro de 2010

Sete vezes


Sobe.


Sete vezes… que ela dorme nas colinas. Acorda embebida na chuva e sorri com vontade de lhe afagar a alma.


Era o vento que a puxava para o sopé.


Sete.


Quando lhe falou do castelo, olhou para a sua Graça. De lá via-lhe o azul dos olhos que lhe passavam por baixo do encarnado. Eram as cores. Eram cheias.


Cheias da candura dos carris que albergavam o fulvo corrente. Gritava pelo cabeço agarrada à força das pedras pretas. O limo fazia partidas como se fosse uma criança traquina e nas esquinas levava-lhe o aroma do rio, dos olhos que chorava por ver o cacilheiro partir.


Laranja.


Grande e ampla cá em baixo. Adivinharam a sua vida há tanto tempo que parece que as suas rugas vão sarando mas não passam.


Leva palavras. Não é o vento porque ela não deixa. É senhora delas. E o patriarca que vive no meio da praça fecha um olho porque sabe que não vê só. Ela que o deixa viver nas linhas da sua memória, nos desvãos furtivos que ela o abriga.


E mais sons. Da gorja que lhe grita debaixo para cima. Sete vezes. Nos rasgos que tocam o céu à procura umas das outras.



Patrícia Prata

Arrumada num canto da sala

O que ela mais queria era desprezar a insegurança, daquela que se cola ao cortiço como resina, envolvida numa embriaguez torpe e infame. O inebriamento quase obsceno por só lhe agitar o engenho, calcava-lhe a felicidade com rude força. Descobria-lhe as entranhas sem pudor. Aquele olhar não podia esconder. Queria mas não conseguia. Trazia na alma o verdadeiro bem querer. Daquele em que a felicidade reside no outro. Mas as palavras que ouvia eram como sentenças excruciantes.

Abstracção.

Difícil.

"Se não voltar é porque não tinha de voltar." - Como lhe doía pensar nisto. E arrumava-se num canto da sala.

Abstracção.

Sai à rua para ver e ouvir. Sai porque o frio lhe acorda a dolência. "Amanhã é outro dia. Amanhã vou acordar feliz e ditosa. " - E decidiu isto.

Patrícia Prata

Maior

“ … e subia a rua como se fosse apanhada no meio, eram os anos, era a memória que escorregava pela idade abaixo, era o medo da solidão e a incerteza de que a vida tinha valido a pena. Viajava nas rugas da sua face e já não lhes conhecia a razão. Houve tempos que conhecia cada uma delas, que sabia a razão da sua existência. Houve tempos que lhes dava nomes, lugares, datas… A frieza do esquecimento apartava-lhe a alma. Sabia que mais tarde ou mais cedo aquele entorpecimento a asfixiaria até que o ar deixasse de existir no seu corpo, até que se deixasse de lembrar quem eram os que a rodeavam, até que se deixasse de lembrar de si própria.

Velha.

Não. Preferia ser Maior, como dizem os espanhóis. Sem recordações mas Maior que antes. Maior que o mundo de que ela se lembrava.”

Patrícia Prata