domingo, 27 de setembro de 2009

O medo de assumir...

A miopia de Francisco era intencional e era dolorosa, tornara-se numa doença sem retorno. A sua miopia iria levá-lo à permanente cegueira, à infelicidade total. No seu inconsciente sabia que nunca ia ser feliz, mas preferia viver na ilusão de um dia encontrar a mulher que o preenchesse, preferia que a fraude da sua vida cobrisse os seus olhos, porque a vergonha que o atormentava era terrivelmente pesada para os seus ombros e não suportaria o peso de admitir que a sua felicidade estaria nos braços de um homem. Gostava, realmente, que ele conseguisse ser feliz, que o medo que o afrontava rompesse as correntes que o impediam de seguir o seu verdadeiro caminho mas a defesa automática e inconsciente que transportava na sua mente, rejeitava todas as motivações e emoções que o levariam a tomar fosse que passo fosse nessa direcção e a repressão conduzia-o para baixo, tão fundo que já nem ele próprio ouvia a sua voz interior. Estava abafada pelos seus receios e medos e o seu enterro já tinha sido há tanto tempo que as letras lapidadas na sua mente já tinham desaparecido, já nem se lembrava do que se tratava. E como era uma intenção solene, tinha decidido buscar o pote de ouro no fim do arco-iris, num dia sem chuva, num dia seco. Caminhava e, no seu cepticismo sabia que nada ia encontrar mas a teimosia em contrariar-se, alimentava-lhe a força das pernas e continuava a andar, e andava, andava. Num caminho sem volta mas sem destino.

Patrícia Prata, in My First Novel

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Per voi Paolo, se sai chi sono io

Sinossi

Laura è stato il viaggio di una vita. La vostra generazione disse di non mescolare tra loro e, comunque, riducendo lo spazio di una vettura del Trans-route Siberian si limita a vivere con un gruppo di persone provenienti da due generazioni di fronte a voi. L'amore che provava per Paolo, un italiano di trent'anni più vecchio, che aveva dato lui la passione per l'esperienza idilliaca delle loro mani, i giovani del suo corpo, il desiderio lussurioso di una donna che aveva conosciuto là e che i conflitti con il nonno, Laura ha dimostrato che il percorso era più importante della destinazione e che, attraverso tutte le interferenze che deriverebbe da un viaggio generazionale, Laura avrebbe fatto una donna diversa.

Patrícia Prata, in My First Novel

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sinopse

Laura fazia a viagem da sua vida. A sua geração dizia-lhe que não se misturasse com as outras e, no entanto, reduzindo-se a um espaço de uma carruagem do Transiberiano , via-se confinada á convivência com um grupo de pessoas de duas gerações á sua frente. O amor que sentia por Paolo,um italiano trinta anos mais velho, que lhe dera a paixão idilica pela experiência das suas mãos, na juventude do seu corpo; o desejo lascivo de uma mulher que ali tinha conhecido e os conflitos com o seu avô, mostravam a Laura que o caminho era mais importante que o destino e que através de todas as interferências geracionais que resultariam daquela viagem, fariam de Laura uma mulher diferente.

Patrícia Prata, in My first Novel

Renascer mulher

Lia-lhe os gestos como se fossem um livro, a vontade de saber o final era cada vez maior e assim como tinha acontecido com Paolo, decorava-lhe todas as movimentações do corpo. Pareciam perfeitas naquele contexto e na sua ausência de feminilidade, surgia uma sensibilidade fora do normal, como se tivesse renascido mulher apenas para aquele momento.

Patrícia Prata, In My First Novel

Resposta muda á Natureza

No fim soltou um suspiro, como se tivesse esperado uma eternidade para me dizer tudo aquilo. Eu ainda estava a digerir as suas palavras, quando um silêncio mudo se apoderou das planicies verdes onde estávamos. Não se ouviam nem vozes nem ruido nenhum, parecendo que a própria Natureza se tinha calado para ouvir a minha resposta. Aqueles segundos intermináveis deram espaço para Inês olhar para mim, e com o olhar, pedir uma reacção.

Patrícia Prata, in My First Novel

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Presa num corpo de mulher...

Mas ali estava ela… a alma perfeita, presa a um corpo feminino. Momentos houveram que me apetecia beijá-la. Era tudo tão certo, tão profundo, sem cedências, sem calculismos, que a única barreira que existia era ela ser mulher. Quantas vezes não pensava em tocar-lhe nos lábios, para saber, para compreender… Sempre achei que o beijo dizia muito mais das pessoas do que os sapatos!

Patrícia Prata, in My first novel

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O mundo não vive só de heróis...

No dia do acidente tinha decidido morrer, tinha escolhido mandar-se duma ribanceira para não enfrentar os problemas, para não ter de os resolver. Para alguém se decidir matar é porque perdeu as forças num caminho que acha que já não tem volta. Que por mais que faça seja o que for, nada interessará, nada mudará o futuro que se espera negro. O curriqueiro é lidar com um futuro incerto e a incerteza já é um tormento bastante pesado mas lidar com um futuro aparentemente trágico é preciso muita coragem para se levantar e dizer que temos força para o derrubar. Se o suicidio é cobardia, talvez seja, mas o mundo não vive só de heróis.

Patrícia Prata, in My First Novel

domingo, 13 de setembro de 2009

Discurso incongruente

Via-me num discurso incongruente. Queria sentir tudo, mas não me queria dar, queria ver mais longe, mas sentia-me míope, queria ouvir mais, mas o ouvido era selecto e do cheiro que andava no ar, só os bons aromas queria provar. Se não sentisse o mau sabor, nunca conseguiria saber o verdadeiro paladar das coisas. Mas sentia-me mais segura e mais protegida. Havia uma fresta aberta na minha janela, pronta para receber o lado lunar das coisas e esperava que esta viagem me preparasse para a recepção.

Patrícia Prata, in my First Novel

Da janela do comboio vejo a Sibéria...

Recostei-me a espreitar pela janela, e como se fosse um filme, espiava as planícies que corriam pela tela, como se fugissem de alguma coisa. Haviam alturas que pareciamos passar por sitios que Deus se tinha esquecido que existiam. Estavam reservados ao abandono, como se tivessem cometido todos os pecados mortais e os tivessem deixado ali por ser proibido o perdão.

Patrícia Prata, in My first novel

A chegada..

Chegámos á estação de comboios. Uma estação como outra, de qualquer cidade do mundo: agitada, cheia de gente com malas de um lado para o outro, um grupo de turistas com mapas na mão e mochilas ás costas, uma familia com os filhos a correr de entusiasmo, uma namorada que parte, um marido que chega, enfim um misto de emoções que se sentia no ar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sensualidade de um amor maduro

Fiquei a pensar em toda aquela situação. Sentia-me a reagir, não tinha a certeza dos meus sentimentos. Aqueles acontecimentos baralhavam-me os sentidos. Não sabia se gostava do Paolo ou se o meu orgulho tinha ficado ferido. Quando o vi tão aflito em me perder e percebi a honestidade das suas palavras, alguma coisa mudou em mim. Sentia que estava a ser egoista e mesmo ruim. Gostava da ideia de ter um homem como ele a amar-me. Era extremamente sensual sabê-lo, mas não sabia até que ponto gostava dele.

Patrícia Prata, in My first novel

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Restringindo o espaço, dilatando o tempo

Todas as tardes que passava com ele na sua casa, eram agradáveis e tinha sempre vontade de lá voltar. Como é que restringindo o espaço e dilatando o tempo, as coisas mudavam? Eram, apenas, duas variáveis que se alteravam, tudo o resto era constante e, no entanto, tudo ficava diferente.
Tinha de fazer um esforço para não ser egoista, para me identificar emocionalmente com o eu dele, para perceber que era eu que tinha de ceder, porque a idade ganha esse estatuto, teria de ter eu a responsabilidade de tornar aquela viagem agradável, era eu que tinha de estar agradecida.

Patrícia Prata, in My first novel

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Silhueta gravada

Apagaram-se algumas velas e o brilho dos olhos intensificava-se, vendo-se, apenas, silhuetas na sala. Sabia bem como era a de Paolo, tudo o que lhe dizia respeito estava gravado na minha memória. Todos os traços do seu rosto estavam impressos na minha mente. Era uma coisa nova para mim. Tantos pormenores deliciosos e eu não me conseguia separar deles.Sentada a ver o espectáculo, os meus pensamentos embrenhados na escuridão daquela sala, levavam-me duas filas acima. O cheiro das cerejas lembravam-me o sabor da sua boca. Queria olhar para trás mas a evidência prendia-me os músculos do pescoço. Ao mesmo tempo não queria que ele percebesse que o procurava, nem ele nem os demais.

Patrícia Prata, in My first novel