sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Fingir

Pausa, pausa... finjo que dela não preciso,

Engano-me a mim mesma, com mestria e arte.

Mas no silêncio, onde o tempo é indeciso,

Revela-se a verdade: que o meu peito a resguarde.

 

Finjo que a correria é o meu eterno fado,

Que na turbulência, o meu ser encontra abrigo.

Mas na ausência da inquietude, no caminho sossegado,

A pausa infiltra-se, subtil, como antigo amigo.

 

Nesse fingir, sou a poeta de cada dia,

Escondo a fome de um descanso tão humano.

Finjo não querer essa pausa, finjo bem, mas é engano,

Pois nela, secretamente, a minha alma se alivia.

Patrícia Prata

Pausa

 

Pausa.

Mesmo quando o tempo insiste em galopar.

Mesmo sob as vozes que clamam que é na corrida que nos definimos.

É na pausa em que paramos, neste silêncio cardíaco, que o mundo se desdobra.

Aqui dentro é onde tudo acontece.

Patrícia Prata

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

O ritmo dual de quem escreve

 

Não sei se reconheço o que escrevo assim desta forma... a falta de tempo para ponderar deixa-me ansiosa. Cada coisa tem o seu próprio tempo. Como ousar não respeitar o tempo que cada uma demanda? Se o que redijo é sempre ponderado... sempre lhe é concedido o devido tempo. Talvez seja necessário pausar antes de deixar fluir, talvez seja um erro, talvez permitir que a corrente rompa as comportas seja surpreendente, mas, sim, existe alguma reserva em mim. Este interstício, que decorre desde que exprimo o que penso até que se materialize no papel, é o tempo preciso para a colheita do fruto maduro. Menos tempo, e o fruto estará imaturo. Mais tempo, e o fruto perecerá. Neste ímpeto de escrever de improviso, parece que se espera que a vida inteira se dê nesse intervalo, nesse instante. Eu prefiro aguardar pelo tempo devido das coisas e pelas coisas no seu devido tempo.

Contudo, há beleza nesta pressa, nesta faísca que só a urgência pode acender. Há verdades que só emergem sob a pressão do momento, sem o lapidar do tempo. Na diligência da expressão, talvez haja uma autenticidade que a deliberação tende a polir em excesso. O coração, ao ditar sem filtros, desvela mistérios que a razão, com o seu ritmo meticuloso, muitas vezes oculta. E assim, nesta dança entre a precipitação e a paciência, entre o arrojo e a ponderação, a escrita transforma-se num campo de batalha onde tempo e tempo se enfrentam – o cronológico e o interior, o marcado pelo relógio e o ditado pela alma. Talvez já devesse saber, que quem escreve, deve ser um artífice capaz de equilibrar estes dois mundos, sabendo que no teclado ou na caneta residem tanto o imediato quanto o eterno.


Patrícia Prata

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Reflexões no autocarro

Bate, bate cidade.

Reflete-se nas janelas do autocarro, enquanto os ânimos desfilam nos atalhos cotidianos, perdidos e encontrados no emaranhado das suas próprias vidas. A paisagem urbana desdobra-se à minha frente, revelando-me os confusos fios que tecem as histórias humanas.

Ao meu lado, uma mulher de olhos inquietos e sorriso enigmático mergulha numa conversa telefónica que parece tão trivial quanto profunda. Por quarenta minutos, o tempo parece ser apenas um sussurro, enquanto ela se envolve, de maneira aparentemente tranquila, na vida de um homem cuja existência mal começara a tocar a dela.

Surgia, do íntimo, um desejo de o esculpir, um espelho onde se projetavam anseios e inseguranças, ressonando audivelmente no espaço limitado do autocarro. Talvez seja porque a independência se insinue como um sopro, silenciosa e efémera, na agonia de encontrar a harmonia perfeita entre duas almas.

Talvez… porque as palavras da mulher flutuavam no ar, como fragmentos de um diálogo perpétuo que transcendiam o tempo e o espaço, revelando a complexidade das nossas interações. E, assim mergulhei nas águas turvas da minha própria humanidade, a mulher no autocarro levou-me a questionar os limites entre o ser e o outro, entre a necessidade de moldar e a aflição de ser moldado.

Talvez a resposta resida na própria ambiguidade da condição humana, na fluidez dos papéis que desempenhamos uns perante os outros. Somos simultaneamente artífices e matéria-prima, construtores e construídos, navegando no oceano infinito das possibilidades que nos são apresentadas.

O autocarro seguiu o seu caminho, e a mulher desapareceu na multidão, levando consigo um pedaço do enigma que somos todos nós. E, enquanto as ruas da cidade se desvanecem em sombras e memórias, o eco das suas palavras permanece, um lembrete constante da busca incessante pelo equilíbrio entre independência e dependência, entre o ser e o outro.

Patrícia Prata

terça-feira, 11 de abril de 2023

Os mestres da dança dos compartimentos

Indecifrável é o céu lá fora: não sei se o sol resplandece ou se a chuva desce em pranto. Cruzo o limiar do metropolitano, uma parte de mim desvanece-se, deixando para trás o instante anterior. Envoltos nas páginas de um livro ou perdidos no telemóvel, os meus olhos e pensamentos esquivam-se. É a serenidade que me acompanha – por vezes, talvez aparente –, mesmo quando tudo à minha volta efervesce com gentes apressadas. De tempos em tempos, num raro desprendimento, observo essas almas que, como eu, navegam em busca de portos e propósitos. E assim como as formigas, que em labirintos de terra seguem um percurso invisível aos olhos dos homens, também as pessoas, nessa lida diária, obedecem a um ritual que lhes é próprio.

Hoje, mais uma vez, enquanto me encontrava na plataforma do metropolitano, observava a dança intrincada dos cortiços em movimento. As carruagens, serpentes metálicas gigantes, deslizavam pelos trilhos e, das suas entranhas, emergiam seres apressados, carregando talvez todo o peso do mundo. Contudo, algo prendeu o meu olhar, algo que sempre acontecia, mas que hoje perturbava a minha serenidade; algo que desafiava a harmonia inerente à existência: almas ansiosas por adentrar o metropolitano, negando a passagem àqueles que ansiavam abandoná-lo.

Era um fluxo enganado, um tempo que se dobrou, uma luta entre o que era e o que deveria ser. O espaço, antes compartilhado em harmonia, tornava-se palco de um embate silencioso e desesperado. Os que saíam estavam presos num labirinto sem fim, enquanto os que entravam aglomeravam-se na porta, querendo ocupar um lugar que ainda não lhes pertencia.

Será que a compreensão da entrada e saída lhes escapa, como bruma que se desvanece? Será o temor de perder o tempo, o carrasco que os leva a desdenhar do mais elementar princípio de cortesia e convívio? Ou, neste mundo de incessantes urgências, a empatia desfaz-se em grãos de areia?

E assim, perdida em pensamentos, vi a dança repetir-se a cada paragem, a cada nova carruagem, como se fosse um espetáculo coreografado pelos demónios do egocentrismo. O metropolitano transformava-se, então, num espelho da sociedade em que vivemos, onde o simples ato de dar passagem aos outros é ignorado em prol de um objetivo incerto e fugaz.

Mas entre tantos que se atropelavam, houve aqueles que, como sentinelas de uma ordem há muito perdida, aguardavam pacientes e atentos, permitindo que os passageiros saíssem, antes de se adentrarem. A esses, eu não posso deixar de prestar minha homenagem, pois, mesmo diante do caos, conseguem encontrar a beleza e a gentileza da convivência humana.

Será, então, a lição que me deixa esta dança dos compartimentos: que haja espaço para a entrada e a saída, que possamos compreender a importância do equilíbrio e da cortesia, e que, no fim de contas, todos sigam em frente, rumo aos seus destinos, sem deixar que o egoísmo e a pressa sejam os mestres da nossa dança.

Patrícia Prata

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

(Re)visita

 

É sempre aqui que me encontro,

Neste caminho areado.

Não preciso de sinais,

Nem de passadeiras.

Não preciso de sentir o cabelo penteado

Nem de saber de cor as Janeiras.

 

Aqui não tenho medo que a roupa me assente mal.

Não quero saber se o buço está feito,

Se deixei o jantar preparado,

Se tenho um propósito ou só um fado.

 

Aqui só sinto.

Sinto sangue.

Sinto ar.

Sinto o rastilho a incendiar.

O arbítrio.

O real.

Sinto-me o ponto cardeal.

Tudo está bem.

Tudo está certo.

Como se o azul estivesse aberto.

Só para me acolher

Junto com o seu bando.

 

Que eu nunca mais me volte a esquecer

De me vir ver de novo, de vez em quando.


Patrícia Prata

sábado, 15 de janeiro de 2022

Cabras

 

Neste atalho

Oiço o que me circuita.

Vou-me içando.

Vou tombando.

O carreiro é meandroso… comentam.

“Não julgas como é o globo.

Tu lascas deduções.

Produz.”

Mas se este caminho é meu,

Se estes joelhos moídos são a razão do meu andar,

Se estas dobras lesionadas dos meus braços são o motor das minhas fibras,

Porque não me posso erguer nesta montanha assim como julgo?

Faz-me falta cair cem vezes.

Ou sem vezes mais cairei.

Não importa.

As cabras sempre chegam á pua.


Patrícia Prata

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

É só cá dentro que me sinto cá fora

 

No escuro da noite,

Vou em passos espreitando o caminho

Nessa ideia de cidade que tenho…

Nesse sonho em que me vejo sozinha

Vou sem medo.

É só quando abro os olhos que a realidade me afeta

E é só aí que arrepio o carreiro.

É só no dia que duvido das curvas.

Mas também é só no medo que me vejo a coragem

É só no vento que me sinto a pele.

 

No escuro da noite,

Vou em silêncio, curiosa

Nessa ideia geométrica da vida.

Vou sem medo.

É só quando as unhas rasgam que a vontade de correr chega.

E é só aí que se me gastam as solas

É só no frio que visto aconchego.

Mas também é só no escuro que vejo a luz.

É só cá dentro que me sinto cá fora.


Patrícia Prata

 

 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Chinelar

 

 

Nesta brecha de luz

No grão de areia que se sentou por entre os dedos

O som do chinelar nas ruas de calçada,

O bater desconcertante dos ramos na janela,

Nesse brilho apagado, achava eu que ninguém via,

O momento desinteressante que não importava para o caos.

E o universo acendeu-se,

Porque teve consciência de si mesmo.


Patrícia Prata

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Retalhos de luz

 São nos retalhos de luz que me encontro

Muitas vezes de repente.

 

Porque todos somos mentiras de vez em quando.

 

Todos somos dor ou magoamos.

Somos ódios, somos amor.

Pedimos desculpa, provocamos dor.

Somos amados. Amamos.

 

Todos somos meigos, todos somos duros.

Somos dóceis ou filhos da puta.

Construímos pontes, erguemos muros.

Deixamo-nos morrer, vamos à luta.

 

Todos perdemos, todos ganhamos.

Regeneramos, danificamos.

Somos todos nós.

Assim feitos de retalhos.

Retalhos de luz.

Mesmo quando frios, nos tornamos agasalhos.


Patrícia Prata

domingo, 11 de abril de 2021

Algo aconteceu

 

Algo aconteceu.

No momento achava que tinha sido um terramoto.

Daqueles que abrem fendas no chão, que rasgam a terra ao meio e engolem pessoas.

Parecia.

O fogo brotava de baixo e juro que o vi a derreter-me os pés.

Nem percebi como tudo aconteceu.

Não o vi chegar.

Não havia vulcões nem tsunamis, não havia fumo nem terra quente, nem cheiro a enxofre.

Nada.

Apenas um silêncio que não soube escutar.


Patrícia Prata

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Sem sagrado nem profano

 

Na estrada debaixo de mim,

Mais outra gota que foi.

Nas solas batentes no chão,

Onde só eu sei quanto valho,

Sou as cartilagens dos dedos,

O sangue a correr, os pés a doer

As cãimbras nos gémeos, o coração a bater.

 

Toda eu sou eu.

Toda eu no mesmo momento.

Naquela estrada que arrepia caminho.

Na voz que se evapora da mente,

Todas as vozes que às vezes lá gritam,

Todas as vozes que choram.

Já lá não se demoram.

 

Toda eu sou eu.

Quando só oiço as válvulas empurrarem-me a frente.

Ali sou eu sem julgamento.

Sem reprimendas ou opiniões.

Sem jargões.

Sem avaliações.

Sem sagrado nem profano.

Sou eu toda neste espaço.

Sou eu toda nestas pernas, nestes quilómetros escassos,

Mas tantos.

Mas tantos.

Sem espuma dos dias

 

No teu olhar consigo ver a espuma do mar

Não porque são azuis

Esses gomos, mirtilos doces

Porque são cheios.

Porque ondulam por mim que te amo.

 

Tiraste-me da espuma dos dias

Nesse dia que te conheci

E contigo tudo se tornou abrigo

E nem sei como comecei.

 

Mas são fortes estes laços

São para sempre mesmo quando me levas o mar

Quando me escondes os gomos

Quando me deixas de olhar

 

Eu sei que é contigo.

Conheço-te a volta da prancha.

Quando rodopias os pés no descanso do pensamento

E quando o largas na água e recuperas o fôlego

Encontras esse estado isento.

 

Mas aqui estou.

E sempre estarei.

Sem promessas. Sem garantias.

Apenas sei.


Patrícia Prata

Treinador de bancada

 

Reza muito engraçada

É a minha com o meu Deus

Nunca digo quase nada

Ou então sou desbocada

Falo mal dos Seus ateus.

 

Deve rir-se à gargalhada

O Deus que me ouve o dia

Minha língua uma auto estrada

Ele treinador de bancada

Só ouve. Já nem pia.

 

Imagino-O lá na casa

Do Deus Senhor poderoso

Debaixo da Sua asa

A deixar o Pai em brasa

Ao ouvir-me em tom jocoso.

 

É que esta necessidade que tenho

De Lhe dizer o que eu cá acho

Faz-lhe tresmalhar o rebanho

Fá-Lo crescer de tamanho

E dar o Seu ar de macho.

 

Por mais que me lembre Maria

Que somos todos iguais

E que a Sua grande valia

Para matar a tirania

D´Ele poder ter dois pais

 

É dizer-lhe suavemente

Que em dias de sol aberto

Por mais sério que seja o crente

Terá de entender porque mente

Quando diz que crê no incerto.


Patrícia Prata

domingo, 27 de dezembro de 2020

Ainda é cedo

Não deixar que correr me doa

Que o medo me imobilize

Que os olhos se fechem.

Sou a força do vento quando acredito

Sou o espírito do sol quando me levanto

Sou as estrelas da noite quando durmo.

 

Ainda é cedo.

Ainda há tempo.


Patrícia Prata

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A minha vida na tua


A minha vida na tua

Foi hoje que me disseram para escrever o que me magoa.
Que eu nem sei o que é...
Por mais que pense, tenho uma ideia perdida... lá bem fundo,
Naquele canto que ninguém quer ver,
Nem eu vou lá espreitar.

Foi hoje que com candura me disseram para resolver a dor.
Que eu já nem lembro onde é...
Por mais que tente, sinto qualquer coisa... lá bem longe,
Naquele ermo âmago que ninguém diz que tem,
Neu eu vou lá lembrar.

Mas eu sei. Se forçar as memórias...
São indistintas mas fazem-me suar.
Porque é mais fácil sentir raiva do que tristeza.
Porque é mais fácil gritar do que chorar.

São sempre as vezes que te quero perdoar.
E reconto-me a nossa história.
E vejo-te a dar o que sabes.
E sei que o que dás é tudo o que tens.
Mas não te posso desculpar.
  
Sei bem que a tua vida foi dura.
Também tu vives na mágoa da vida.
Essa vida antes de mim e antes de ti.
E narro-me a tua amargura...
Mas não consigo relaxar.

Queria embalar-me na tristeza.
Mas prefiro esta dureza.
Porque o corpo rijo me diz
Que enquanto choro me mostro
Que enquanto endureço pareço feliz.

domingo, 9 de setembro de 2018

Dias de luto


Escrevo sem palavras que correm
Essas são duras para quem é vil
Não encontro compaixão em mim
Não encontro, certamente
Dias que dizem não, sem querer que me fuja este chão
Que junta gente e afasta pessoas
Sei que o corpo aqui está e jaz na pedra fria,
Nesta nua mancebia

E sem parar, porque o mundo não pode, morrem.
E aí vejo-as a sair do covil.
São elas o verdadeiro Caim.
E com pózinhos de perlinpimpim
Saem brilhantes como um doido sabichão
Que me mostra as gentes boas
E do joio sai quem um dia
De palavras doces me enchia.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O último dia das palavras

Palavras: odeio-vos!
Mas quem pensam vocês que são?! Creem que pelo uso capião, estas mãos cevadas vos pertencem?!
São minhas! Anafadas, desinteressantes, aglutinadas a um canastro gigante!
Mas são minhas! Não são de um poeta ilustre…, bem-parecido… que gosta de ser visto contigo… ou com aquela… Essas outras que me procuram pelo que escrevo, pelas catervas de folhas dispersas pela casa, que não me dizem amor, que não me dizem nada!
São minhas! Quando broto pelo corpo delas e deles, e as conservo no prazer do seu espigueiro, porque as penetro de tal forma que não há palavras para narrar o seu gozo!
Ainda assim… ainda assim, vocês dão cabo de mim!
Rapinam-me o protagonismo! Porque a minha barba malfeita e o meu porte desarticulado não chegam para quem se abeira.
Palavras: odeio-vos! Não mais se rirão de mim! Chega de me matarem, cruéis! De me darem esperança, de se usarem das minhas gadanhas para surgirem no papel!
Acabou! Hoje será a última vez! Vou matar-vos a todas! Chega de preposições, locuções ou advérbios! Não quero vogais nem consoantes! Todas são irritantes! Impostoras! Trapaceiras! Chegam a ser rameiras! Não vos quero nem pintadas, nem de itálico vos quero dadas!

Apareçam nos atoalhados… nos tapetes também pode ser… limparei meus pés molhados ou as mãos sujas de foder!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A Transviada

Presa a este pecado,
Rujo por dentro.
Comprometo-me com o meu fado.
Queria somente ser livre.
Livre desta culpa que trago.
E quando me queres,
Mesmo presa a este atrelado,
Sei por um momento,
Que sou isenta
Dessa iniquidade que me atormenta.
E é nesse sopor embargado
Que o corpo livre de pecado
Adormece enovelado no teu.
Tão livre me sinto desse delito

Que acordada quase dormito.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A casa onde habito

Honro o ser que sou quando em mim habitas e me despovoas,
Quando a gente que trago comigo desde que morri para o mundo
Me leva ao desencontro de um morto, muito antes já defunto
E revivo e vivo do sopro da porta que bates nas minhas entranhas
Que quebras, que esgotas, que roubas com as tuas raposias
E me apanhas.
Amo essa senda que me devora por dentro
Que da casa que tinha, uma cave ficou
Resguardada de nada. Sem medo. Sem cruz. Apenas tu.

Onde habito, exíguo, confinado ao meu porte.

Patrícia Prata

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O suspiro da melancolia

Sei das tuas asas.
Conheço-as.
Sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra,
quando me dizes que tudo é efémero,
que se deve ignorar o vindouro porque é hoje que sentimos o corpo florescer.
É hoje…
E amanhã?
Sabes...
Não sei se te diga que fui eu que te dei asas...
Mostrei-tas no agasalho desta janela e partiste a dizer que o mundo amanhã acabaria.
E voltaste.
E partiste novamente todos os dias com as asas maiores.
Era porque não sabias que continuavas.
Perplexo com a ideia da humanidade não existir procuraste nas penas a vontade de voltar.

Mas quero que vás.
Que as penas que tens sejam suficientes para continuares a acreditar que o mundo existe tal qual o idealizas.
Sim... deixo-te voar... assim, sem conheceres as tuas asas
Porque só as conhecerás quando te aprontares a partir

Sei das tuas asas.
Conheço-as.
Sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra.
E mesmo que voltes com as asas crescidas, o agasalho da minha janela será maior
Não te preocupes...
Só suspiro de melancolia porque conheci a saudade.

Vermelho

Arranquem-nos as veias maltratadas,
Suguem-nos o sangue das pálpebras até deixarmos de ver,
Cravem-nos as facas nas entranhas, deixem-nos na rua violados, acabrunhados…
Quanto mais revoltados,
Menos fome teremos.

É o povo que cai sobre os culpados,
Cabeças rapinadas dos cortiços arguidos.
Lutamos enfermos quase mórbidos das desgraças,
Olhamos lívidos, suas carcaças… humilhadas.

Ruborizada senda que passámos sem calcanhares,
De um país caído, depois levantado,
Nascem vidas livres sobre vidas encarnadas,
Com marcas nas mãos agrilhoadas.

As crostas das mãos já não nos esgaravatavam o ser,
Por mais que capitulassem e a ferida se abrisse
O sangue já não nos ofendia.
E o poderoso que se ria, morria
E o fraco que se aprumava, gargalhava.

Já não era demência ou desejo insalubre.
Eram as veias rebentadas da fortuna assaltada.
E deste sangue encarnado nasce a sagrada vitória
Derramado! Pregado no chão sob a morte do nosso irmão.
Tingido de vermelho vivo, o pai, a mãe e a filha,

Tomámos, sem sangue nas mãos, a Bastilha
Começou a Revolução.

Patrícia Prata

sábado, 23 de janeiro de 2016

Le temps des cerises


Ela pegava nos sacos de areia como se tivesse a força de um varão. Eram braços delgados, declaravam ter força para coisa pouca. Mas pouco interessava. À medida que corriam as ruas levantavam mais sacos, mais pedras do chão. E esses braços delgados ainda tratavam dos que caiam a seus pés.

Eram pés que dançavam apesar da tristeza. Percorriam nus aquela dor infinda entre os morrentes e os desânimos e chegavam para o lado os corpos pelos quais já nada podia fazer. Havia momentos que tinha de deixar para trás quem amava, mas era a todos que amava, amava profundamente, como se ama alguém para toda a vida, para todo o sempre, amava-os porque juntos tinham sido mais fortes, juntos tinham conseguido o que ninguém jamais tinha conseguido, juntos eram um; eram um grande; enorme; colossal! Eles que grandes, colossais e que ao mesmo tempo eram pequenos, infinitamente exíguos, estreitos, apertados, tão diminutos aos olhos dos que se achavam gigantes, monstruosos, titanescos que quando chegaram fortes por serem juntos e – não estarem somente juntos mas por serem juntos – partiram o gigante e agigantaram-se ali mesmo para todos verem, para que todos pudessem sentir a liberdade. Eram eles grandes na cidade, fortes pelos seus braços já desgastados do trabalho, dominados pelos titãs que os obrigavam a ceder, a quebrar, a deixar que outro gigante se viesse apoderar do seu trabalho, das suas casas, daquilo que não sendo seu era seu.

Patrícia Prata

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Nas crateras dos vulcões

E quando te levantas a pensar que é desta?
Quando sais à rua com os cabelos na mão, presos nos dedos porque já te chegam ao chão?
Não te lembras.
Rogas pragas à memória.
Contas para ti própria uma história
Para te lembrares, para saberes que é de tudo isso que és feita
Mas mais ainda do que acreditas.
São as pernas incompletas, desfiadas que te atrasam o caminho. Mas são pernas que andam e que correm, porque na verdade o seu alento vem de dentro.
E aí estás tu.
Meretriz, sumida, perdida na vida, não sabes se és carrancuda ou só sisuda.
Achas que te dão cognomes nas costas e encostas para não ouvires. Está debaixo do teu braço.
Às vezes é só um abraço
Outras são línguas tortas, facas, serpentes, contentes por te matar, por te tirar esse alento que te vem de dentro.
E quando te levantas a pensar que é desta, continuas a partir tabique, a suplicar perdão, quando não!

Essa fenda não é tua. É da humanidade… que ainda não ganhou idade para deixar os juízos repousar nas crateras dos vulcões…

Patrícia Prata

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Virga-férrea

Se te perco… se te perco são desses pés!! - disse-lhe. És grotesco, sabias?
Ele olhava-a de tal forma pesada que ... lhe deprimia o focinho – sabia ele.
Queria bater-lhe. Queria cilindrar-lhe o crânio debaixo dos seus pés grotescos!

São pés! São pés puta! – pensava ele antes de lhe britar a carranca. (...)

Patrícia Prata

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Decifrar destroços



Eu que decifrava destroços

Galguei folhas para soletrar convenções

Deixei ossos na estrada, esmaguei canções

Prometi que me encaixava numa banda desenhada

Servi jogos de compromissos, riscos, esquissos.

Patrulhei afamada venda, levei-te daqui para fora

Deixei-te à porta, na tarde que demorava,

Disse que te amava como quem devora

Calcei-te os pés nas minhas meias e de dentro da guitarra

Toquei.


Patrícia Prata

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Três

Eram três.
Permitam-me que fale assim sem quebrar, sem rosto, sem voz.
Com uma cana nas mãos, enche o bico com grãos… grão a grão…
Falta o pão, seca a boca, fica louca sem roupa, sem mais tecido na pele…
Procura.
De manhã sai para a rua, nua… como sempre nua. Não! Não é da lua! É da ausência.
Esta permanência.
Fica castigada. Não foi a mãe nem o pai. Foi a nação.
Presa por sentir que perdeu a mão. A mão que trabalhou, cavou, semeou, colheu, cedeu, deu, viveu… mas não morreu.
Está viva. Acordada.
Então porque lhe devolvem nada? Fecham portas. Portas dela, fecham também a janela e a ela…chamam de sorna…
Como? Se lhe negam a jorna…
Levam o puxador para os grandes, com lustro dourado e suor. Estupor!
A culpa desses três diria oca, desculpa hipócrita, um murro na boca, um estouro no cú! Foste tu!

Foste tu regência! Que me tirou o emprego e a carteira enquanto falavas de fado para eu não perceber os porquês, enquanto tu culpavas aqueles mesmo três!

Patrícia Prata 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Preliminar derrapagem

Forte, cheia,
Cansada, desocupada,
Rude enfreada.
Corre cavalgada.
Lê pela madrugada, cresce esperta, dedicada.
Arregaça pulsos, sobe montanhas.
Sem manhas.
Cem manhas. Descobre que nascida é criada. Conta ser gente, instruída, ser gente educada.
Conta ter papéis na carteira, memória alargada.
Não comete erros. Sagaz na descoberta. Liberta.
Corre sem medo, cai rochedo, quebra picos, sai ligeira, sem eira.
Primeira.
Preliminar na derrapagem, conta tudo, conta a rodagem.
Triste, foge da pureza, que é contar nada, pega nas teclas em seus dedos. Troca com elas segredos.
Privada da alegoria que a vida prometeu um dia…

não contar, não fazer falta … andar para sempre de gola alta.

Patrícia Prata

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A drapejar

E porque é que se arrisca a perder tudo quando se pensa que ter pés é sensato?
A drapejar, conto-te eu que sei, é que se é feliz…
Mas e se te dizem que é melhor não ires que devias ouvir os pareceres sensatos das pernas intactas, daquelas que ainda conservam os pés – na terra – daquelas que não dobram a esquina, só porque apareceu ontem no mapa, daquelas que não chutam as pedras porque o dia não foi perfeito…
Às vezes… quando bato com a cabeça no passeio e o sangue se desdobra na calçada, chego a pensar que deveria ter ficado naquele dia igual a todos… naquele dia em que acordo e bebo leite e como pão e vou trabalhar, ou não, ou não…
Há dias… que sei que devo quebrar as correntes só para lhes sentir a dimensão sobre a casca esfolada.
Amanhã, também, não dobro a esquina.

Amanhã os pés crescem e desvio-me das pedras que hei-de encontrar no caminho.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

É da hora que a perco

É da hora que a perco

Longas horas…

São castas essas horas que me levam para fora,

São rígidas dos botões que me apertam por dentro

Sei dos rebentos que me seguem neste acanhamento

Por dentro, por dentro…



É de fora que fico neste vazio

Tão longe…

São estradas enchentes feitas de nada,

São robustas das veias que me secam a boca

Sei das prisões que me estreitam a sinfonia

Até um dia, até um dia…

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pés

Pés que dançam, fortes, soltos.
Capitulam em notas, como crescessem já homens, já mulheres, já crescidos.
Eles que não sabem que vereda percorrem porque procuram atalhos à pobreza das suas solas.
Correm porque não querem sentir o edema da adega.

É porque se alienam.
É porque os obrigam a dançar como os pés que dançam fortes.

Mas correm.
Correm porque não querem descobrir que a força que têm lhes pode ser tirada a qualquer momento.

Pés que dançam, fortes, soltos.
Rendem-se uns aos outros, como se fossem livres, francos, abertos.
Eles que não olham para o seu par, porque sabem que no ritmo do outro está acorrentada a música que lhes deram.
Correm porque não querem parar de ter dores.

Mas correm.
Correm porque se lhes doer se sentem mais fortes… soltos.

Patrícia Prata

sábado, 3 de dezembro de 2011

Se eu fosse um livro

Se eu fosse um livro comia-te as palavras
Esses sonhos que te rodopiam a alma e cantam apenas para ti
Esses medos que afugentam quem te quer as letras, quem te ama as promessas

Se eu fosse um livro perdia-me nas tuas linhas
Essas que me prometem o mundo sem que as palavras se escrevam
Esses verbos que se cruzam nas manhãs em que acordo do teu lado

Se eu fosse um livro rasgava-me em gazetas
Essas onde se lêem que vais despertar das sentenças que te aprisionam
Essas que se abrem com as mãos de quem escreve há mais de um século

Se eu fosse um livro
Não tinha nome
Tinha fome

Não tinha cor
Tinha sede

Não tinha folhas
Tinha frio

Patrícia Prata

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Perpetuidade

E o anjo disse-lhe “É mais simples acreditares que sou o demónio do que um anjo que foi enviado por deus. É mais fácil viver-se sem pensar de que lado se está, sem saber para onde se vai nem o que se quer. É mais fácil a resignação aos acontecimentos do que a escolha do caminho que se pretende. Tudo é mais fácil quando não se tem de decidir, quando o peso do nosso decreto nos apodrece a especulação da existência. Mas… sou um anjo. E as asas que carrego são pesadas mas fazem de mim um ser ditoso. Porque eu decidi estar aqui para te contemplar as alas, as tuas alas, porque ainda que não as vejas, eu conheço-as. Sei-as de cor e sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra para me mostrar que tudo é efémero. Mas… eu sou a eternidade e acredito na perpetuidade das coisas, dos actos. Por mais que penses que se deve ignorar o vindouro, é hoje que o escrevemos. É hoje que eu decido sobre o amanhã. É verdade que é hoje que sentimos o corpo florescer mas não é por esse teu desapego da paixão eterna que o mundo vai deixar de amar. Se te abotoas a essa indiferença não chegarás a conhecer todos os ápices. Mas deixo-te voar… assim… sem conheceres as tuas asas… sem saberes que elas existem. Porque sou um anjo. Porque desacredito na vulgaridade da vida e me aparto do trivial. Hoje deixo-te. E na insónia de um anjo que se elevou pelas asas de outrem e que volta ao empíreo, rogo para que descubras que as asas são nivosas, que são alvas…”.



Arantza baixava o olhar. Sabia que o anjo lhe falava de amor. Mas desconhecia o amor. Conhecia a dúvida. E por mais que olhasse para as suas costas não conseguia ver as asas de que lhe falava o anjo. E com mais incertezas se cobria.



“Eu sei. Eu sei que não vês as asas. Mas só as conhecerás quando te aprontares a voar. E é no salto para o desconhecido que a força delas se revelará.” – o anjo deixou-a. Suspirou de melancolia porque conheceu a saudade.





Patrícia Prata

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mas ela não...

Vítor olhava-a. Sabia que por trás daqueles bastiões que ela mostrava ter, o corpo vacilava-lhe de insegurança. Ele conhecia-a.



Sabia que por mais rijo que fosse o seu olhar, era a sensibilidade que lhe habitava o ser.





E como ela gostava de ajudar os outros…! Mas só ele sabia. Só ele entendia que era ela quem mais precisava de ajuda.





E ela que não falava! E ele que só escrevia…





E ela não falava em amor mas o coração transbordava bem-querer.



Ela não dizia “Amo-te” mas ele conhecia-lhe as promessas ocultas.



Não pronunciava “Desculpa” mas ele identificava-lhe a remissão no olhar.





Ela esperava que ele lhe reconhecesse o amor nos seus olhos e que parasse de escrever. Que largasse as canetas e os pincéis e agarrasse pelos braços e a beijasse e a colhesse nos seus galhos!





Já não lhe chegava os poemas de amor que ele escrevia. Já não lhe chegava as letras e as palavras que encontrava nos seus cadernos.





Mas calava-se. Acreditava que um dia ele ia dar sem ela lhe pedir.





Ele sabia. Ele conhecia-lhe todas as curvas dos seus pensamentos, todas as dobras e sinuosidades dos seus entendimentos e sabia que um dia… quando o prazo do seu amor expirasse, ele ia querer largar as canetas e os pincéis, ele ia querer agarrar-lhe nos braços e beijá-la… mas ela não.





Patrícia Prata

sábado, 3 de setembro de 2011

Nas penas dele

E ele disse-lhe como se as penas lhe saltassem do corpo por danação, como se todo o mal o encarnasse naquele dia, naquele minuto, naquele segundo, como se as florestas ardessem no seu canastro todas de uma só vez.



Disse-lhe sem respirar, sem expressão, como se o mundo fosse acabar naquele dia e ele não quisesse saber, como se os pais o matassem e as flores murchassem para sempre. Disse-lhe como se Deus tivesse morrido e acordado no corpo do demónio, como se água secasse nos seus olhos de rio e o amor se esgotasse no coração dos anjos.



Disse-lhe porque a queria magoar. Disse-lhe porque a amava demais para a ver feliz. Desse amor insalubre que pulveriza a individualidade, que trucida a ventura pela sua simplicidade. E disse-lhe outra vez como se aquela cólera a pudesse matar todos os dias até ao final da sua vida, até ao final da vida dele. Porque preferia morrer a vê-la feliz. Porque preferia que as penas lhe caíssem das asas celestes a vê-la sorrir sem ser para ele.



E morreu. Morreu asfixiada nas penas dele.



Patrícia Prata


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Por trás dos sulcos

Chegava fatigada, quase moída e derreada do empenho violento que levava todos os dias nas suas mãos. Eram mãos já amarrotadas pelos anos estóicos que lhe aconteciam nas veias. Não sabia viver de outra forma e apesar disso tinha consciência que tinha errado mas já não podia voltar atrás. Não chegava a ser um arrependimento nem uma contrição, sabia apenas que a vida que tinha levado não tinha sido a mais feliz. E tinha sido ela a fazer essa escolha. Quando olhava para a neta sorria-lhe por trás dos sulcos e dizia-lhe: “O amor não existe para nos fazer felizes. Existe para nos fazer mais felizes!” -e continuava a lida da casa na esperança que as palavras se arraigassem nas funduras da alma da neta.





Patrícia Prata

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Estreitos Barbantes

Dizia-lhe que não fazia ideia de quantas memórias tinha apagado desde que se deixara morrer para ela. Sentia-se como se uma enfermidade o consumisse percorrendo-lhe os estreitos barbantes que moravam no seu corpo. Era propositado. Queria que os bichos o merendassem. Assim de vez. Até deixar de sentir que tinha polpa. Batia-lhe o coração na mão e sentia a voz da dor na ponta dos seus dedos. Era assim que as memórias se apagavam. Era assim que dando lugar à dor física, a dor do seu espírito se aquietava.




Quantas vezes respirou fundo até sentir que o peito se apagava nos pulmões, até sentir que a sede não passava quando sentia a boca molhada. Quantas vezes se perdeu no silêncio dos seus ouvidos e nas gretas da sua pele seca. Por mais que se procurasse não encontrava o que tinha sido. Era outra pessoa. Já nem se lembrava. Já nem lhe doía.







Ela olhava-o nos olhos com a tristeza de quem perde alguém querido. Queria pegar-lhe nas mãos mas as fendas da sua casca arranhavam-lhe a delicadeza da pele. Gostava dele. Mas já não o encontrou. Era outra pessoa. Nem ela se lembrava. Nem a ela lhe doía.







Patrícia Prata

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Corpo Desabitado

Foi lá que expirou a afecção. Debelou-se como se nunca tivesse existido. Não sabia se do corpo desabitado em que ficou se das rimas que já não podia compor. Era uma indiferença quase dada nas suas mãos, errante em memórias recentes mas já débeis do fracasso. Eram calos e crostas que caiam sem que o seu cortiço pedisse. No chão via os despojos da reminiscência que outrora guardara com afecto. Mas pouco lhe dizia. Tão pouco que nem sabia porque razão a sua mente tinha escolhido o desdém como opção. Talvez da consciência do cimélio que era e que foi desvalido ao acaso.



Sim. Houve um momento em que o vilipêndio ceifou o amor. Houve um momento em que acordou do ardor e viu que nada restava.



O fogo extinguiu-se.





Patrícia Prata

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Era mais

E chegou cheia de si. O mundo parecia desembrulhar-se em cadernos escritos. As palavras galgavam dos fólios como se exigissem permanecer no sopro das vozes que as liam. Eram grandes e desmedidas como a sua boca. Mas eram palavras honestas, com uma força vulcânica que lhe saia do interior do seu físico afunilado. Sorria porque ignorava o vindouro. Era hoje que sentia o seu corpo florescer de linhas tortas por textos incertos aos olhos do globo. Não fazia ideia de que lado estava o diabo nem se deus a conhecia. Queria deserdar-se dos negalhos convencionais. Sabia que se agigantava em si própria um conhecimento mais profundo da sua alma quanto mais se apartava do trivial. Sentia que quanto mais vivia mais tinha o direito de desacreditar na vulgaridade da vida. Era mais. Era mais do que o ser de alguém. Era mais e feliz.



Patrícia Prata

domingo, 19 de junho de 2011

Sigilo Profundo

Tentava ouvi-las na sua alma. Os seus olhos azuis sobressaiam nos cabelos loiros que cobriam o seu rosto. O seu sorriso era aberto mas as gargalhadas secavam no fim de cada palavra. Trazia na alma um segredo escondido. Queria partilhá-lo com as suas amigas mas não tinha coragem. A sua forma excêntrica de viver ocultava a tristeza do seu âmago. Filipa tinha vindo a esta viagem para esquecer, para apagar das suas veias, o sangue que lhe envenenava o coração. Olhava para as suas amigas e sabia que nenhuma imaginaria que ela vivia num sigilo profundo, tão discreto que a empurrava para uma solidão que ninguém compreenderia. Procurava nas margens da baía um zorro, uma personagem que a salvaria da opressão, da fraqueza, do mau estar que deixara em Lisboa e que não sabia como encarar. As suas mãos finas pousavam-lhe no colo esguio, como se se fossem perder por entre a consternação que alinhava a sua respiração. Era quase silenciosa, parecia ter receio que o pulsar das aurículas e dos ventrículos revelassem a sua mágoa. A sua testa, já colada ao vidro baço, revelava que o tempo que ali estava a divagar era já longo e moveu a cabeça para ouvir Bia.



Patrícia Prata

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entre as alparcas

Iam para Mazatlán para trabalharem. Estavam a contratar pessoas para uma construção nova nos arredores da cidade. Não sabiam do que se tratava, apenas que havia a possibilidade de arranjar trabalho. Iam para a porta da empresa logo pela alvorada, na esperança de serem levadas para trabalhar naquele dia, como se fosse uma antiga praça de jorna. E aquilo não era visto como uma situação invulgar, simplesmente a tomavam como parte da inevitabilidade da vida deles. Não havia nem esperança nem expectativas. Naqueles olhares a morte já lhes tinha levado os sonhos. Tacanhos nos seus joelhos remendados pelos anos de trabalho e pela insipiência da fortuna, deixavam que a existência lhes passasse humilhada sob as alparcas.

Patrícia Prata

domingo, 8 de maio de 2011

O tempo das coisas


Ela aguardava que a vida se desse toda naquele dia. Não queria esperar pelo tempo das coisas nem pelas coisas a seu tempo. Para ela, era o tempo dela. Passava-lhe na cabeça ser da idade…


Há alturas em que a vida parece ter todo o tempo do mundo. Parece que falta muito para que as coisas aconteçam e ainda bem. E há alturas em que deixa de ser preciso o momento certo, apenas que aconteçam coisas ou que se projectem coisas. Coisas.


Não parecia importar-se com os temores de outrora. Mais valia partir a cabeça, rachar os ossos, ficar sem força nas pernas, perder a voz a gritar mas fazer!


Mas caminhar sozinha era coisa que a intimidava e ele estava noutro tempo. Ele estava no tempo dele.




Patrícia Prata

terça-feira, 3 de maio de 2011

Há dias assim...

Há dias assim...



Em que se escreve sem vontade


Em que a chuva não molha e o sol não ilumina


Há dias em que a floresta não prospera


Em que tudo o que se aguarda é que se cumpra uma sina


Há dias em que os cavalos não correm


Em que o dia é escuro e a noite nele se abriga


Há dias em que as pessoas não morrem


Em que a voz doce não nos oferece uma cantiga


Há dias em que acordamos com vontade de abraçar os mundos


De esperar que o dia acabe sem matar a expectativa


Há dias assim…


Que o corpo que transportamos nos chama de moribundos



Patrícia Prata

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Não se ouve nada

Mesmo que cante a voz não se ouve


É em surdina propositada


Que das palavras que digo


Não se ouve nada



Peso pesado,


Não sei porque o carrego


Este medo contaminado


De soltar o meu próprio ego



Patrícia Prata

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Deixava-o morrer aos bocados

Aqueles fólios contundidos no chão traziam-lhe sabores e aromas que desconhecia. Sentava-se a lê-los e sabia que não podia. Mas as palavras que deixava nos papéis pareciam promessas e juramentos. Todas as folhas tinham cheiros diferentes e cores que o levavam para longe daquele quarto. Quantas vezes fugia do empíreo só para vir ler os seus poemas, só para sentir as suas sentenças e juras… Havia dias que parecia obcecado em olhar para baixo, queria vê-lo escrever mais, soprava-lhe aos ouvidos para que fosse para casa aprisionar-se ao papel. Não era a atitude mais certa para um anjo, chegava a conceber o egoísmo como um estado de espírito que se ganhava com a convivência humana. A obsessão pelos seus textos era tão intensa que muitas vezes se esquecia de o salvar. Deixava-o morrer aos bocados, até se lembrar da sua missão.

Houve alturas que descia sem permissão, sem o beneplácito divino. Descia porque o queria ver. Ficava horas empoleirado sobre o pulso de Vítor. Gostava de o contemplar a enrolar os dedos nas folhas e de sujar as mãos com a tinta que parecia sair-lhe dos olhos. Saboreava o momento de ver as letras enroscadas umas nas outras até formarem palavras, até se amestrarem em frases e em longas narrativas ou em demoradas poesias.

Patrícia Prata

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

No meio do vulgo

Queria chegar a casa, atirar as coisas ao acaso para o chão, deixar o vestido enovelado e os sapatos caídos, queria que a flor se perdesse nas escadas e que os seus pés sujos da lama que tinha pisado, sujassem o soalho. Queria caos, queria força e vento a soprar-lhe na cara e pessoas a perguntar-lhe o que ela tinha e o cabelo desgrenhado e uma garrafa de vinho partida, papéis a voar pelo ar, canetas espalhadas na cama, tinta azul a pintar-lhe as mãos, queria gritos a tapar-lhe os ouvidos e limpar o nariz à camisa, queria pôr os dedos na boca até sentir o estômago saltar! A vida era vida todos os dias mas era pouco e por mais que tentasse agarrá-la, parecia que lhe fugia pelas estreitas linhas da distracção. O homem que vira no meio do vulgo tinha isto e mais no olhar. “Tinha coisas! Coisas que lhe saíam pelos olhos!” – de certa forma sentia que o tinha deixado fugir, que tinha perdido qualquer coisa, sentia um peso desconhecido, uma sensação de que lhe faltava qualquer coisa… como quando se sai de casa e se se apercebe no momento de fechar a porta que a chave ficou dentro.

Patrícia Prata

Rosa-dos-ventos

Vítor esperou que a dança descansasse, que os pés adormecessem sobre a rosa-dos-ventos e que a neblina cobrisse a sua insegurança. Queria falar-lhe, queria saber quem era aquela alma que ele tão bem conhecia, de quem eram os olhos azuis e maduros que o espiavam por trás do embuço. Apesar de tudo sentia-se feio, malparecido. A barba tinha-lhe crescido até se encrespar em grumos irregulares. O nariz inchado dos soluços e as lágrimas secas, deixaram-lhe a pele salgada.

Levava um chapéu negro que do uso estava ruço, velho. Cobria-lhe todas as expressões da face e era isso que Vítor queria. Que as rugas do seu rosto não revelassem a que sabia a sua alma e de que cor se vestiam os seus pensamentos. Sabia mesmo assim que o aroma da sua dolência era amarelo. Amarelo morto, podre. Quanto mais tempo passava mais decomposto ficava. Mesmo assim… feio, oculto por trás do chapéu e da cardina melancólica que arrastava nos pés, decidiu avançar o seu corpo pesado e desengraçado.

Patrícia Prata