Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Pés

Pés que dançam, fortes, soltos.
Capitulam em notas, como crescessem já homens, já mulheres, já crescidos.
Eles que não sabem que vereda percorrem porque procuram atalhos à pobreza das suas solas.
Correm porque não querem sentir o edema da adega.

É porque se alienam.
É porque os obrigam a dançar como os pés que dançam fortes.

Mas correm.
Correm porque não querem descobrir que a força que têm lhes pode ser tirada a qualquer momento.

Pés que dançam, fortes, soltos.
Rendem-se uns aos outros, como se fossem livres, francos, abertos.
Eles que não olham para o seu par, porque sabem que no ritmo do outro está acorrentada a música que lhes deram.
Correm porque não querem parar de ter dores.

Mas correm.
Correm porque se lhes doer se sentem mais fortes… soltos.

Patrícia Prata

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Se eu fosse um livro

Se eu fosse um livro comia-te as palavras
Esses sonhos que te rodopiam a alma e cantam apenas para ti
Esses medos que afugentam quem te quer as letras, quem te ama as promessas

Se eu fosse um livro perdia-me nas tuas linhas
Essas que me prometem o mundo sem que as palavras se escrevam
Esses verbos que se cruzam nas manhãs em que acordo do teu lado

Se eu fosse um livro rasgava-me em gazetas
Essas onde se lêem que vais despertar das sentenças que te aprisionam
Essas que se abrem com as mãos de quem escreve há mais de um século

Se eu fosse um livro
Não tinha nome
Tinha fome

Não tinha cor
Tinha sede

Não tinha folhas
Tinha frio

Patrícia Prata

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

Perpetuidade

E o anjo disse-lhe “É mais simples acreditares que sou o demónio do que um anjo que foi enviado por deus. É mais fácil viver-se sem pensar de que lado se está, sem saber para onde se vai nem o que se quer. É mais fácil a resignação aos acontecimentos do que a escolha do caminho que se pretende. Tudo é mais fácil quando não se tem de decidir, quando o peso do nosso decreto nos apodrece a especulação da existência. Mas… sou um anjo. E as asas que carrego são pesadas mas fazem de mim um ser ditoso. Porque eu decidi estar aqui para te contemplar as alas, as tuas alas, porque ainda que não as vejas, eu conheço-as. Sei-as de cor e sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra para me mostrar que tudo é efémero. Mas… eu sou a eternidade e acredito na perpetuidade das coisas, dos actos. Por mais que penses que se deve ignorar o vindouro, é hoje que o escrevemos. É hoje que eu decido sobre o amanhã. É verdade que é hoje que sentimos o corpo florescer mas não é por esse teu desapego da paixão eterna que o mundo vai deixar de amar. Se te abotoas a essa indiferença não chegarás a conhecer todos os ápices. Mas deixo-te voar… assim… sem conheceres as tuas asas… sem saberes que elas existem. Porque sou um anjo. Porque desacredito na vulgaridade da vida e me aparto do trivial. Hoje deixo-te. E na insónia de um anjo que se elevou pelas asas de outrem e que volta ao empíreo, rogo para que descubras que as asas são nivosas, que são alvas…”.



Arantza baixava o olhar. Sabia que o anjo lhe falava de amor. Mas desconhecia o amor. Conhecia a dúvida. E por mais que olhasse para as suas costas não conseguia ver as asas de que lhe falava o anjo. E com mais incertezas se cobria.



“Eu sei. Eu sei que não vês as asas. Mas só as conhecerás quando te aprontares a voar. E é no salto para o desconhecido que a força delas se revelará.” – o anjo deixou-a. Suspirou de melancolia porque conheceu a saudade.





Patrícia Prata

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

Mas ela não...

Vítor olhava-a. Sabia que por trás daqueles bastiões que ela mostrava ter, o corpo vacilava-lhe de insegurança. Ele conhecia-a.



Sabia que por mais rijo que fosse o seu olhar, era a sensibilidade que lhe habitava o ser.





E como ela gostava de ajudar os outros…! Mas só ele sabia. Só ele entendia que era ela quem mais precisava de ajuda.





E ela que não falava! E ele que só escrevia…





E ela não falava em amor mas o coração transbordava bem-querer.



Ela não dizia “Amo-te” mas ele conhecia-lhe as promessas ocultas.



Não pronunciava “Desculpa” mas ele identificava-lhe a remissão no olhar.





Ela esperava que ele lhe reconhecesse o amor nos seus olhos e que parasse de escrever. Que largasse as canetas e os pincéis e agarrasse pelos braços e a beijasse e a colhesse nos seus galhos!





Já não lhe chegava os poemas de amor que ele escrevia. Já não lhe chegava as letras e as palavras que encontrava nos seus cadernos.





Mas calava-se. Acreditava que um dia ele ia dar sem ela lhe pedir.





Ele sabia. Ele conhecia-lhe todas as curvas dos seus pensamentos, todas as dobras e sinuosidades dos seus entendimentos e sabia que um dia… quando o prazo do seu amor expirasse, ele ia querer largar as canetas e os pincéis, ele ia querer agarrar-lhe nos braços e beijá-la… mas ela não.





Patrícia Prata

Sábado, 3 de Setembro de 2011

Nas penas dele

E ele disse-lhe como se as penas lhe saltassem do corpo por danação, como se todo o mal o encarnasse naquele dia, naquele minuto, naquele segundo, como se as florestas ardessem no seu canastro todas de uma só vez.



Disse-lhe sem respirar, sem expressão, como se o mundo fosse acabar naquele dia e ele não quisesse saber, como se os pais o matassem e as flores murchassem para sempre. Disse-lhe como se Deus tivesse morrido e acordado no corpo do demónio, como se água secasse nos seus olhos de rio e o amor se esgotasse no coração dos anjos.



Disse-lhe porque a queria magoar. Disse-lhe porque a amava demais para a ver feliz. Desse amor insalubre que pulveriza a individualidade, que trucida a ventura pela sua simplicidade. E disse-lhe outra vez como se aquela cólera a pudesse matar todos os dias até ao final da sua vida, até ao final da vida dele. Porque preferia morrer a vê-la feliz. Porque preferia que as penas lhe caíssem das asas celestes a vê-la sorrir sem ser para ele.



E morreu. Morreu asfixiada nas penas dele.



Patrícia Prata


Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011

Por trás dos sulcos

Chegava fatigada, quase moída e derreada do empenho violento que levava todos os dias nas suas mãos. Eram mãos já amarrotadas pelos anos estóicos que lhe aconteciam nas veias. Não sabia viver de outra forma e apesar disso tinha consciência que tinha errado mas já não podia voltar atrás. Não chegava a ser um arrependimento nem uma contrição, sabia apenas que a vida que tinha levado não tinha sido a mais feliz. E tinha sido ela a fazer essa escolha. Quando olhava para a neta sorria-lhe por trás dos sulcos e dizia-lhe: “O amor não existe para nos fazer felizes. Existe para nos fazer mais felizes!” -e continuava a lida da casa na esperança que as palavras se arraigassem nas funduras da alma da neta.





Patrícia Prata

Terça-feira, 2 de Agosto de 2011

Estreitos Barbantes

Dizia-lhe que não fazia ideia de quantas memórias tinha apagado desde que se deixara morrer para ela. Sentia-se como se uma enfermidade o consumisse percorrendo-lhe os estreitos barbantes que moravam no seu corpo. Era propositado. Queria que os bichos o merendassem. Assim de vez. Até deixar de sentir que tinha polpa. Batia-lhe o coração na mão e sentia a voz da dor na ponta dos seus dedos. Era assim que as memórias se apagavam. Era assim que dando lugar à dor física, a dor do seu espírito se aquietava.




Quantas vezes respirou fundo até sentir que o peito se apagava nos pulmões, até sentir que a sede não passava quando sentia a boca molhada. Quantas vezes se perdeu no silêncio dos seus ouvidos e nas gretas da sua pele seca. Por mais que se procurasse não encontrava o que tinha sido. Era outra pessoa. Já nem se lembrava. Já nem lhe doía.







Ela olhava-o nos olhos com a tristeza de quem perde alguém querido. Queria pegar-lhe nas mãos mas as fendas da sua casca arranhavam-lhe a delicadeza da pele. Gostava dele. Mas já não o encontrou. Era outra pessoa. Nem ela se lembrava. Nem a ela lhe doía.







Patrícia Prata

Sexta-feira, 29 de Julho de 2011

Corpo Desabitado

Foi lá que expirou a afecção. Debelou-se como se nunca tivesse existido. Não sabia se do corpo desabitado em que ficou se das rimas que já não podia compor. Era uma indiferença quase dada nas suas mãos, errante em memórias recentes mas já débeis do fracasso. Eram calos e crostas que caiam sem que o seu cortiço pedisse. No chão via os despojos da reminiscência que outrora guardara com afecto. Mas pouco lhe dizia. Tão pouco que nem sabia porque razão a sua mente tinha escolhido o desdém como opção. Talvez da consciência do cimélio que era e que foi desvalido ao acaso.



Sim. Houve um momento em que o vilipêndio ceifou o amor. Houve um momento em que acordou do ardor e viu que nada restava.



O fogo extinguiu-se.





Patrícia Prata

Quinta-feira, 28 de Julho de 2011

Era mais

E chegou cheia de si. O mundo parecia desembrulhar-se em cadernos escritos. As palavras galgavam dos fólios como se exigissem permanecer no sopro das vozes que as liam. Eram grandes e desmedidas como a sua boca. Mas eram palavras honestas, com uma força vulcânica que lhe saia do interior do seu físico afunilado. Sorria porque ignorava o vindouro. Era hoje que sentia o seu corpo florescer de linhas tortas por textos incertos aos olhos do globo. Não fazia ideia de que lado estava o diabo nem se deus a conhecia. Queria deserdar-se dos negalhos convencionais. Sabia que se agigantava em si própria um conhecimento mais profundo da sua alma quanto mais se apartava do trivial. Sentia que quanto mais vivia mais tinha o direito de desacreditar na vulgaridade da vida. Era mais. Era mais do que o ser de alguém. Era mais e feliz.



Patrícia Prata

Domingo, 19 de Junho de 2011

Sigilo Profundo

Tentava ouvi-las na sua alma. Os seus olhos azuis sobressaiam nos cabelos loiros que cobriam o seu rosto. O seu sorriso era aberto mas as gargalhadas secavam no fim de cada palavra. Trazia na alma um segredo escondido. Queria partilhá-lo com as suas amigas mas não tinha coragem. A sua forma excêntrica de viver ocultava a tristeza do seu âmago. Filipa tinha vindo a esta viagem para esquecer, para apagar das suas veias, o sangue que lhe envenenava o coração. Olhava para as suas amigas e sabia que nenhuma imaginaria que ela vivia num sigilo profundo, tão discreto que a empurrava para uma solidão que ninguém compreenderia. Procurava nas margens da baía um zorro, uma personagem que a salvaria da opressão, da fraqueza, do mau estar que deixara em Lisboa e que não sabia como encarar. As suas mãos finas pousavam-lhe no colo esguio, como se se fossem perder por entre a consternação que alinhava a sua respiração. Era quase silenciosa, parecia ter receio que o pulsar das aurículas e dos ventrículos revelassem a sua mágoa. A sua testa, já colada ao vidro baço, revelava que o tempo que ali estava a divagar era já longo e moveu a cabeça para ouvir Bia.



Patrícia Prata

Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

Entre as alparcas

Iam para Mazatlán para trabalharem. Estavam a contratar pessoas para uma construção nova nos arredores da cidade. Não sabiam do que se tratava, apenas que havia a possibilidade de arranjar trabalho. Iam para a porta da empresa logo pela alvorada, na esperança de serem levadas para trabalhar naquele dia, como se fosse uma antiga praça de jorna. E aquilo não era visto como uma situação invulgar, simplesmente a tomavam como parte da inevitabilidade da vida deles. Não havia nem esperança nem expectativas. Naqueles olhares a morte já lhes tinha levado os sonhos. Tacanhos nos seus joelhos remendados pelos anos de trabalho e pela insipiência da fortuna, deixavam que a existência lhes passasse humilhada sob as alparcas.

Patrícia Prata

Domingo, 8 de Maio de 2011

O tempo das coisas


Ela aguardava que a vida se desse toda naquele dia. Não queria esperar pelo tempo das coisas nem pelas coisas a seu tempo. Para ela, era o tempo dela. Passava-lhe na cabeça ser da idade…


Há alturas em que a vida parece ter todo o tempo do mundo. Parece que falta muito para que as coisas aconteçam e ainda bem. E há alturas em que deixa de ser preciso o momento certo, apenas que aconteçam coisas ou que se projectem coisas. Coisas.


Não parecia importar-se com os temores de outrora. Mais valia partir a cabeça, rachar os ossos, ficar sem força nas pernas, perder a voz a gritar mas fazer!


Mas caminhar sozinha era coisa que a intimidava e ele estava noutro tempo. Ele estava no tempo dele.




Patrícia Prata

Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Há dias assim...

Há dias assim...



Em que se escreve sem vontade


Em que a chuva não molha e o sol não ilumina


Há dias em que a floresta não prospera


Em que tudo o que se aguarda é que se cumpra uma sina


Há dias em que os cavalos não correm


Em que o dia é escuro e a noite nele se abriga


Há dias em que as pessoas não morrem


Em que a voz doce não nos oferece uma cantiga


Há dias em que acordamos com vontade de abraçar os mundos


De esperar que o dia acabe sem matar a expectativa


Há dias assim…


Que o corpo que transportamos nos chama de moribundos



Patrícia Prata

Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

Não se ouve nada

Mesmo que cante a voz não se ouve


É em surdina propositada


Que das palavras que digo


Não se ouve nada



Peso pesado,


Não sei porque o carrego


Este medo contaminado


De soltar o meu próprio ego



Patrícia Prata

Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

Deixava-o morrer aos bocados

Aqueles fólios contundidos no chão traziam-lhe sabores e aromas que desconhecia. Sentava-se a lê-los e sabia que não podia. Mas as palavras que deixava nos papéis pareciam promessas e juramentos. Todas as folhas tinham cheiros diferentes e cores que o levavam para longe daquele quarto. Quantas vezes fugia do empíreo só para vir ler os seus poemas, só para sentir as suas sentenças e juras… Havia dias que parecia obcecado em olhar para baixo, queria vê-lo escrever mais, soprava-lhe aos ouvidos para que fosse para casa aprisionar-se ao papel. Não era a atitude mais certa para um anjo, chegava a conceber o egoísmo como um estado de espírito que se ganhava com a convivência humana. A obsessão pelos seus textos era tão intensa que muitas vezes se esquecia de o salvar. Deixava-o morrer aos bocados, até se lembrar da sua missão.

Houve alturas que descia sem permissão, sem o beneplácito divino. Descia porque o queria ver. Ficava horas empoleirado sobre o pulso de Vítor. Gostava de o contemplar a enrolar os dedos nas folhas e de sujar as mãos com a tinta que parecia sair-lhe dos olhos. Saboreava o momento de ver as letras enroscadas umas nas outras até formarem palavras, até se amestrarem em frases e em longas narrativas ou em demoradas poesias.

Patrícia Prata

Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

No meio do vulgo

Queria chegar a casa, atirar as coisas ao acaso para o chão, deixar o vestido enovelado e os sapatos caídos, queria que a flor se perdesse nas escadas e que os seus pés sujos da lama que tinha pisado, sujassem o soalho. Queria caos, queria força e vento a soprar-lhe na cara e pessoas a perguntar-lhe o que ela tinha e o cabelo desgrenhado e uma garrafa de vinho partida, papéis a voar pelo ar, canetas espalhadas na cama, tinta azul a pintar-lhe as mãos, queria gritos a tapar-lhe os ouvidos e limpar o nariz à camisa, queria pôr os dedos na boca até sentir o estômago saltar! A vida era vida todos os dias mas era pouco e por mais que tentasse agarrá-la, parecia que lhe fugia pelas estreitas linhas da distracção. O homem que vira no meio do vulgo tinha isto e mais no olhar. “Tinha coisas! Coisas que lhe saíam pelos olhos!” – de certa forma sentia que o tinha deixado fugir, que tinha perdido qualquer coisa, sentia um peso desconhecido, uma sensação de que lhe faltava qualquer coisa… como quando se sai de casa e se se apercebe no momento de fechar a porta que a chave ficou dentro.

Patrícia Prata

Rosa-dos-ventos

Vítor esperou que a dança descansasse, que os pés adormecessem sobre a rosa-dos-ventos e que a neblina cobrisse a sua insegurança. Queria falar-lhe, queria saber quem era aquela alma que ele tão bem conhecia, de quem eram os olhos azuis e maduros que o espiavam por trás do embuço. Apesar de tudo sentia-se feio, malparecido. A barba tinha-lhe crescido até se encrespar em grumos irregulares. O nariz inchado dos soluços e as lágrimas secas, deixaram-lhe a pele salgada.

Levava um chapéu negro que do uso estava ruço, velho. Cobria-lhe todas as expressões da face e era isso que Vítor queria. Que as rugas do seu rosto não revelassem a que sabia a sua alma e de que cor se vestiam os seus pensamentos. Sabia mesmo assim que o aroma da sua dolência era amarelo. Amarelo morto, podre. Quanto mais tempo passava mais decomposto ficava. Mesmo assim… feio, oculto por trás do chapéu e da cardina melancólica que arrastava nos pés, decidiu avançar o seu corpo pesado e desengraçado.

Patrícia Prata

Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Charco de lágrimas

E ficaram os dois a olharem um para o outro, separados por uma turba de gente agonizada pela violência do corpo de Vítor. Arantza perplexa com a situação e Vítor embaciado no seu estado de quase alienação. Só queria chegar a ela. Queria dizer-lhe coisas absurdas, mas queria dizer-lhas. Que a adorava, que a amava, não sabia. “Mas porque é que não lhe posso dizer que a amo? Se é loucura amar alguém que se viu pela primeira vez, maior é a loucura de não voltar a amar! Ah! Quero que este amor me rasgue por dentro! Já não sou quem fui, não serei quem devia ser, não sei porque corro nem porque escrevo, não sinto nada na pele, nem na boca que me sabe a vinagre, nem as mãos que me esmagam a tesão! Ahh! Não sinto o suor nem as folhas finas de papel que me cortam os dedos!! Não sinto os dentes que me mordem de raiva nem os gritos que me tornam surdo! Não sinto o intestino a revolutear-me as vísceras nem o charco das lágrimas de quem magoo! Não vejo nem o dia nascer nem a noite embalar-me o sono! Ai! Prefiro arrancar as unhas dos dedos a viver neste inferno! Que tenho eu a perder se lhe disser que a amo? Talvez nunca mais possa estar tão perto do céu como agora…talvez nem a morte me queira para ela, nem deus nem o diabo, nem os cabrões dos gnomos!”

Patrícia Prata

Viver entre o excesso e a escassez

Havia os loucos que caminhavam a seu lado e os que a apanhavam no encalço para admirar a sua perfeição.

Quem a via não teria coragem de a achar louca. Talvez excessiva, talvez exagerada mas nunca demente. Quem a olhava tinha a sensação de viver curtas-metragens, umas a seguir às outras, cheias, novas, curiosas, atraentes, como se o último episódio que vivia nada tivesse a ver com o seguinte; como se a sua vida fosse um manto de retalhos, uns melhores que outros, uns maiores que outros, uns com mais sabor, com mais aroma, com mais ou menos força, com mais ou menos alma mas cheios, a transbordar e a derramar tagalhos a cada passada. Era assim que a viam, era assim que queria viver: entre o ter tudo ou perder tudo.

Patrícia Prata

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Bariloche



A sensação de chegar a um aconchego, como se me fosse aninhar para ouvir o timbre das águas do lago… foi isso que senti quando cheguei a Bariloche.


Escondida no meio de montanhas e serranias, salta para o quadro como se fosse o Les Vessenots, apetece entrar e ver o que se passa dentro das casinhas de madeira que se abrigam nos geios dos acervos.


Os cabeços brancos e a sensibilidade de calor nos vales fazia pensar que algo não estava certo. Mas estava. Tudo perfeito. Era o sol que me afagava a face e o cerúleo claro dos tanques naturais que me debulhavam os entendimentos.


Tudo fazia sentido num mundo que não é perfeito mas que parecia ser. As cores conjugavam-se entre o céu, a terra e a água. O verde era mais verde naquela paisagem e o azul era mais real. Os cães com pelos que lhes tapavam o olhar não escondiam que estavam felizes por viver ali. Havia gente a correr, a andar, a tirar fotografias e a querer que tudo se amarrasse às suas memórias. Cada pormenor, cada detalhe não podia passar inobservado.


Ao fundo a maior montanha de todas mostrava a sua cor branca. Chamava-nos de longe para que a fossemos ver. Era o Tronador. E quanto mais gritava mais se percebia a razão do seu nome. Tronador… Trovão para nós. Quanto mais subíamos mais entendíamos. Sempre que parte do glaciar caia sobre as águas era como se um trovão caísse sobre nós. Um ruído imponente e que abraçava todo o vale. Sob ele sentíamo-nos pequenos, como se os 60 metros de altura do glaciar nos fossem esmagar a qualquer momento.


Lindo, grande, altivo, quase arrogante mas imperdível.



Patrícia Prata

Sábado, 8 de Janeiro de 2011

Mar del Plata



O que dizer de Mar del Plata…


A primeira impressão foi a de chegar a um cenário descrito por Henry Miller, como se toda a danação que se pode sentir por um sítio estivesse presente naquele cerco. Não sei se era do meu estado de espírito ou da confusão que envolvia aquele burgo que me causava náuseas.

Da horda que se pregava com violência para chegar à praia até à cor escura do mar e às areias desarranjadas, tudo me fazia pensar porque razão tinha ido eu parar àquele lugar.

Andei para ambos os lados, caminhei horas e não encontrei nada que me ajudasse a sentir bem ali.

E como de vez em quando o destino nos prega partidas, não consegui transporte para sair a não ser dois dias depois.

Ufff…



Patrícia Prata

Domingo, 2 de Janeiro de 2011

31/12/10 Buenos Aires



Sem despertador o corpo salta do beliche. Do segundo andar ouço a respiração das restantes habitantes do quarto. Ainda dormem. Talvez a noite tenha sido longa, talvez o cansaço lhes habite o cortiço de tal forma que a curiosidade não lhes pica o corpo.


É a manhã do último dia do ano e tudo parece tranquilo. Plácido demais. Os museus e as galerias hoje não abrem.

É na rua que tenho de granjear e saciar este apetite. A descontracção não me faz pensar se existem perigos naquela bela cidade.

Caminho para La Boca. Parece perto. Levo a máquina ao peito e mochila nas costas. Há um argentino que se aproxima. Não me sinto ameaçada, a abordagem começa a ser encarada com normalidade. Depois de saber que sou portuguesa, fala-me do jogador madeirense de que todos falam; da equipa encarnada e da verde. Enumera os argentinos que jogam em Lisboa. Conto-lhe que vou ver o estádio de La Boca Juniors e ele pede-me que guarde a máquina e leve a mochila à frente. “É muito perigoso!”

Só depois senti algum receio em ir… mas já estava a chegar. De facto não é um bairro bonito, nem mesmo o estádio lhes engrandece em nada. Os prédios são sombrios, altos e velhos. Não se vê ninguém nas ruas.

Chego ao estádio. Fechado. Feio.

Nas lojas da La Boca há turistas, quase todos brasileiros, assim como na maior parte das ruas de Buenos Aires, o português que oiço vem com sotaque.

Não sei bem de onde, mas sou arrebatada por uma enchente de pessoas. Estão no Caminito. Logo a seguir ao estádio aparece uma rua colorida, com casas pintadas de madeira, gente a dançar o tango e a puxar-nos para dançar.

Duas horas depois descubro que La Boca é longe. Já não consigo ir a pé. Dois pesos argentinos é quanto custa no máximo um bilhete de autocarro, o que equivale a 0.40€. Só temos é de ter moedas.

Falta-me ver o cemitério de Recoleta. Tão raro ir a um em Lisboa, sempre tenho a sensação de acordar quem não devo. Deixai-os sossegados! Mas Recoleta é diferente. Há um silêncio de paz que habita naqueles jazigos. Não parecem contemplar a morte mas a serenidade e ainda que estivessem muitos turistas a vê-lo, o labirinto das tumbas não permitia ver mais do que um ao mesmo tempo. Cheguei a sentar-me lá pelo meio a sentir o zéfiro que por ali passava para falar aos que chegavam mas não ficavam.

E vi mais daquelas ruas que se entornavam de vida, que me vertiam de cores e sabores. Só faltava Puerto Madero.

… que ficou para se mostrar de noite, na noite de despedida do ano, na Noche Vieja.



Feliz Año Nuevo, Argentina!


Patrícia Prata

30/12/10 Buenos Aires




Dez da manhã.



É com calor que a cidade de Buenos Aires me recebe. Cheia de uma energia que traz uma canícula obstinada na ponta dos dedos. São esses dedos que nos tocam o pescoço quando a brisa nos diz que nos quer provar.

Não interessa de onde és. Aqui és da Argentina. Porque quando tocas com os pés no chão sentes que a terra te quer agarrar.

E as gentes…

São quentes vivos e cálidos nas palavras. Mesmo quando te dão afeições exaltadas é porque é assim que o seu coração bate. Não por desrespeito ou insolência, mas por energia e espontaneidade.

Ponho-me a correr porque quero ver tudo e o tempo é pouco. Tudo parece perto, tudo parece aqui e a seguir.

As ruas de Santelmo são estreitas mas longas. Caem-lhe os prédios sobre si mesmo, como se procurassem na sua idade mostrar a vida de outros dias. Em cada esquina há uma mercearia. A fruta colorida pinta-lhe as áleas de vermelho e amarelo, de verde e de laranja. Apetece comer-lhes a polpa!

Nas paredes vivem murais com palavras de liberdade, de socialismo. Algumas manifestam a saudade de Évita Perón, cantam-lhe hinos e poesias nos muros e libertam-se em palavras mais violentas.Na varanda da Casa Rosada, quase que a vemos por detrás das cortinas, é porque a alma dela ainda vive naquelas artérias. Parece procurar que o esquecimento a não apague.

As ruas são grandes. O que parece aqui perto é longe porque não lhe vejo o fim. Ando e ando até que as pernas ganham voz e choram de cansaço.

A plaza de los Dos Congressos è imponente: onde termina a Rivadavia e começa a Av. de Mayo.

Ando mais um pouco. A Plaza de Mayo é já ali.

Da Plaza de Mayo vê-se o Obelisco pela Rua Roque Sáenz Peña. Parece perto… mas são cerca de doze “quadras” como lhe chamam.

No caminho apanho a Florida. Cheia. Não sei se o calor vem do ar se vem das pessoas que ali passam. No chão as cores misturam-se em tecidos e em presentes para turistas. Dançam tango, cantam Bob Marley e tocam trompete. Não tem fim. A rua termina no Retiro.

Já não tinha a certeza de ter pés e continuei a andar. Há sempre mais qualquer coisa do outro lado da estrada que te chama a atenção. E as ruas grandes e perpendiculares camuflam a verdadeira distância e no engano andas mais um pouco.



Seis da tarde e chegava ao hostal.


Patrícia Prata

Sábado, 4 de Dezembro de 2010

Sete vezes


Sobe.


Sete vezes… que ela dorme nas colinas. Acorda embebida na chuva e sorri com vontade de lhe afagar a alma.


Era o vento que a puxava para o sopé.


Sete.


Quando lhe falou do castelo, olhou para a sua Graça. De lá via-lhe o azul dos olhos que lhe passavam por baixo do encarnado. Eram as cores. Eram cheias.


Cheias da candura dos carris que albergavam o fulvo corrente. Gritava pelo cabeço agarrada à força das pedras pretas. O limo fazia partidas como se fosse uma criança traquina e nas esquinas levava-lhe o aroma do rio, dos olhos que chorava por ver o cacilheiro partir.


Laranja.


Grande e ampla cá em baixo. Adivinharam a sua vida há tanto tempo que parece que as suas rugas vão sarando mas não passam.


Leva palavras. Não é o vento porque ela não deixa. É senhora delas. E o patriarca que vive no meio da praça fecha um olho porque sabe que não vê só. Ela que o deixa viver nas linhas da sua memória, nos desvãos furtivos que ela o abriga.


E mais sons. Da gorja que lhe grita debaixo para cima. Sete vezes. Nos rasgos que tocam o céu à procura umas das outras.



Patrícia Prata

Arrumada num canto da sala

O que ela mais queria era desprezar a insegurança, daquela que se cola ao cortiço como resina, envolvida numa embriaguez torpe e infame. O inebriamento quase obsceno por só lhe agitar o engenho, calcava-lhe a felicidade com rude força. Descobria-lhe as entranhas sem pudor. Aquele olhar não podia esconder. Queria mas não conseguia. Trazia na alma o verdadeiro bem querer. Daquele em que a felicidade reside no outro. Mas as palavras que ouvia eram como sentenças excruciantes.

Abstracção.

Difícil.

"Se não voltar é porque não tinha de voltar." - Como lhe doía pensar nisto. E arrumava-se num canto da sala.

Abstracção.

Sai à rua para ver e ouvir. Sai porque o frio lhe acorda a dolência. "Amanhã é outro dia. Amanhã vou acordar feliz e ditosa. " - E decidiu isto.

Patrícia Prata

Maior

“ … e subia a rua como se fosse apanhada no meio, eram os anos, era a memória que escorregava pela idade abaixo, era o medo da solidão e a incerteza de que a vida tinha valido a pena. Viajava nas rugas da sua face e já não lhes conhecia a razão. Houve tempos que conhecia cada uma delas, que sabia a razão da sua existência. Houve tempos que lhes dava nomes, lugares, datas… A frieza do esquecimento apartava-lhe a alma. Sabia que mais tarde ou mais cedo aquele entorpecimento a asfixiaria até que o ar deixasse de existir no seu corpo, até que se deixasse de lembrar quem eram os que a rodeavam, até que se deixasse de lembrar de si própria.

Velha.

Não. Preferia ser Maior, como dizem os espanhóis. Sem recordações mas Maior que antes. Maior que o mundo de que ela se lembrava.”

Patrícia Prata

Sábado, 30 de Outubro de 2010

Degrau de mármore

(...)

Talvez esse mesmo mundo estivesse a conjurar para que ela fosse empurrada para aquele lugar.

Depois das aulas tinha decidido pôr-se rumo ao prédio. Só o facto de descer a rua com o sol a vigiar-lhe as colinas de Lisboa, como se ele fosse o amo das ruelas e por amor cuidasse delas, só o facto de olhar os cabeços da cidade como se jogassem às escondidas e se apercebesse que o burgo se movia nos seus pés delicados de bailarina, só estes pormenores lhe enchiam o corpo de inspiração.

Corria como se estivesse atrasada e sabia que ninguém a esperava. Aguardava-lhe a casa, a velha porta de madeira e o degrau de mármore.

(...)

Patrícia Prata

Domingo, 17 de Outubro de 2010

...

Entre o amor e a loucura, entre deus e o diabo, escolho viver sem saber de que lado estou.

Patrícia Prata

Domingo, 10 de Outubro de 2010

Lapidação da vida

Era ela. Vítor tinha a certeza. Só ela podia saber que ele tinha passado a noite fora. Sentiu receio pela primeira vez. Um desassossego que lhe cortava a respiração. Olhava para trás, para o lado. Havia vento que lhe cruzava a pele, sons que se cravavam nos ouvidos como um tilintar permanente. Já aquele sol que lhe rompia a janela parecia queimar-lhe as íris. Havia uma luz forte que o atirava ao chão. Era ela. Era ela que o apedrejava de raiva, de uma cólera quase agonizante que o estorcegava. Quase que ele a via, quase que lhe sentia o cheiro, o doce cheiro que ele lhe conhecia. Mas agora ela odiava-o. Agora lapidava-lhe a vida. Talvez o tivesse feito sempre, desde que morreu.

Patrícia Prata

Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

Bem-querer sem querer

Era dia.

A luz feria-lhe os olhos e aprisionava o seu olhar por detrás da almofada. As mortalhas macias invadiam-lhe as pregas do corpo. Não queria despertar do sonho que estava a ter. Via Helena a correr-lhe para os braços. Os seus olhos azuis trespassavam-lhe a profundeza da alma.

Sabia com toda a certeza que a amava. Não que a amasse mais do que a outras mulheres que tinha amado. Mas amava-a da maneira mais bela que se pode amar alguém: sem esperar a reciprocidade. Era um bem-querer sem querer nada em troca. Precisava, apenas, de saber que ela estava bem, que era feliz, que o seu sorriso era autêntico.

Patrícia Prata

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

Entre o seu corpo e o dela...

(...)

Tinha decidido dar uma oportunidade àquela noite e deixava-se levar em reflexões de esperança.

Na mesa, a toalha comprida tapava-lhes os pensamentos. Havia vontades, havia intenções e deliberações. Queriam tocar-se, queriam que o aconchego da pele lhes levasse as sensações dos sentidos. Mas nada faziam.

Nascia um acanhamento saudável em ambos que lhes prendia as intenções. Sentados à mesa olhavam a janela e viam as candeias da cidade. “Aqueles archotes que lhes irrompessem a sala e a idealidade, e aquela música reconfortante que negociasse a aquietação espiritual de Vítor!” – era o que pensavam.

(...)

O marufo já lhes corria no âmago e a música apelava pelo movimento dos seus corpos. Foi Vítor que se levantou. Nem ele próprio reconhecia os seus movimentos. Deixou que a sua mão alasse o corpo de Cristina para junto do seu. Pousou-a na cintura afunilada de mulher lúbrica e aconchegou-lhe a mão no seu próprio corpo. Dançavam.

O vestido no corpo feminino esboçava uma sensualidade ansiosa, deixava que o preto que lhe cobria as dobras do corpo exibisse a força do desejo no seu peito e o seu pescoço desvendava-se por entre as madeixas de cabelo castanho que se ondulavam nas partituras musicais em que dançavam.

Vítor olhava-a nos olhos, procurava-lhe agora o amor e a sensualidade mas foi no seu corpo esguio que depositou os seus entendimentos. Os seus ombros delicados e desabrigados permitiam que o bálsamo da sua pele se distribuísse pelo espaço envolvente. O espaço que agora Vítor partilhava com ela, o espaço entre o seu corpo e o dela.

Cristina deixou que a alça do vestido lhe escorregasse ombro abaixo e Vítor tirou-lhe a outra com brandura.

O tapete preto que ocupava toda a sala deixou que os seus corpos se desabotoassem das roupas que traziam. Havia um peso nas pálpebras de Vítor que fez com que ele se esquecesse do seu próprio corpo.

As mãos de Cristina esbulhavam-se no corpo dele, sem pudor (...). Se o amava pelas palavras, ali sentia apenas os sons. Se o queria pelas letras, ali cobiçava-lhe o sabor da boca.

Vítor deixou que ela o cobrisse, que a nudez dela revestisse o seu canastro. Via agora os seus olhos e os seus cabelos resvalarem-se nos movimentos quase imorais que dava ao seu espigueiro e da loucura que sentia quando o peito lhe roçava os olhos queria que aquele momento se prolongasse. E prolongou-se.

Prolongou-se até à exaustão, até que o cansaço os sucumbisse no chão, no tapete negro.

(...)

Patrícia Prata

Domingo, 12 de Setembro de 2010

No seu estrado, bocados grotescos...

(...)

E nessas alturas em que o corpo dava voz à vontade, cortava-se para que o sangue azedo que lhe corrompia a alma o abandonasse de vez.

Nunca conseguiu.

Não entendia porque a morte não se lhe caldeava ao corpo. Tantas vezes a procurou e tantas vezes a vida teimava em não abandoná-lo.

Não sabia porque pagava às mulheres para lhe darem prazer. Havia aquelas que se atiravam aos seus pés (...). Havia muitas mulheres que se apaixonavam pelos seus dedos, pelas suas linhas cravadas no papel.

Alturas houve que se envolvia com elas, abria-as de tal forma que no dia seguinte dava-lhe a sensação de lhes apanhar as entranhas no fundo da cama. Não as queria magoar mas não as amava. Odiava-as. Os seus corpos levavam-lhe a alma aos bocados grotescos. E por mais que se quisesse libertar, ela sempre o observava. Muitas vezes o seu corpo arrepiava-se com aquela figura que lhe aparecia nas alturas mais inesperadas.

Já não se lembrava como ela tinha chegado à sua casa, ao seu estrado. (...)

Patrícia Prata

Os amigos são para as ocasiões

Afinal o inimigo é o Irão. O malévolo que nos quer destruir com mísseis e ogivas nucleares.

E afinal é o Irão, agora.

Fico sempre baralhada e confundida com os inimigos que temos. Mudam sempre. Se não estivermos atentos às notícias perdemos a consciência para quem temos de alvitrar.

Ainda bem que existe uma Nato para nos avisar. Ainda bem que temos o olhar atento de Rasmussen para nos prevenir. Tal qual Grande Irmão que alerta para as jigajogas políticas do mundo. Ele sabe.

Portanto… só para afastar qualquer dúvida o Irão é o mau. Agora.

Mas… já tinha sido mau na Guerra Irão - Iraque. Não foi? Por enquanto ainda não queimam as notícias no fogo… Ainda se pode ir confirmar estas mudanças dos maus, dos bons e dos vilões. Dá a sensação que são sempre os mesmos mas vão-se alternando em mandatos.

O Iraque… Esse que depois afinal… afinal tinha armas de destruição maciça. Armas que ameaçavam a segurança mundial.

E continuo baralhada…

É verdade que o 11 de Setembro ajudou a vermos melhor o inimigo! Se não fosse o 11 de Setembro o “inimigo” seria quiçá o comunismo. Assim tudo fica mais fácil… Assim podemos defendermo-nos?!

Mas… não foram os EUA que utilizaram a energia atómica para fins militares? Aliás… não foi o único país que o fez? O que sempre se absolve com a segurança mundial? Mas Eles sabem.

Eles sabem… pelo menos escolher as amizades certas, nas alturas certas.

E agora temos de esperar pela invasão dos iranianos... Mas há a NATO. Sinto-me muito mais segura… ao menos vou sabendo quem são os “maus” e vamos pagando os ordenados dos senhores da indústria de armamento e aviação militar.

Porque afinal… vai sempre haver um inimigo… vai sempre haver uma justificação para que hajam investidas.

E o que interessa é que … amigos amigos, negócios à parte.

Patrícia Prata

Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

Contra a NATO - como se combatem guerras com guerra?!

Historicamente nas suas origens, talvez tivesse algum fundamento defensivo o Tratado que resguardava toda a área do Atlântico Norte. Mas a partir do momento que este carácter cautelar passou a ter a preponderância de poder intervir militarmente em qualquer lugar do mundo, a NATO passa a ser um grupo belicista provocando a constituição de novos grupos do mesmo género, noutros países.

É uma bola de neve!

O crescimento contínuo do armamento dos estados membros, provoca o rearmamento de países que os consideram seus rivais. Mais do que rearmamento dos estados membros, os Estados Unidos possuem armas nucleares nas bases da NATO, na Europa o que faz com que a exponha a uma possível guerra nuclear e cada vez mais fomente o crescimento de empresas bélicas e dos gastos militares.

Se observarmos, e nem é precisa muita atenção porque é flagrante, a NATO protege e defende os interesses dos países mais ricos e, muito basicamente, pode-se perceber que estes países ricos precisam de matérias-primas como o petróleo para poderem manter o seu nível de consumo e crescimento. Onde estão essas matérias-primas? Pois...! Nos países onde a NATO exerce o seu controlo militar.

Mais estranhamente, uma organização que se diz de carácter defensivo e estabilizador de políticas não democráticas permite que no seu seio constem países de ditaduras neofascistas e antidemocráticas.

E será mesmo a NATO uma organização democrática, sendo ela que se manobra sobre todas as outras instituições democráticas, sem pedir "cavaco", e sim sob o jugo militar dos Estados Unidos?

E é por estas razões e outras que a extinção da Nato seria imprescindível, nomeadamente para a concretização dos objectivos da Carta das Nações Unidas, cujo mais importante é o de não provocar novas guerras.

E como se combatem guerras com guerras? Como?

Patrícia Prata

Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

Liberté, Egalité, Fraternité?!

Carla Bruni: Amour, amour! Ainda estás aborrecido com moi? Sabes que eu só quis experimentar aquele ciganinho, porque ouvi dizer lá no Salon de Beauté que eles davam sorte no casamento. E tu andas tão ausente... Sempre a brincar aos países e às espingardas... que maçada!

Sarkozy: Carlinha, sabes que eu me passo quando te enrolas com esses vagabundos. Mandei uns quantos para casa só para não me preocupar. Até porque eles não são nada estéticos para a nossa cidade. Já viste Paris com uns homenzinhos cheios de ouro nos dentes? Onde está o glamour? E eles não tomam banho. Os polícias quando têm de lhes ir dar umas sovas (tenho de manter aquela malta ocupada, fofucha) vêm todos a cheirar mal, é uma porcaria.

Carla Bruni: Mas ó fofucho... e agora o que dizemos quando nos falarem da "Liberté, Egalité, Fraternité" ?

Sarkozy: Hummm... pois quida... se calhar o melhor é eu mandar pôr umas fotos de uns ciganitos a roubarem e uns filmes de uns desacatos. Também não deve ser muito difícil... não te esqueças que ninguém gosta dessa gente que vive assim... de modos estranhos... O seu modo de vida tira sempre credibilidade. Não te preocupes. Vai ser canja. Depois eles esquecem-se...

Carla Bruni: Mas fofucho... tirar-lhe a nacionalidade? A mãezinha diz que isso é muito feio. Parece que é contra a Constituição... disse ela...

Sarkozy: Constituição?! Não filha. Isso é coisa dos antigos... do tempo da Revolução francesa! E está caladinha com essas coisas! Tens de deixar de te dar com essa gente de esquerda lá do cinema e dos livros. Isso são coisas que eles dizem. Quando for assim, diz-lhes que é tudo em nome da segurança!

Carla Bruni: Mas meu tesourinho... não gostei nada que o Papa ficasse aborrecido connosco... ele é santo! Ainda nos manda uma maldição!! Ai... está tudo contra ti fofucho! Até aqueles senhores que se sentam do teu lado.

Sarkozy: Não te assustes minha pombinha! É tudo inveja! Os próximos a irem, são aqueles imigrantes portugueses! Não posso com aquela gentinha.

Carla Bruni: Ah! E depois quem me limpa a casa?!

"Liberté, Egalité, Fraternité", para quem Sr. Sarkozy?

Patrícia Prata

Domingo, 22 de Agosto de 2010

Mirada de viejo verde

Siempre vienes con esa mirada
Aùn cuando las flores te sienten llegar
Aùn cuando el deseo de verte se penetra en la piel

Y todo el mundo dice que esa mirada es de viejo verde
Pero no hace daño
Hace que el deseo de prensa en tu piel, no resista la idea
Y más
Sentir tu mirada pesarme los brazos...
Casi lo juro a Dios que me olvido de todos los huecos...

Patrícia Prata

Sábado, 21 de Agosto de 2010

Obama reza todos os dias...

Segundo sondagem da revista Time, quase um terço da população americana julga que o seu Presidente é muçulmano.

Hummm.....

E se fosse? É assim uma notícia tão importante conhecer o credo do Presidente dos EEUU?

Deve ser, porque Bill Burton apressou-se a “jurar” que o Presidente reza todos os dias. Talvez se deva ao facto de se falar na construção de uma mesquita no ground zero, provavelmente ao lado de um shopping, de um MacDonalds, de uma Gant, de um Calvin Klein, de uma GAP, de um (…) …

Mais engraçado é que a percentagem aumenta dentro daqueles americanos que tradicionalmente votam no Partido Republicano…

É quase grotesco que um país que se diz defensor das liberdades, nomeadamente religiosas, construa uma polémica em redor da fé do seu representante político.

Talvez estes fait-divers façam esquecer a necessidade de uma análise social e política às transformações que a gestão obamista está a fazer ao país.

Talvez o cerne da questão seja esse. Talvez o Senhor Presidente reze mesmo todos os dias a pedir a Deus que o ajude a manter-se fiel aos seus juramentos no início do mandato.

Na verdade todos sabemos que a religião que tem mais praticantes nos Estados Unidos é o Dólar!

Na verdade, Senhor Presidente... Reze! Reze! Acho que vai precisar de muita ajuda divina. O melhor é pedir a todos (Jesus, Jeová, Alá, Buda) … sabem que nestas alturas todas as ajudas são bem-vindas.

Patrícia Prata

Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010

Vergonha alheia

Não sei se sabem o que é vergonha alheia...

Aquela que nos consome o corpo de desprazer e aborrecimento. Aquela que nos chateia como “o caraças” mas não podemos fazer nada porque não é connosco. Mas na verdade, até é.

É pior que a "vergonha na cara" porque não é opção nossa fazer alguma coisa para salvar a situação... Foi essa que senti ontem a ver a repetição do "5 para a meia-noite".

Senti vergonha, quase que um ligeiro rubor me subiu às faces. Era a vergonha de que alguém com nome de "Pipoca" me metesse no saco que ela levava debaixo dos braços - o mesmo saco onde estão "as mulheres" de quem fala.

A Sra. Pipoca, sentada ao lado de um brilhante escritor português, José Luís Peixoto, contava como tinha chegado ao belo estatuto de “a mulher mais invejada de Portugal”. Ignorância a minha que não sabia da existência deste kitsch – a pipoca mais doce – blogue fofinho que fala das reais preocupações das mulheres?!

Mas… ó Pipoca… que mulheres? Mas o que me abespinha ainda mais é a tentativa brejeira e descarada de imitação do “Sexo e a Cidade”.

E ainda que tudo seja uma grande chatice, e que até acredite que há mulheres que designem as “bolhas do verniz das unhas” de “putas” (ver por favor http://apipocamaisdoce.blogspot.com/ “Ora bem” de 22 de Julho) acredito que a maior parte não sente necessidade de partilhar com o mundo os rasgos de barbaridade que todos temos de vez em quando.

Por isso… cara Pipoca… por favor, se puder, numa próxima entrevista em vez de falar nas mulheres em geral, seria mais prudente dizer “as mulheres como eu” e assim, acredite, que um sem número de mulheres lhe ficaria agradecida de a não incluir nesse saco, seja ele Gucci ou de contrabando.

P.S. Se abrir bem os olhos, vai reparar que há mulheres que vão sozinhas à casa de banho; que há homens que vão juntos e que muitas vezes a espontaneidade dos acontecimentos sucedem-se sem que seja preciso catalogar as mulheres de inseguras; rendidas à superficialidade do orbe; presas a todo o tipo de frivolidades.

Se abrir bem os olhos, vai reparar que todos somos diferentes.

Alvíssaras!

Patrícia Prata

Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

Errantes no Acaso

Tinha a cabeça sobre os seus braços adormecidos, havia dias assim. Havia dias que nem a roupa despia. Asilava-se entre os seus tentáculos fechados e deixava que a sua respiração se perdesse entre a mesa e os carrilhos esmagados.

Depois de algumas horas soltava um lamento de dor, de dormência muscular. Não sabia se o sangue tinha parado de correr ou se os seus membros tinham caído de podres.

“Estás aí hoje?” – via-a com os seus grandes olhos azuis, sempre que se levantava dos escritos.
Havia uma impetuosidade no seu olhar que parecia abalroar-lhe o corpo da cadeira. Ela estava sempre ali a observar-lhe as letras.

As promessas e sentenças que lhe saíam das mãos. Ele sabia que ela as apanhava - às folhas rasgadas do chão. Deixava-as lá para ela. Gostava de a ver amarfanhar-se nas folhas. Ela sempre esteve ali. Mesmo das vezes que ele se queria entregar à decessa, sentia-a presente. Como se o expiasse e o privasse do seu desejo de morrer.

E de manhã, quando se arrastava até à cama não entendia porque ela deixava tudo como ele tinha deixado. Depois de abrir as folhas, de ler os seus erros, as suas estrangulações, voltava a enovelar as gazetas e deixava-as no chão, errantes no acaso.

Patrícia Prata

Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

Livros

1. 1984, George Orwell *****
2. Filhos e Amantes, D.H. Lawrence ****
3. Homenagem a Catalunha, George Orwell ****
4. Amante, Marguerite Duras ***
5. Animal Farm, George Orwell ****
6. The catcher in the Rye, J.D. Salinger ****
7. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wild *****
8. La forja de un rebelde, Arturo Barea
9. Soldados de Salamina, Javier Cercas
10. Grande Sertao: Veredas, Guimarães Rosa
11. Vinhas da Ira, Jonh Steinbeck
12. Guerra e Paz, Leon Tolstoi
13. O Estrangeiro, Albert Camus ***
14. O Banqueiro Anarquista, Fernando Pessoa
15. A Mensagem, Fernando Pessoa ****
16. Madame Bovary, Gustave Flaubert
17. Retrato de uma senhora, Henry James
18. Spanish Cockpit, Franz Borkenau
19. Sinais de Fogo, Jorge de Sena
20. A insustentável leveza do ser, Milan Kundera *****
21. Servidão Humana, Somerset Maugham ****

(...)

Domingo, 11 de Julho de 2010

Medo

Se o medo arrancasse olhos era cega.
E sou.
E estou.
Nos meus não o vêem os que por aí andam. Nas mãos não sabem que escorre água, que varro veneno das veias.
Cardeais os pontos que me doem, aqui, ali e acolá. Dor que não existe mas que se sente. Dor do que penso e de que afasto o pensamento e ele vem. Vem sempre. Vem na volta do vento, das palavras que não disse.

É ela que me vem buscar de manso. Pela calada. Na noite. Ela que busca inocentes e os esgana feliz... a mórbida, aos culpados deixa-os danar no inferno.

E a alma que já não se salva ainda que tente. Ainda que corra todos os dias pelo perdão... só sente seiva rara, escassa e azeda.

Medo. Medo que ela me venha buscar para a purga.
A espera mata-me antes de me vir buscar.

E espero...

Patrícia Prata

Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

Por cima dos balcões dos cafés

Sentada, agarrada aos joelhos esticava o pensamento até aos velhos cheiros da infância. Sabia que as luzes eram diferentes porque estavam mais longe do chão... a idade não perdoava. E eram aqueles balcões dos cafés altos demais para ver o que se passava por trás.

Tinha levado em pensamento a força da saudade perdida, aquela que não volta nem faz falta.

E se o passado que corrompe as veias da vida que levamos, dissimula o que realmente somos? Ou é verdade que quem cresce aparece por cima dos balcões dos cafés, e quando os vê já os assimilou de tal forma que não dá conta que aprendeu a vê-los como nos contaram que eram e não como realmente são?

Sentada, desprendi-me dos joelhos e corri ofegante até ao passado mais antigo de que me lembrava. Senti a pele a rasgar-se das quedas e os pés descalços das pedras que pisava. E vi a bola e a boneca e o choro da quem quer mais não sabe porquê. Se o não que chega, vem sem explicação, mais tarde, vem na volta do vento. Quebrou-se o tendão dos esforços e sem uma inclusão rematada consegui ver as pontas soltas das minhas próprias maleitas. O saber não ocupa lugar… mas saber que a loucura começou no dequite e só acaba com a morte faz pensar…

Bem podia espreitar melhor por cima dos balcões dos cafés para ver que o chão estava sujo…

Sentada, voltei a abotoar-me aos joelhos e na volta de uma festa que se entrelaçava nos cabelos, quis-me levantar para ver o que lá estava por trás… por trás dos balcões dos cafés. Desses que não olhava desde que não os via por ser pequena demais. E nesse encaixe dos joelhos ouvi que do outro lado gritavam. Não sabia se era prazer ou dor. E com mais tempo percebi que aquele som já lá estava antes de poder subir-me pelas pernas acima, antes de saber que se desse a volta entrava no balcão.

E nunca me chamaram pelo lado esquerdo. Nem pelo lado direito.

Sentada, levantei-me. Na demanda dos detalhes vi que o saco estava vazio, quando pensava que estava cheio, conheci um arco-íris, quando sempre vi a preto e branco e a doçura revelou-se, quando a boca me amargou.

Sentada, agarrada aos joelhos esticava o pensamento até à infância. Foi ontem. Porque só hoje consegui ver por cima dos balcões dos cafés.

Patrícia Prata

Mais do que prazer

Voltaste e afagaste-me a face
E pensando que me cansasse
Recuaste na tua mão

Se as palavras que me custam caras
Me arranhassem o céu da boca
Me fizessem gritar os verbos
Os substantivos e os predicados
E sem medo dos pecados
Sem medo da voz alta
Dos sons graves e da ribalta
Puxava essa tua mão

E ainda que fosse com a voz
Este silêncio atroz
Que contorce este cansaço
Que me afasta do teu regaço

Enchia-me o peito de orgulho
De poder ter-te dito um dia
Que esse corpo onde mergulho
É mais que prazer, é alegria.

Patrícia Prata

Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Conto 2 - Última Parte

A indiferença era aparente. Sentia no seu corpo o peso do olhar dele e aquilo matava-o aos poucos. Ele falava e dava-lhe palavras, mas o morto da cama não o ouvia, só lhe via os lábios mexerem. Não queria ouvir na verdade e fazia-se defunto, só a respiração o acusava de ter vida.

Naquele dia ela não veio. Apareceu uma outra. Feia. Gorda. Que asco lhe dava aqueles dentes maltratados. E na sua agitação levantou-se. Queria partir o espelho para não ver a morte sorrir-lhe. Queria fechar a porta para ninguém o visitar. Não queria medicamentos nem drogas a enganarem-lhe o raciocínio.

“Não! Ela vai meter-me a mão em cima! Sai!”. – Gritou mas não se ouviu. A gesticulação que empreendia no corpo era de uma força abismal, no entanto, não se movia.

“Onde está aquele meu filho que eu me esqueci? Esse que me vem espreitar as pernas e as quer levar?!”. – Ele tinha os olhos abertos. Via. Lembrava-se. Ou não.

A médica “gorda”, “feia” tinha chegado há dois dias. Veio confirmar o que o médico que lá estava vinha dizendo há muito tempo.

Foi o jovem fisioterapeuta, que se sentiu mais castigado. Todos os dias durante dois anos exercitava os seus joelhos na tentativa de conseguir alguma reacção. E disse a Laura, sua colega enfermeira que ia sentir a falta dele. Dava-lhe a sensação que ele o ouvia. “Há dias que parece que está zangado…”.

“Disparate… ele não vê nem ouve, nem tem consciência. Está cá mas é como se não estivesse. A Dra. tem razão.” – Laura dizia isto com alguma frieza. Os seus dentes grandes saiam-lhe da boca sem pedir permissão. Tão grandes que só se viam as saliências brancas a rasgarem-lhe a expressão. Parecia estar sempre a sorrir.

O jovem fisioterapeuta arrumou-lhe os apetrechos que levava todos os dias e ajudou a enfermeira a guardar as seringas e as garrafas espalhadas pelo quarto que ultimamente serviam para tornar aquela forma de vida mais digna.

Uma dignidade que era mais confortável para os que o viam.

Enquanto arrumavam as tralhas diziam que tinha sido o melhor atleta de todos os tempos. Tinha corrido meio mundo e o acidente que lhe tinha cortado as duas pernas levara-lhe a vida e a alma.” Como é que alguém pode ficar assim?”.

A médica gorda e feia entrou na sala: “Ele não tem família. Ninguém vem cá desde que ele entrou em coma. O cérebro morreu. Podem desligar a máquina, por favor.”

Patrícia Prata