domingo, 9 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 05/08/2009 - 14º Dia – Pequim, Cidade - China (+7h que em Lisboa)


Passámos o Deserto de Gobi e vi os camareiros do comboio a andarem a tapar todas as janelas e portas do comboio para que a areia não entrasse.

O terreno era árido, mas não tinha aquele ar de deserto que se está á espera. Chegámos a passar por alguma vegetação rasteira onde corriam camelos livremente. Estava á espera de poder dar uma volta com eles mas no sitio onde o iamos fazer houve uma questão logistica que nos impediu de o fazer.

De manhã acordámos estava o dia a despertar. Eram 5 da manhã e iamos chegar a Pequim por volta das 06h20. Tinha dormido muito melhor porque em Erlian mudámo-nos para o comboio chinês e ainda que nos possamos abstrair de algumas coisas para nos concentrarmos na viagem, dormir numa cabine com mais condições proporciona um soninho mais descansado.

Fomos directamente para um hotel que ficava perto da estação ferroviária. Não tinhamos comido no comboio, iamos tomar o pequeno almoço nesse hotel.

A despedida dos nossos camareiros foi emocionante. Parece que não, mas estivémos cerca de duas semanas juntos e a Viktoria e o Sasha foram os melhores camareiros que se podia ter. Apesar de não falar nem português nem inglês a Viktoria sorria, acenando com a mão e dizendo Patricia! Tocou-me no coração.

Chegámos ao hotel e fomos comer. A pirâmide de Maslow não engana, enquanto não temos as nossas necessidades básicas satisfeitas ninguém passa ás seguintes. Nem o "eu tenho" ou o "eu fiz" se ouvia. Queriamos comer.

Passei pelo grupo de italianos que partilhava connosco esta viagem. Não nos misturávamos muito, passávamos por eles e éramos mutuamente simpáticos.

Não sei porquê mas aquele italiano inquietava-me. Como é possivel não sei, porque nunca falei com ele. Acho que ele olhava para mim e percebia e, de certa forma, ficava embevecido por uma miúda olhar para ele. Uma miúda que deveria ter metade da idade dele... é que davam-me sempre menos de 25 anos e o italiano, que aparentava ter 40 tinha na verdade 59!!

Havia vezes, que arranjava uma desculpa esfarrapada para passar na carruagem 7 e poder cruzar o meu olhar com o dele. Eu sei que ele olhava, essas coisas percebem-se mas a razão era diferente. Devia-lhe encher o ego e eu gostava de ver o charme dele a passear-se.

Depois de bem alimentados seguimos em direcção á Praça Tiananmen. Tiananmen significa paz celestial... até parece uma graçola sem graça nenhuma... não tenho conhecimento histórico (mais uma vez uma ajuda dos engenheiros dava jeito) para saber se o nome dado á praça é anterior ao massacre de 4 de Junho de 1989. Eu tinha 9 anos e lembro-me como se fosse ontem... Quando o Partido Comunista decidiu suprimir os protestos pela força e entrou com tanques na Praça matando tudo e todos os que se encontravam pela frente... ainda era pequena para entender... agora sou grande e continuo sem perceber...

Quando entrei na Praça só me lembrava desse dia de sangue. Olhei em redor e vi as milhares de pessoas que se juntavam ali. A maioria eram chineses e vinham de todas as partes da China. É época alta e os chineses fazem muito o "vão para fora cá dentro". Vêem-se alguns ocidentais, mas não tantos quanto eu esperaria.

Pareciamos formigas na designada maior praça do mundo. E, de facto, é muito grande e imponente. Num dos extremos uma foto gigante do sr. Mao Tsé Tung, um dos fundadores do Partido Comunista Chinês, impunha-se como dois olhos controladores sobre a praça. Eu própria me sentia observada.

Iamos em direcção á Cidade Proibida e a caminhada prometia cerca de 2h30 de chão, uma ponta de calor húmido acompanhava-nos para torná-la mais dificil. Entrámos nos portões da Cidade, uma cidade dentro da de Pequim que quando outrora tinha sido residência de imperadores estava proibida a quaisquer pessoas que não fizessem parte da familia do imperador ou do seu pessoal doméstico. Não visitámos todos os 980 edificios que existem nesta cidade mas conseguimos perceber a sua importância como centro cerimonial e político do governo chinês, nem que fosse pela sua grandiosidade.

Os chineses são um povo, na sua maioria, pacifico. Nem sequer parecem muito habituados á presença ocidental. Já tinha percebido que ao passar tiravam fotos como os seus telemóveis mas foi na Cidade proibida que me senti uma verdadeira vedeta. Um grupo de chineses fizeram fila para tirar fotos comigo. Parecia que me conheciam de algum lado. Riam-se, abraçavam-me e pediam-me afincadamente que eu deixasse tirar mais uma foto com eles. Os parceiros iam mudando, dos mais novos aos mais velhos todos queriam uma foto ao meu lado. Tudo aquilo me parecia surreal mas engraçado. Percebi que queriam uma foto comigo por eu ser diferente, por ter os olhos grandes.

Estávamos exaustos. Todos nós tinhamos percorrido cerca de 4 km sob um calor enraivecido.

Almoçámos noutro hotel. Já nos sentiamos mais juntos, mais grupo. Com a barriga cheia seguimos para um templo mas continuava tudo muito parecido, não sei se seria do cansaço mas tudo já era muito igual para mim. Passei a maior parte do tempo a falar com o nosso guia de Pequim. Era chinês mas como de costume falava espanhol. Senti uma aproximação por sermos da mesma idade e a conversa fluia com facilidade. Creio que era eu que precisava de ver e falar com pessoas da minha geração por sentir que a minha juventude era absorvida naquele meio. Assim carregava as baterias.

Voltámos ao hotel . O meu avô estava exausto e preferiu comer no quarto. Eu por minha vez toda a desculpa era boa para sair. Fomos jantar a um restaurante, relativamente, perto do hotel e quando voltámos fui a pé comer um gelado. Aquela sensação de liberdade arrepiou-me a pele, como se a não sentisse há já 15 dias. Estava sozinha a comer um gelado e a passear pelas ruas de Pequim. Quis partilhar aquele momento com pessoas que ali não estavam. Peguei no telefone e liguei aos meus amigos em Lisboa. Sentia umas saudades desenfreadas deles todos e eles mostraram que também sentiam minhas.
Estava quase... Mais dois dias e estaria no meu território.
Voltei para o hotel com a intenção de descansar, o dia seguinte iria visitar a grande muralha e queria estar descansada pois fazia grande expectativa.

Entrei no quarto, deitei-me e adormeci. Nem o facto do meu avô andar de um lado para o outro, como costume, me tirou o peso dos olhos.

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