sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entre as alparcas

Iam para Mazatlán para trabalharem. Estavam a contratar pessoas para uma construção nova nos arredores da cidade. Não sabiam do que se tratava, apenas que havia a possibilidade de arranjar trabalho. Iam para a porta da empresa logo pela alvorada, na esperança de serem levadas para trabalhar naquele dia, como se fosse uma antiga praça de jorna. E aquilo não era visto como uma situação invulgar, simplesmente a tomavam como parte da inevitabilidade da vida deles. Não havia nem esperança nem expectativas. Naqueles olhares a morte já lhes tinha levado os sonhos. Tacanhos nos seus joelhos remendados pelos anos de trabalho e pela insipiência da fortuna, deixavam que a existência lhes passasse humilhada sob as alparcas.

Patrícia Prata

domingo, 8 de maio de 2011

O tempo das coisas


Ela aguardava que a vida se desse toda naquele dia. Não queria esperar pelo tempo das coisas nem pelas coisas a seu tempo. Para ela, era o tempo dela. Passava-lhe na cabeça ser da idade…


Há alturas em que a vida parece ter todo o tempo do mundo. Parece que falta muito para que as coisas aconteçam e ainda bem. E há alturas em que deixa de ser preciso o momento certo, apenas que aconteçam coisas ou que se projectem coisas. Coisas.


Não parecia importar-se com os temores de outrora. Mais valia partir a cabeça, rachar os ossos, ficar sem força nas pernas, perder a voz a gritar mas fazer!


Mas caminhar sozinha era coisa que a intimidava e ele estava noutro tempo. Ele estava no tempo dele.




Patrícia Prata

terça-feira, 3 de maio de 2011

Há dias assim...

Há dias assim...



Em que se escreve sem vontade


Em que a chuva não molha e o sol não ilumina


Há dias em que a floresta não prospera


Em que tudo o que se aguarda é que se cumpra uma sina


Há dias em que os cavalos não correm


Em que o dia é escuro e a noite nele se abriga


Há dias em que as pessoas não morrem


Em que a voz doce não nos oferece uma cantiga


Há dias em que acordamos com vontade de abraçar os mundos


De esperar que o dia acabe sem matar a expectativa


Há dias assim…


Que o corpo que transportamos nos chama de moribundos



Patrícia Prata