segunda-feira, 19 de abril de 2010

E o anjo já não era anjo...

E o anjo já não era anjo. O anjo era dor, era carne, era pele suada.
E das palavras que vivia e que lhe enchiam o coração ficou com a memória.
As falanges Dele deixaram de se mover. Dele que outrora o via garatujar.
E como desceu à Terra para O procurar e as palavras perderam-se, morreu na solidão do silêncio.

E o anjo já não era anjo. O anjo era mágoa, era desilusão, era expectativa fracturada.

E das asas de condão que tinha, ficou com as penas.
O papel perdurou branco, sem tinta. A tinta que Lhe saía das garras, porque sentia as palavras no sangue.
E como desceu à Terra e se fez mulher, encarnou, perdeu as asas e as palavras que Ele lhe dava, morreu na solidão rude.

E o anjo já não era anjo. O anjo era corpo, eram pernas e mãos, eram cabelos, eram lábios.
E o corpo que lhe ficou, permaneceu mudo e cego porque já não O lia, porque perdera a sua poesia.
E no dia que desceu à Terra Ele quis subir-lhe pelas pernas e alojar-se.
E anjo morreu. Morreu à espera das mil palavras que Ele lhe prometera e deixou de O ver perdido no corpo que a Terra lhe tinha emprestado.

E o anjo já não era anjo. O anjo era corpo, era pessoa.
E o anjo morreu. Sem palavras, sem asas, sem condão.

Patrícia Prata

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Anjo

O anjo via-o de longe e sentia o ar arrombar-lhe o peito e queria descer à Terra. Mas Deus não permitia. Dizia-lhe que a Terra era sítio de pecado, que o seu coração não suportaria as feridas terrenas e que o anjo seria mais feliz ali.

Foi o anjo cogitar nas feridas de que Deus falava. Tinha reminiscências das dores de quando foi humana e mesmo assim as dores não o aturdiam.

Levantava as asas de condão e não sabia para que serviam. Queria usar os seus braços no aperto dele, na volta do seu corpo. Via-o de cima, de longe, inatingível. E Deus observava-o.

Todos os dias o anjo sentia coisas a que não estava habituado. Não entendia a sede, não compreendia a fome mas se Deus lhe tinha dito que ali seria mais feliz… assentia a Sua vontade.

Queria beber da água que ele bebia e não lhe chegava com as asas, queria comer do mesmo pão e não lhe sentia o sabor… E olhava para ele que continuava a escrever.

Lia-lhe as palavras do céu e sabia que não podia escrever… as suas mãos estavam destinadas a adejarem-se no Paraíso e lia mais… e mesmo sabendo que o Empíreo não permitia, empoleirava-se para ver a Terra e mesmo longe, amava-o cada vez mais. Não sabia porquê mas via-lhe nas falanges a doçura do amor, via-lhe nas letras a candura da paixão e não sabia o que era sentir e não sabia o que era amar.

E na noite de uma prece, na relíquia de duas mãos juntas que pediam a Deus que o salvasse… o anjo desceu. Não o fazia por altruísmo… fazia-o por egoísmo.

Queria amar! E sabia que não podia, sabia que Deus o observava. Mas o anjo já não ouvia os Mandamentos e procurou-o por toda a Terra.

Sentia que ele se escondia nas palavras, que fugia das promessas que escrevia, nas sentenças que regurgitava no papel. E porque não estava habituado, sentiu medo. Procurou Deus na Terra. E Deus disse que já a tinha abandonado há muito tempo. E o anjo sentou-se e esperou. Esperou que as palavras voltassem a encher-lhe o coração. Já não sabia viver sem elas. E esperou. E esperou.

Ao fim do terceiro dia ele foi ter com o anjo e com uma festa na face os seus olhos acordaram.

“Meu anjo! Quanto tempo te esperei! Agora que perdeste as asas para me encontrares, Deus levou-me para cuidar de ti.”

Patrícia Prata

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Só te leio nas entrelinhas

Na submersão dessa água que esconde

Que se põe na escuta e não diz

Que vê o que faço, que sabe o que fiz

Procuro-te por não sei onde

A água escurece mais

Não dizes para onde vais

E as incertezas que são minhas

Porque só te leio nas entrelinhas

Tornam-se pardas, sombrias

Chegam a ser doentias

E cansada de nadar, na água onde não sinto o fundo

Não sei se morreste para mim ou se só estás moribundo

Patrícia Prata