terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O último dia das palavras

Palavras: odeio-vos!
Mas quem pensam vocês que são?! Creem que pelo uso capião, estas mãos cevadas vos pertencem?!
São minhas! Anafadas, desinteressantes, aglutinadas a um canastro gigante!
Mas são minhas! Não são de um poeta ilustre…, bem-parecido… que gosta de ser visto contigo… ou com aquela… Essas outras que me procuram pelo que escrevo, pelas catervas de folhas dispersas pela casa, que não me dizem amor, que não me dizem nada!
São minhas! Quando broto pelo corpo delas e deles, e as conservo no prazer do seu espigueiro, porque as penetro de tal forma que não há palavras para narrar o seu gozo!
Ainda assim… ainda assim, vocês dão cabo de mim!
Rapinam-me o protagonismo! Porque a minha barba malfeita e o meu porte desarticulado não chegam para quem se abeira.
Palavras: odeio-vos! Não mais se rirão de mim! Chega de me matarem, cruéis! De me darem esperança, de se usarem das minhas gadanhas para surgirem no papel!
Acabou! Hoje será a última vez! Vou matar-vos a todas! Chega de preposições, locuções ou advérbios! Não quero vogais nem consoantes! Todas são irritantes! Impostoras! Trapaceiras! Chegam a ser rameiras! Não vos quero nem pintadas, nem de itálico vos quero dadas!

Apareçam nos atoalhados… nos tapetes também pode ser… limparei meus pés molhados ou as mãos sujas de foder!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A Transviada

Presa a este pecado,
Rujo por dentro.
Comprometo-me com o meu fado.
Queria somente ser livre.
Livre desta culpa que trago.
E quando me queres,
Mesmo presa a este atrelado,
Sei por um momento,
Que sou isenta
Dessa iniquidade que me atormenta.
E é nesse sopor embargado
Que o corpo livre de pecado
Adormece enovelado no teu.
Tão livre me sinto desse delito

Que acordada quase dormito.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A casa onde habito

Honro o ser que sou quando em mim habitas e me despovoas,
Quando a gente que trago comigo desde que morri para o mundo
Me leva ao desencontro de um morto, muito antes já defunto
E revivo e vivo do sopro da porta que bates nas minhas entranhas
Que quebras, que esgotas, que roubas com as tuas raposias
E me apanhas.
Amo essa senda que me devora por dentro
Que da casa que tinha, uma cave ficou
Resguardada de nada. Sem medo. Sem cruz. Apenas tu.

Onde habito, exíguo, confinado ao meu porte.

Patrícia Prata

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O suspiro da melancolia

Sei das tuas asas.
Conheço-as.
Sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra,
quando me dizes que tudo é efémero,
que se deve ignorar o vindouro porque é hoje que sentimos o corpo florescer.
É hoje…
E amanhã?
Sabes...
Não sei se te diga que fui eu que te dei asas...
Mostrei-tas no agasalho desta janela e partiste a dizer que o mundo amanhã acabaria.
E voltaste.
E partiste novamente todos os dias com as asas maiores.
Era porque não sabias que continuavas.
Perplexo com a ideia da humanidade não existir procuraste nas penas a vontade de voltar.

Mas quero que vás.
Que as penas que tens sejam suficientes para continuares a acreditar que o mundo existe tal qual o idealizas.
Sim... deixo-te voar... assim, sem conheceres as tuas asas
Porque só as conhecerás quando te aprontares a partir

Sei das tuas asas.
Conheço-as.
Sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra.
E mesmo que voltes com as asas crescidas, o agasalho da minha janela será maior
Não te preocupes...
Só suspiro de melancolia porque conheci a saudade.

Vermelho

Arranquem-nos as veias maltratadas,
Suguem-nos o sangue das pálpebras até deixarmos de ver,
Cravem-nos as facas nas entranhas, deixem-nos na rua violados, acabrunhados…
Quanto mais revoltados,
Menos fome teremos.

É o povo que cai sobre os culpados,
Cabeças rapinadas dos cortiços arguidos.
Lutamos enfermos quase mórbidos das desgraças,
Olhamos lívidos, suas carcaças… humilhadas.

Ruborizada senda que passámos sem calcanhares,
De um país caído, depois levantado,
Nascem vidas livres sobre vidas encarnadas,
Com marcas nas mãos agrilhoadas.

As crostas das mãos já não nos esgaravatavam o ser,
Por mais que capitulassem e a ferida se abrisse
O sangue já não nos ofendia.
E o poderoso que se ria, morria
E o fraco que se aprumava, gargalhava.

Já não era demência ou desejo insalubre.
Eram as veias rebentadas da fortuna assaltada.
E deste sangue encarnado nasce a sagrada vitória
Derramado! Pregado no chão sob a morte do nosso irmão.
Tingido de vermelho vivo, o pai, a mãe e a filha,

Tomámos, sem sangue nas mãos, a Bastilha
Começou a Revolução.

Patrícia Prata

sábado, 23 de janeiro de 2016

Le temps des cerises


Ela pegava nos sacos de areia como se tivesse a força de um varão. Eram braços delgados, declaravam ter força para coisa pouca. Mas pouco interessava. À medida que corriam as ruas levantavam mais sacos, mais pedras do chão. E esses braços delgados ainda tratavam dos que caiam a seus pés.

Eram pés que dançavam apesar da tristeza. Percorriam nus aquela dor infinda entre os morrentes e os desânimos e chegavam para o lado os corpos pelos quais já nada podia fazer. Havia momentos que tinha de deixar para trás quem amava, mas era a todos que amava, amava profundamente, como se ama alguém para toda a vida, para todo o sempre, amava-os porque juntos tinham sido mais fortes, juntos tinham conseguido o que ninguém jamais tinha conseguido, juntos eram um; eram um grande; enorme; colossal! Eles que grandes, colossais e que ao mesmo tempo eram pequenos, infinitamente exíguos, estreitos, apertados, tão diminutos aos olhos dos que se achavam gigantes, monstruosos, titanescos que quando chegaram fortes por serem juntos e – não estarem somente juntos mas por serem juntos – partiram o gigante e agigantaram-se ali mesmo para todos verem, para que todos pudessem sentir a liberdade. Eram eles grandes na cidade, fortes pelos seus braços já desgastados do trabalho, dominados pelos titãs que os obrigavam a ceder, a quebrar, a deixar que outro gigante se viesse apoderar do seu trabalho, das suas casas, daquilo que não sendo seu era seu.

Patrícia Prata

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Nas crateras dos vulcões

E quando te levantas a pensar que é desta?
Quando sais à rua com os cabelos na mão, presos nos dedos porque já te chegam ao chão?
Não te lembras.
Rogas pragas à memória.
Contas para ti própria uma história
Para te lembrares, para saberes que é de tudo isso que és feita
Mas mais ainda do que acreditas.
São as pernas incompletas, desfiadas que te atrasam o caminho. Mas são pernas que andam e que correm, porque na verdade o seu alento vem de dentro.
E aí estás tu.
Meretriz, sumida, perdida na vida, não sabes se és carrancuda ou só sisuda.
Achas que te dão cognomes nas costas e encostas para não ouvires. Está debaixo do teu braço.
Às vezes é só um abraço
Outras são línguas tortas, facas, serpentes, contentes por te matar, por te tirar esse alento que te vem de dentro.
E quando te levantas a pensar que é desta, continuas a partir tabique, a suplicar perdão, quando não!

Essa fenda não é tua. É da humanidade… que ainda não ganhou idade para deixar os juízos repousar nas crateras dos vulcões…

Patrícia Prata