Palavras: odeio-vos!
Mas quem pensam vocês que são?! Creem que pelo uso capião,
estas mãos cevadas vos pertencem?!
São minhas! Anafadas, desinteressantes, aglutinadas a um canastro
gigante!
Mas são minhas! Não são de um poeta ilustre…, bem-parecido…
que gosta de ser visto contigo… ou com aquela… Essas outras que me procuram
pelo que escrevo, pelas catervas de folhas dispersas pela casa, que não me
dizem amor, que não me dizem nada!
São minhas! Quando broto pelo corpo delas e deles, e as conservo
no prazer do seu espigueiro, porque as penetro de tal forma que não há palavras
para narrar o seu gozo!
Ainda assim… ainda assim, vocês dão cabo de mim!
Rapinam-me o protagonismo! Porque a minha barba malfeita e o
meu porte desarticulado não chegam para quem se abeira.
Palavras: odeio-vos! Não mais se rirão de mim! Chega de me
matarem, cruéis! De me darem esperança, de se usarem das minhas gadanhas para surgirem
no papel!
Acabou! Hoje será a última vez! Vou matar-vos a todas! Chega
de preposições, locuções ou advérbios! Não quero vogais nem consoantes! Todas
são irritantes! Impostoras! Trapaceiras! Chegam a ser rameiras! Não vos quero
nem pintadas, nem de itálico vos quero dadas!
Apareçam nos atoalhados… nos tapetes também pode ser…
limparei meus pés molhados ou as mãos sujas de foder!