sábado, 4 de dezembro de 2010

Sete vezes


Sobe.


Sete vezes… que ela dorme nas colinas. Acorda embebida na chuva e sorri com vontade de lhe afagar a alma.


Era o vento que a puxava para o sopé.


Sete.


Quando lhe falou do castelo, olhou para a sua Graça. De lá via-lhe o azul dos olhos que lhe passavam por baixo do encarnado. Eram as cores. Eram cheias.


Cheias da candura dos carris que albergavam o fulvo corrente. Gritava pelo cabeço agarrada à força das pedras pretas. O limo fazia partidas como se fosse uma criança traquina e nas esquinas levava-lhe o aroma do rio, dos olhos que chorava por ver o cacilheiro partir.


Laranja.


Grande e ampla cá em baixo. Adivinharam a sua vida há tanto tempo que parece que as suas rugas vão sarando mas não passam.


Leva palavras. Não é o vento porque ela não deixa. É senhora delas. E o patriarca que vive no meio da praça fecha um olho porque sabe que não vê só. Ela que o deixa viver nas linhas da sua memória, nos desvãos furtivos que ela o abriga.


E mais sons. Da gorja que lhe grita debaixo para cima. Sete vezes. Nos rasgos que tocam o céu à procura umas das outras.



Patrícia Prata

Arrumada num canto da sala

O que ela mais queria era desprezar a insegurança, daquela que se cola ao cortiço como resina, envolvida numa embriaguez torpe e infame. O inebriamento quase obsceno por só lhe agitar o engenho, calcava-lhe a felicidade com rude força. Descobria-lhe as entranhas sem pudor. Aquele olhar não podia esconder. Queria mas não conseguia. Trazia na alma o verdadeiro bem querer. Daquele em que a felicidade reside no outro. Mas as palavras que ouvia eram como sentenças excruciantes.

Abstracção.

Difícil.

"Se não voltar é porque não tinha de voltar." - Como lhe doía pensar nisto. E arrumava-se num canto da sala.

Abstracção.

Sai à rua para ver e ouvir. Sai porque o frio lhe acorda a dolência. "Amanhã é outro dia. Amanhã vou acordar feliz e ditosa. " - E decidiu isto.

Patrícia Prata

Maior

“ … e subia a rua como se fosse apanhada no meio, eram os anos, era a memória que escorregava pela idade abaixo, era o medo da solidão e a incerteza de que a vida tinha valido a pena. Viajava nas rugas da sua face e já não lhes conhecia a razão. Houve tempos que conhecia cada uma delas, que sabia a razão da sua existência. Houve tempos que lhes dava nomes, lugares, datas… A frieza do esquecimento apartava-lhe a alma. Sabia que mais tarde ou mais cedo aquele entorpecimento a asfixiaria até que o ar deixasse de existir no seu corpo, até que se deixasse de lembrar quem eram os que a rodeavam, até que se deixasse de lembrar de si própria.

Velha.

Não. Preferia ser Maior, como dizem os espanhóis. Sem recordações mas Maior que antes. Maior que o mundo de que ela se lembrava.”

Patrícia Prata

sábado, 30 de outubro de 2010

Degrau de mármore

(...)

Talvez esse mesmo mundo estivesse a conjurar para que ela fosse empurrada para aquele lugar.

Depois das aulas tinha decidido pôr-se rumo ao prédio. Só o facto de descer a rua com o sol a vigiar-lhe as colinas de Lisboa, como se ele fosse o amo das ruelas e por amor cuidasse delas, só o facto de olhar os cabeços da cidade como se jogassem às escondidas e se apercebesse que o burgo se movia nos seus pés delicados de bailarina, só estes pormenores lhe enchiam o corpo de inspiração.

Corria como se estivesse atrasada e sabia que ninguém a esperava. Aguardava-lhe a casa, a velha porta de madeira e o degrau de mármore.

(...)

Patrícia Prata

domingo, 17 de outubro de 2010

...

Entre o amor e a loucura, entre deus e o diabo, escolho viver sem saber de que lado estou.

Patrícia Prata

domingo, 10 de outubro de 2010

Lapidação da vida

Era ela. Vítor tinha a certeza. Só ela podia saber que ele tinha passado a noite fora. Sentiu receio pela primeira vez. Um desassossego que lhe cortava a respiração. Olhava para trás, para o lado. Havia vento que lhe cruzava a pele, sons que se cravavam nos ouvidos como um tilintar permanente. Já aquele sol que lhe rompia a janela parecia queimar-lhe as íris. Havia uma luz forte que o atirava ao chão. Era ela. Era ela que o apedrejava de raiva, de uma cólera quase agonizante que o estorcegava. Quase que ele a via, quase que lhe sentia o cheiro, o doce cheiro que ele lhe conhecia. Mas agora ela odiava-o. Agora lapidava-lhe a vida. Talvez o tivesse feito sempre, desde que morreu.

Patrícia Prata

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bem-querer sem querer

Era dia.

A luz feria-lhe os olhos e aprisionava o seu olhar por detrás da almofada. As mortalhas macias invadiam-lhe as pregas do corpo. Não queria despertar do sonho que estava a ter. Via Helena a correr-lhe para os braços. Os seus olhos azuis trespassavam-lhe a profundeza da alma.

Sabia com toda a certeza que a amava. Não que a amasse mais do que a outras mulheres que tinha amado. Mas amava-a da maneira mais bela que se pode amar alguém: sem esperar a reciprocidade. Era um bem-querer sem querer nada em troca. Precisava, apenas, de saber que ela estava bem, que era feliz, que o seu sorriso era autêntico.

Patrícia Prata

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Entre o seu corpo e o dela...

(...)

Tinha decidido dar uma oportunidade àquela noite e deixava-se levar em reflexões de esperança.

Na mesa, a toalha comprida tapava-lhes os pensamentos. Havia vontades, havia intenções e deliberações. Queriam tocar-se, queriam que o aconchego da pele lhes levasse as sensações dos sentidos. Mas nada faziam.

Nascia um acanhamento saudável em ambos que lhes prendia as intenções. Sentados à mesa olhavam a janela e viam as candeias da cidade. “Aqueles archotes que lhes irrompessem a sala e a idealidade, e aquela música reconfortante que negociasse a aquietação espiritual de Vítor!” – era o que pensavam.

(...)

O marufo já lhes corria no âmago e a música apelava pelo movimento dos seus corpos. Foi Vítor que se levantou. Nem ele próprio reconhecia os seus movimentos. Deixou que a sua mão alasse o corpo de Cristina para junto do seu. Pousou-a na cintura afunilada de mulher lúbrica e aconchegou-lhe a mão no seu próprio corpo. Dançavam.

O vestido no corpo feminino esboçava uma sensualidade ansiosa, deixava que o preto que lhe cobria as dobras do corpo exibisse a força do desejo no seu peito e o seu pescoço desvendava-se por entre as madeixas de cabelo castanho que se ondulavam nas partituras musicais em que dançavam.

Vítor olhava-a nos olhos, procurava-lhe agora o amor e a sensualidade mas foi no seu corpo esguio que depositou os seus entendimentos. Os seus ombros delicados e desabrigados permitiam que o bálsamo da sua pele se distribuísse pelo espaço envolvente. O espaço que agora Vítor partilhava com ela, o espaço entre o seu corpo e o dela.

Cristina deixou que a alça do vestido lhe escorregasse ombro abaixo e Vítor tirou-lhe a outra com brandura.

O tapete preto que ocupava toda a sala deixou que os seus corpos se desabotoassem das roupas que traziam. Havia um peso nas pálpebras de Vítor que fez com que ele se esquecesse do seu próprio corpo.

As mãos de Cristina esbulhavam-se no corpo dele, sem pudor (...). Se o amava pelas palavras, ali sentia apenas os sons. Se o queria pelas letras, ali cobiçava-lhe o sabor da boca.

Vítor deixou que ela o cobrisse, que a nudez dela revestisse o seu canastro. Via agora os seus olhos e os seus cabelos resvalarem-se nos movimentos quase imorais que dava ao seu espigueiro e da loucura que sentia quando o peito lhe roçava os olhos queria que aquele momento se prolongasse. E prolongou-se.

Prolongou-se até à exaustão, até que o cansaço os sucumbisse no chão, no tapete negro.

(...)

Patrícia Prata

domingo, 12 de setembro de 2010

No seu estrado, bocados grotescos...

(...)

E nessas alturas em que o corpo dava voz à vontade, cortava-se para que o sangue azedo que lhe corrompia a alma o abandonasse de vez.

Nunca conseguiu.

Não entendia porque a morte não se lhe caldeava ao corpo. Tantas vezes a procurou e tantas vezes a vida teimava em não abandoná-lo.

Não sabia porque pagava às mulheres para lhe darem prazer. Havia aquelas que se atiravam aos seus pés (...). Havia muitas mulheres que se apaixonavam pelos seus dedos, pelas suas linhas cravadas no papel.

Alturas houve que se envolvia com elas, abria-as de tal forma que no dia seguinte dava-lhe a sensação de lhes apanhar as entranhas no fundo da cama. Não as queria magoar mas não as amava. Odiava-as. Os seus corpos levavam-lhe a alma aos bocados grotescos. E por mais que se quisesse libertar, ela sempre o observava. Muitas vezes o seu corpo arrepiava-se com aquela figura que lhe aparecia nas alturas mais inesperadas.

Já não se lembrava como ela tinha chegado à sua casa, ao seu estrado. (...)

Patrícia Prata

Os amigos são para as ocasiões

Afinal o inimigo é o Irão. O malévolo que nos quer destruir com mísseis e ogivas nucleares.

E afinal é o Irão, agora.

Fico sempre baralhada e confundida com os inimigos que temos. Mudam sempre. Se não estivermos atentos às notícias perdemos a consciência para quem temos de alvitrar.

Ainda bem que existe uma Nato para nos avisar. Ainda bem que temos o olhar atento de Rasmussen para nos prevenir. Tal qual Grande Irmão que alerta para as jigajogas políticas do mundo. Ele sabe.

Portanto… só para afastar qualquer dúvida o Irão é o mau. Agora.

Mas… já tinha sido mau na Guerra Irão - Iraque. Não foi? Por enquanto ainda não queimam as notícias no fogo… Ainda se pode ir confirmar estas mudanças dos maus, dos bons e dos vilões. Dá a sensação que são sempre os mesmos mas vão-se alternando em mandatos.

O Iraque… Esse que depois afinal… afinal tinha armas de destruição maciça. Armas que ameaçavam a segurança mundial.

E continuo baralhada…

É verdade que o 11 de Setembro ajudou a vermos melhor o inimigo! Se não fosse o 11 de Setembro o “inimigo” seria quiçá o comunismo. Assim tudo fica mais fácil… Assim podemos defendermo-nos?!

Mas… não foram os EUA que utilizaram a energia atómica para fins militares? Aliás… não foi o único país que o fez? O que sempre se absolve com a segurança mundial? Mas Eles sabem.

Eles sabem… pelo menos escolher as amizades certas, nas alturas certas.

E agora temos de esperar pela invasão dos iranianos... Mas há a NATO. Sinto-me muito mais segura… ao menos vou sabendo quem são os “maus” e vamos pagando os ordenados dos senhores da indústria de armamento e aviação militar.

Porque afinal… vai sempre haver um inimigo… vai sempre haver uma justificação para que hajam investidas.

E o que interessa é que … amigos amigos, negócios à parte.

Patrícia Prata

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Contra a NATO - como se combatem guerras com guerra?!

Historicamente nas suas origens, talvez tivesse algum fundamento defensivo o Tratado que resguardava toda a área do Atlântico Norte. Mas a partir do momento que este carácter cautelar passou a ter a preponderância de poder intervir militarmente em qualquer lugar do mundo, a NATO passa a ser um grupo belicista provocando a constituição de novos grupos do mesmo género, noutros países.

É uma bola de neve!

O crescimento contínuo do armamento dos estados membros, provoca o rearmamento de países que os consideram seus rivais. Mais do que rearmamento dos estados membros, os Estados Unidos possuem armas nucleares nas bases da NATO, na Europa o que faz com que a exponha a uma possível guerra nuclear e cada vez mais fomente o crescimento de empresas bélicas e dos gastos militares.

Se observarmos, e nem é precisa muita atenção porque é flagrante, a NATO protege e defende os interesses dos países mais ricos e, muito basicamente, pode-se perceber que estes países ricos precisam de matérias-primas como o petróleo para poderem manter o seu nível de consumo e crescimento. Onde estão essas matérias-primas? Pois...! Nos países onde a NATO exerce o seu controlo militar.

Mais estranhamente, uma organização que se diz de carácter defensivo e estabilizador de políticas não democráticas permite que no seu seio constem países de ditaduras neofascistas e antidemocráticas.

E será mesmo a NATO uma organização democrática, sendo ela que se manobra sobre todas as outras instituições democráticas, sem pedir "cavaco", e sim sob o jugo militar dos Estados Unidos?

E é por estas razões e outras que a extinção da Nato seria imprescindível, nomeadamente para a concretização dos objectivos da Carta das Nações Unidas, cujo mais importante é o de não provocar novas guerras.

E como se combatem guerras com guerras? Como?

Patrícia Prata

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Liberté, Egalité, Fraternité?!

Carla Bruni: Amour, amour! Ainda estás aborrecido com moi? Sabes que eu só quis experimentar aquele ciganinho, porque ouvi dizer lá no Salon de Beauté que eles davam sorte no casamento. E tu andas tão ausente... Sempre a brincar aos países e às espingardas... que maçada!

Sarkozy: Carlinha, sabes que eu me passo quando te enrolas com esses vagabundos. Mandei uns quantos para casa só para não me preocupar. Até porque eles não são nada estéticos para a nossa cidade. Já viste Paris com uns homenzinhos cheios de ouro nos dentes? Onde está o glamour? E eles não tomam banho. Os polícias quando têm de lhes ir dar umas sovas (tenho de manter aquela malta ocupada, fofucha) vêm todos a cheirar mal, é uma porcaria.

Carla Bruni: Mas ó fofucho... e agora o que dizemos quando nos falarem da "Liberté, Egalité, Fraternité" ?

Sarkozy: Hummm... pois quida... se calhar o melhor é eu mandar pôr umas fotos de uns ciganitos a roubarem e uns filmes de uns desacatos. Também não deve ser muito difícil... não te esqueças que ninguém gosta dessa gente que vive assim... de modos estranhos... O seu modo de vida tira sempre credibilidade. Não te preocupes. Vai ser canja. Depois eles esquecem-se...

Carla Bruni: Mas fofucho... tirar-lhe a nacionalidade? A mãezinha diz que isso é muito feio. Parece que é contra a Constituição... disse ela...

Sarkozy: Constituição?! Não filha. Isso é coisa dos antigos... do tempo da Revolução francesa! E está caladinha com essas coisas! Tens de deixar de te dar com essa gente de esquerda lá do cinema e dos livros. Isso são coisas que eles dizem. Quando for assim, diz-lhes que é tudo em nome da segurança!

Carla Bruni: Mas meu tesourinho... não gostei nada que o Papa ficasse aborrecido connosco... ele é santo! Ainda nos manda uma maldição!! Ai... está tudo contra ti fofucho! Até aqueles senhores que se sentam do teu lado.

Sarkozy: Não te assustes minha pombinha! É tudo inveja! Os próximos a irem, são aqueles imigrantes portugueses! Não posso com aquela gentinha.

Carla Bruni: Ah! E depois quem me limpa a casa?!

"Liberté, Egalité, Fraternité", para quem Sr. Sarkozy?

Patrícia Prata

domingo, 22 de agosto de 2010

Mirada de viejo verde

Siempre vienes con esa mirada
Aùn cuando las flores te sienten llegar
Aùn cuando el deseo de verte se penetra en la piel

Y todo el mundo dice que esa mirada es de viejo verde
Pero no hace daño
Hace que el deseo de prensa en tu piel, no resista la idea
Y más
Sentir tu mirada pesarme los brazos...
Casi lo juro a Dios que me olvido de todos los huecos...

Patrícia Prata

sábado, 21 de agosto de 2010

Obama reza todos os dias...

Segundo sondagem da revista Time, quase um terço da população americana julga que o seu Presidente é muçulmano.

Hummm.....

E se fosse? É assim uma notícia tão importante conhecer o credo do Presidente dos EEUU?

Deve ser, porque Bill Burton apressou-se a “jurar” que o Presidente reza todos os dias. Talvez se deva ao facto de se falar na construção de uma mesquita no ground zero, provavelmente ao lado de um shopping, de um MacDonalds, de uma Gant, de um Calvin Klein, de uma GAP, de um (…) …

Mais engraçado é que a percentagem aumenta dentro daqueles americanos que tradicionalmente votam no Partido Republicano…

É quase grotesco que um país que se diz defensor das liberdades, nomeadamente religiosas, construa uma polémica em redor da fé do seu representante político.

Talvez estes fait-divers façam esquecer a necessidade de uma análise social e política às transformações que a gestão obamista está a fazer ao país.

Talvez o cerne da questão seja esse. Talvez o Senhor Presidente reze mesmo todos os dias a pedir a Deus que o ajude a manter-se fiel aos seus juramentos no início do mandato.

Na verdade todos sabemos que a religião que tem mais praticantes nos Estados Unidos é o Dólar!

Na verdade, Senhor Presidente... Reze! Reze! Acho que vai precisar de muita ajuda divina. O melhor é pedir a todos (Jesus, Jeová, Alá, Buda) … sabem que nestas alturas todas as ajudas são bem-vindas.

Patrícia Prata

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Vergonha alheia

Não sei se sabem o que é vergonha alheia...

Aquela que nos consome o corpo de desprazer e aborrecimento. Aquela que nos chateia como “o caraças” mas não podemos fazer nada porque não é connosco. Mas na verdade, até é.

É pior que a "vergonha na cara" porque não é opção nossa fazer alguma coisa para salvar a situação... Foi essa que senti ontem a ver a repetição do "5 para a meia-noite".

Senti vergonha, quase que um ligeiro rubor me subiu às faces. Era a vergonha de que alguém com nome de "Pipoca" me metesse no saco que ela levava debaixo dos braços - o mesmo saco onde estão "as mulheres" de quem fala.

A Sra. Pipoca, sentada ao lado de um brilhante escritor português, José Luís Peixoto, contava como tinha chegado ao belo estatuto de “a mulher mais invejada de Portugal”. Ignorância a minha que não sabia da existência deste kitsch – a pipoca mais doce – blogue fofinho que fala das reais preocupações das mulheres?!

Mas… ó Pipoca… que mulheres? Mas o que me abespinha ainda mais é a tentativa brejeira e descarada de imitação do “Sexo e a Cidade”.

E ainda que tudo seja uma grande chatice, e que até acredite que há mulheres que designem as “bolhas do verniz das unhas” de “putas” (ver por favor http://apipocamaisdoce.blogspot.com/ “Ora bem” de 22 de Julho) acredito que a maior parte não sente necessidade de partilhar com o mundo os rasgos de barbaridade que todos temos de vez em quando.

Por isso… cara Pipoca… por favor, se puder, numa próxima entrevista em vez de falar nas mulheres em geral, seria mais prudente dizer “as mulheres como eu” e assim, acredite, que um sem número de mulheres lhe ficaria agradecida de a não incluir nesse saco, seja ele Gucci ou de contrabando.

P.S. Se abrir bem os olhos, vai reparar que há mulheres que vão sozinhas à casa de banho; que há homens que vão juntos e que muitas vezes a espontaneidade dos acontecimentos sucedem-se sem que seja preciso catalogar as mulheres de inseguras; rendidas à superficialidade do orbe; presas a todo o tipo de frivolidades.

Se abrir bem os olhos, vai reparar que todos somos diferentes.

Alvíssaras!

Patrícia Prata

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Errantes no Acaso

Tinha a cabeça sobre os seus braços adormecidos, havia dias assim. Havia dias que nem a roupa despia. Asilava-se entre os seus tentáculos fechados e deixava que a sua respiração se perdesse entre a mesa e os carrilhos esmagados.

Depois de algumas horas soltava um lamento de dor, de dormência muscular. Não sabia se o sangue tinha parado de correr ou se os seus membros tinham caído de podres.

“Estás aí hoje?” – via-a com os seus grandes olhos azuis, sempre que se levantava dos escritos.
Havia uma impetuosidade no seu olhar que parecia abalroar-lhe o corpo da cadeira. Ela estava sempre ali a observar-lhe as letras.

As promessas e sentenças que lhe saíam das mãos. Ele sabia que ela as apanhava - às folhas rasgadas do chão. Deixava-as lá para ela. Gostava de a ver amarfanhar-se nas folhas. Ela sempre esteve ali. Mesmo das vezes que ele se queria entregar à decessa, sentia-a presente. Como se o expiasse e o privasse do seu desejo de morrer.

E de manhã, quando se arrastava até à cama não entendia porque ela deixava tudo como ele tinha deixado. Depois de abrir as folhas, de ler os seus erros, as suas estrangulações, voltava a enovelar as gazetas e deixava-as no chão, errantes no acaso.

Patrícia Prata

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Livros

1. 1984, George Orwell *****
2. Filhos e Amantes, D.H. Lawrence ****
3. Homenagem a Catalunha, George Orwell ****
4. Amante, Marguerite Duras ***
5. Animal Farm, George Orwell ****
6. The catcher in the Rye, J.D. Salinger ****
7. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wild *****
8. La forja de un rebelde, Arturo Barea
9. Soldados de Salamina, Javier Cercas
10. Grande Sertao: Veredas, Guimarães Rosa
11. Vinhas da Ira, Jonh Steinbeck
12. Guerra e Paz, Leon Tolstoi
13. O Estrangeiro, Albert Camus ***
14. O Banqueiro Anarquista, Fernando Pessoa
15. A Mensagem, Fernando Pessoa ****
16. Madame Bovary, Gustave Flaubert
17. Retrato de uma senhora, Henry James
18. Spanish Cockpit, Franz Borkenau
19. Sinais de Fogo, Jorge de Sena
20. A insustentável leveza do ser, Milan Kundera *****
21. Servidão Humana, Somerset Maugham ****

(...)

domingo, 11 de julho de 2010

Medo

Se o medo arrancasse olhos era cega.
E sou.
E estou.
Nos meus não o vêem os que por aí andam. Nas mãos não sabem que escorre água, que varro veneno das veias.
Cardeais os pontos que me doem, aqui, ali e acolá. Dor que não existe mas que se sente. Dor do que penso e de que afasto o pensamento e ele vem. Vem sempre. Vem na volta do vento, das palavras que não disse.

É ela que me vem buscar de manso. Pela calada. Na noite. Ela que busca inocentes e os esgana feliz... a mórbida, aos culpados deixa-os danar no inferno.

E a alma que já não se salva ainda que tente. Ainda que corra todos os dias pelo perdão... só sente seiva rara, escassa e azeda.

Medo. Medo que ela me venha buscar para a purga.
A espera mata-me antes de me vir buscar.

E espero...

Patrícia Prata

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Por cima dos balcões dos cafés

Sentada, agarrada aos joelhos esticava o pensamento até aos velhos cheiros da infância. Sabia que as luzes eram diferentes porque estavam mais longe do chão... a idade não perdoava. E eram aqueles balcões dos cafés altos demais para ver o que se passava por trás.

Tinha levado em pensamento a força da saudade perdida, aquela que não volta nem faz falta.

E se o passado que corrompe as veias da vida que levamos, dissimula o que realmente somos? Ou é verdade que quem cresce aparece por cima dos balcões dos cafés, e quando os vê já os assimilou de tal forma que não dá conta que aprendeu a vê-los como nos contaram que eram e não como realmente são?

Sentada, desprendi-me dos joelhos e corri ofegante até ao passado mais antigo de que me lembrava. Senti a pele a rasgar-se das quedas e os pés descalços das pedras que pisava. E vi a bola e a boneca e o choro da quem quer mais não sabe porquê. Se o não que chega, vem sem explicação, mais tarde, vem na volta do vento. Quebrou-se o tendão dos esforços e sem uma inclusão rematada consegui ver as pontas soltas das minhas próprias maleitas. O saber não ocupa lugar… mas saber que a loucura começou no dequite e só acaba com a morte faz pensar…

Bem podia espreitar melhor por cima dos balcões dos cafés para ver que o chão estava sujo…

Sentada, voltei a abotoar-me aos joelhos e na volta de uma festa que se entrelaçava nos cabelos, quis-me levantar para ver o que lá estava por trás… por trás dos balcões dos cafés. Desses que não olhava desde que não os via por ser pequena demais. E nesse encaixe dos joelhos ouvi que do outro lado gritavam. Não sabia se era prazer ou dor. E com mais tempo percebi que aquele som já lá estava antes de poder subir-me pelas pernas acima, antes de saber que se desse a volta entrava no balcão.

E nunca me chamaram pelo lado esquerdo. Nem pelo lado direito.

Sentada, levantei-me. Na demanda dos detalhes vi que o saco estava vazio, quando pensava que estava cheio, conheci um arco-íris, quando sempre vi a preto e branco e a doçura revelou-se, quando a boca me amargou.

Sentada, agarrada aos joelhos esticava o pensamento até à infância. Foi ontem. Porque só hoje consegui ver por cima dos balcões dos cafés.

Patrícia Prata

Mais do que prazer

Voltaste e afagaste-me a face
E pensando que me cansasse
Recuaste na tua mão

Se as palavras que me custam caras
Me arranhassem o céu da boca
Me fizessem gritar os verbos
Os substantivos e os predicados
E sem medo dos pecados
Sem medo da voz alta
Dos sons graves e da ribalta
Puxava essa tua mão

E ainda que fosse com a voz
Este silêncio atroz
Que contorce este cansaço
Que me afasta do teu regaço

Enchia-me o peito de orgulho
De poder ter-te dito um dia
Que esse corpo onde mergulho
É mais que prazer, é alegria.

Patrícia Prata

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Conto 2 - Última Parte

A indiferença era aparente. Sentia no seu corpo o peso do olhar dele e aquilo matava-o aos poucos. Ele falava e dava-lhe palavras, mas o morto da cama não o ouvia, só lhe via os lábios mexerem. Não queria ouvir na verdade e fazia-se defunto, só a respiração o acusava de ter vida.

Naquele dia ela não veio. Apareceu uma outra. Feia. Gorda. Que asco lhe dava aqueles dentes maltratados. E na sua agitação levantou-se. Queria partir o espelho para não ver a morte sorrir-lhe. Queria fechar a porta para ninguém o visitar. Não queria medicamentos nem drogas a enganarem-lhe o raciocínio.

“Não! Ela vai meter-me a mão em cima! Sai!”. – Gritou mas não se ouviu. A gesticulação que empreendia no corpo era de uma força abismal, no entanto, não se movia.

“Onde está aquele meu filho que eu me esqueci? Esse que me vem espreitar as pernas e as quer levar?!”. – Ele tinha os olhos abertos. Via. Lembrava-se. Ou não.

A médica “gorda”, “feia” tinha chegado há dois dias. Veio confirmar o que o médico que lá estava vinha dizendo há muito tempo.

Foi o jovem fisioterapeuta, que se sentiu mais castigado. Todos os dias durante dois anos exercitava os seus joelhos na tentativa de conseguir alguma reacção. E disse a Laura, sua colega enfermeira que ia sentir a falta dele. Dava-lhe a sensação que ele o ouvia. “Há dias que parece que está zangado…”.

“Disparate… ele não vê nem ouve, nem tem consciência. Está cá mas é como se não estivesse. A Dra. tem razão.” – Laura dizia isto com alguma frieza. Os seus dentes grandes saiam-lhe da boca sem pedir permissão. Tão grandes que só se viam as saliências brancas a rasgarem-lhe a expressão. Parecia estar sempre a sorrir.

O jovem fisioterapeuta arrumou-lhe os apetrechos que levava todos os dias e ajudou a enfermeira a guardar as seringas e as garrafas espalhadas pelo quarto que ultimamente serviam para tornar aquela forma de vida mais digna.

Uma dignidade que era mais confortável para os que o viam.

Enquanto arrumavam as tralhas diziam que tinha sido o melhor atleta de todos os tempos. Tinha corrido meio mundo e o acidente que lhe tinha cortado as duas pernas levara-lhe a vida e a alma.” Como é que alguém pode ficar assim?”.

A médica gorda e feia entrou na sala: “Ele não tem família. Ninguém vem cá desde que ele entrou em coma. O cérebro morreu. Podem desligar a máquina, por favor.”

Patrícia Prata

terça-feira, 25 de maio de 2010

Conto 2 - Segunda Parte

Levantou-se. Ainda sentia as pernas. Tinha a certeza de estar vivo e não conseguia evitar olhar para o quase morto na cama. “Se pudesse, dava-lhas … “ – pensava como se lhe arrancassem aos nacos a carne das tíbias.

“Amanhã volto!” – os olhos que o miravam aparentavam indiferença. Ele não sabia se tinha perdido a alma ou se estava só moribundo.

Assim que batia com a porta ele levantava-se. Respirava fundo e penteava os seus cabelos escassos a olhar-se para o espelho. Meditava sobre as razões que o levavam a ir ali.

“Quem é ele? Vem aqui para me julgar! Já o vi a olhar-me para as pernas! Cobiça! É o que é! Para estes gajos é que Deus não olha! Andam aqui a açoitar-me o entendimento! Mais a porra com eles! Se não for Deus a o levar, que o leve o diabo!” – olhou para a porta e viu Laura.

Laura trazia sempre aquele sorriso. De tão manso acalmava-lhe a sanha. Esquecia-se dele e do outro que o via. E deitou-se na paz do Senhor. Queria portar-se bem para que Laura lhe continuasse a sorrir.

Tanto devaneio e delírio, tanto desatino e desacerto e esqueceu-se que tinha um filho. E sentia-lhe as mãos nos cabelos escassos. Rosnava.

E a morte espreitava-o pelo espelho. Quanto mais lhe mostrava os olhos menos lhe metia medo.

“Volto amanhã!” – saía com a sensação de lhe ter deixado as pernas, tal era a força que tinha de fazer para atravessar a sala.

Patrícia Prata

domingo, 23 de maio de 2010

Conto 2 - Primeira parte

Olhava para ele com o remorso da vida. Aqueles anos de loucura tinham-lhe dado argumentos suficientes para se esquecer que tinha um filho.

“Levanta-te!” – se pudesse dava-lhe as pernas. Não tinha dúvidas do seu afecto por ele mas teria sido tarde, talvez.

Nem sequer sabia se ele o ouvia. Era um olhar longínquo. Tentava entender-lhe a alma através da respiração. Olhava para o tecto e para baixo dos lençóis. Não sabia se a demência se entranhava no espírito ou se o rancor lhe roubara a voz.

Punha-lhe a mão em cima. A agressividade com que a tirava mostrava-lhe que não queria o seu amor. Não era preciso falar. Havia vezes que não sabia se o esforço fazia sentido.

“Para quê? Só porque há uma relação familiar? Valerá a pena passar-lhe as mãos nos cabelos, nos escassos cabelos que tem?” – e achava que sim.

Quando se lembrava dos bons momentos que tinham tido, regressava tão atrás no tempo que se perdia nos anos. Não sabia quantos eram… dez? Vinte? Eram muitos e pesados.

Quantas vezes chegara a casa e lhe apanhara a seringa do chão, a garrafa vazia na mesa. O corpo não comportaria tantos maus tratos. E quanto pior se tratava, mais sozinho se sentia. Não queria partilhar aquela dor com ninguém. Não era porque não os amasse. Era por vergonha. Havia vezes que a vergonha se tornava alheia. Como se saísse do corpo para espiar a vida e visse que ao seu redor não havia ninguém e quanto mais andava mais as pessoas lhe fugiam.

Ainda bem! Era o que queria. A solidão da bebedeira.

Todas as noites acordava com a sensação de estar morto. Olhava em redor para se certificar que não tinha sido apedrejado até à morte. Mas não via sangue.

Bem sabia que ela o tinha debaixo de olho. O olhar da decessa já nem lhe causava arrepios. Parecia esperar por ela todas as noites.

Patrícia Prata

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Lançamento do livro Pretérito Imperfeito


Hoje às 18h30 na Fnac Chiado, lançamento do meu primeiro romance, Pretérito Imperfeito

domingo, 9 de maio de 2010

Conto - Última Parte

Deus perguntou-lhe: “ Mas que tanto olhas para baixo?”.

Não Lhe podia responder, sabia que não podia mas o que sentia era forte demais. Continuava a querer lê-lo. A querer devorar-lhe as palavras.

Todos os dias via-o de longe e sentia o ar arrombar-lhe o peito e tentava encobrir a vontade que tinha em descer à Terra.

Deus não permitiria. Quando lhe pediu que descesse no dia do rio vermelho foi porque não era a hora dele. Mas Deus não repousa nem dormita. Via a vontade que o seu anjo tinha em descer. Via que a divindade lhe escorregava pelas penas e que a humanidade se infiltrava no seu espírito. Assim como é: vil.

Amava-o demais para o perder para a Terra. Era o seu anjo preferido. Sabia que as suas penas cairiam de mágoa e dizia-lhe que aquela Terra que o deslumbrava era sítio de pecado, que o seu coração não suportaria as feridas terrenas e que seria mais feliz ali.

Foi o anjo cogitar nas feridas de que Deus falava. Tinha reminiscências das dores de quando foi humana e mesmo assim as mágoas não o aturdiam.

Duvidava daquela felicidade aparente. Daquele céu … daquele Deus que o impedia de sentir. Levantava as asas de condão e não sabia para que serviam. O que queria era usar os braços! USÁ-LOS! Usá-los no aperto dele, na volta do seu corpo. Via-o de cima, de longe, inatingível.

Todos os dias o anjo sentia coisas a que não estava habituado. Não entendia a sede, não compreendia a fome. “Mas porque é que Deus me diz que aqui serei mais feliz?!” - assentia a Sua vontade contra a sua própria.

E de cima olhava-o. Invejava as suas mãos que escreviam. Queria beber da água que ele bebia e não lhe chegava com as asas, queria comer do mesmo pão e não lhe sentia o sabor… E olhava para ele que continuava a escrever. A escrever. E amava-o. E amava as suas palavras.

Sabia que não podia escrever… as suas mãos estavam destinadas a adejarem-se no Paraíso e lia mais… e mesmo sabendo que o Empíreo não permitia, empoleirava-se para ver a Terra. Não sabia porquê mas via-lhe nas falanges a doçura do amor, via-lhe nas letras a candura da paixão e não sabia o que era sentir e não sabia o que era bem-querer.

Não esperou que Deus o mandasse salvar de novo. Não esperou que outro rio vermelho sujasse os pés da rapariga do andar de cima. O anjo desceu. Desceu sem permissão divina. Não o fazia por altruísmo… fazia-o por egoísmo.

Queria amar! Queria sentir! E sabia que não podia, sabia que Deus o observava. Mas o anjo já não ouvia os Mandamentos e procurou-o por toda a Terra.

Sentia que ele se escondia nas palavras, que fugia das promessas que escrevia, nas sentenças que regurgitava no papel. E não o encontrava. Procurou-o nas folhas soltas, nos livros abertos, nas inscrições de amor em bancos de jardim e não o via.

E o anjo sentou-se e esperou. Esperou que as palavras voltassem a encher-lhe o coração. Já não sabia viver sem elas. E esperou. E esperou.

Acordou no corpo dela. No olhar dela. Já não tinha asas. Tinha braços, tinha cabelos, tinha lábios. E a Terra que sentia o amor do anjo pelo poeta disse a Deus que lhe dava um corpo. Que dava um corpo ao seu anjo preferido.

“ Este é o livre arbítrio que criei. Dai-lhe o corpo, Terra! À Terra há-de voltar! “. E a Terra obedeceu.

Quando acordou sentia-se atordoada, tonta. Tinha de ir para casa, não sabia porquê. Quase que não sabia onde. Subiu as escadas, os longos degraus até ao quinto andar tiravam-lhe o fôlego. E já quase à sua porta, sentiu um calafrio quando passou no andar de baixo.

Empoleirou-se no corrimão e viu a porta do rapaz que vivia no andar de baixo, aberta. Da estranheza que o arrepio lhe dera e da curiosidade que tinha sobre aquele homem, voltou atrás e entrou na sua casa.

Patrícia Prata

sábado, 8 de maio de 2010

Conto - parte 4

À rapariga do andar de cima ausentou-se-lhe a voz. Queria gritar, queria vociferar e nada. O desassossego roubara-lhe a súplica da boca, como se uma força maligna não a deixasse socorrê-lo.

Respirou fundo e sentiu um calor que começava no seu ombro até se proliferar na garganta. Ouvia na sua alma um rogo sacro: “Só assim o salvarás.” – Pegou no telefone e chamou a ambulância.

Veio a assistência, vieram os médicos e os enfermeiros e a agitação na escada do prédio.

Ele imóvel, alienado. O corpo parecia sofrer de solidão mas não estava morto. Era como se o espírito o sobrevoasse e a lua o seguisse no trajecto para o hospital.

Ela deixou-o seguir na ambulância: “É familiar?”- Não era. Nem sabia se ele os teria.

“Acho que ele é sozinho.”

Acordou dois dias depois. Os pulsos ligados, um ramo de flores. “Foi a sua vizinha!” – respondeu-lhe a enfermeira aos seus pensamentos – “ que belos olhos azuis ela tem…” – sorria e ajeitava o ramo num vaso já usado pelos anos que o hospital tinha.

“Ah sim? … Não conheço, não reparei…” – olhava para o dia que o vigiava pela janela. Muita claridade, mas daquela cinzenta, daquela que não consegue romper as nuvens e se contenta com vestidos pardacentos, mas ainda assim, um dia cheio de luz. Franzia os olhos porque lhe rasgavam as íris, tapava-as com o lençol e debaixo dele via as ligaduras. E contemplava-as.

“Mas que vizinha?” – perguntava debaixo das mortalhas. Não se recordava de nenhuma vizinha. “Que raio foi ela intrometer-se na minha vida?! Na minha morte?!” – o sangue rompia-lhe as costuras.

Desde que lhe viu as folhas não deixou de pensar nelas. Ficou feliz de o ver regressar a casa, de o ver refazer palavras pelas suas mãos. E cogitava na rapariga do andar de cima. Não percebia porquê. Não sabia porque não a gostava de ver abrandar o passo no quarto andar. Enquanto a via deter-se no patamar pensava para si, para as suas asas: “ Ela que siga. Ela que o deixe escrever.”

E via-o escrever e comia-lhe as palavras como se lhe alimentassem as alas, as suas asas de condão.

Deus perguntou-lhe: “ Mas que tanto olhas para baixo?”.

Não Lhe podia responder, sabia que não podia mas o que sentia era forte demais. Continuava a querer lê-lo. A querer devorar-lhe as palavras.

Patrícia Prata

Conto - parte 3

Sempre fora poeta. Não sabia como tinha começado a enterrar-se nas suas próprias palavras. Tinha crescido a amá-las e quanto mais as conhecia, melhor as sabia usar em seu proveito.

No dia do rio vermelho, a rapariga que vivia no andar de cima à sua casa, viu a porta entreaberta. Tinha sentido um calafrio quando passou no quarto andar e parou.

Empurrou-a de manso. O estrugir da passagem causava-lhe tremores. Chamava-o pelo nome procurando a aprovação da própria casa. O soalho escuro agarrava-lhe os pés. Não parecia consentir a sua entrada.

Tudo escuro. Chegou à sala sem parar de o chamar e puxou os cortinados de veludo castanhos, pesados, agarrados à poeira.

Sempre o tinha achado diferente, reservado mas enigmático, secreto. Conhecia-lhe a voz do Bom dia casual que davam um ao outro nos encontros acidentais nas escadas do prédio. Eram umas escadas antigas, de madeira gasta, rangiam por tudo e por nada, sem razão aparente. Queriam chamar a atenção de quem lá vinha.

A rapariga do andar de cima sabia que eram aqueles fragores que a denunciavam e que, muitas vezes, detinham-no de sair. Ele preferia esperar que ela passasse. Ela ou outro qualquer. Tanto lhe fazia. Não era tolerante aos bons dias que faziam parte da estratégia de convivência. Dispensava.

Do seu andar de cima conseguia ouvi-lo. A ele e à sua música. Outras vezes ouvia-o a ler textos, palavras soltas. Encarava-as assim, soltas, porque a sua voz era inconstante nos decibéis e das vezes que falava mais baixo, ela não sabia se se calava ou se falava para não se ouvir. Houve um dia que o ouviu ler: “Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida se compõe de luz e de sombra.”

Achava ridículo pensar naquilo, mas se Deus lhe pedisse instruções para fazer O Homem Perfeito, um dos predicados seria ler Tolstoi. “ Ele está a ler Ana Karenina…” – e o coração dela minguava até se sentir pequeno demais para o seu corpo.

Nunca vira ninguém entrar na casa dele. Se tinha alguém era fora dali. E se era fora dali não era importante. Pensava constantemente nestas premissas e de vez em quando esboçava um sorriso de alívio: “Ele não tem ninguém…”.

Nos dias que o apanhava tentava dizer-lhe mais, mas nunca conseguia dizer-lhe palavras suficientemente fortes para o prender. Era impenetrável. E ali estava a entrar-lhe em casa. A penetrar-lhe a sua intimidade.

A cada passo que dava o seu coração acelerava. Estava um ar pesado, como se se movimentasse em água salgada. Até a respiração lhe custava. Sentia-se num escafandro, o campo de visão limitava-se a si mesmo.

No quarto, o vazio. E continuou. Foi na casa de banho que se deteve mais tempo. Batia com leveza na porta e perguntava-lhe: “Está aí? Está tudo bem? A porta estava aberta… só queria saber se está tudo bem…”.

Era o silêncio que lhe respondia.

Hesitou, abriu a porta e foi o rio vermelho que lhe sujou os pés semi nus por levar sandálias. A alvura do seu rosto dizia-lhe que a sua alma já tinha deixado aquele corpo. Mas não. Ainda havia vida. A respiração denunciava-lhe a existência.

Patrícia Prata

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Conto - parte 2

As folhas que tantas mulheres lhe gabavam. Havia nele uma provocação permanente a elas. As palavras que lhe saíam dos dedos liam-lhes os pensamentos. Ele sabia. Olhava-as como se fossem alimento e à medida que se consumiam no seu discurso deixavam-se levar como o vento faz às palavras.

Leva-as o vento.

No fundo não as queria dedicar ao vento. Uma alma como a dele não o deveria fazer. Sabia-o. Sentia que o seu amadurecimento renascia mais forte sempre que as palavras que oferecia ao vento retornavam à sua procura. E crescia. E dedicava-as cada vez menos. Cada vez menos.

Mas nessa maturação indolente deixou que o amassem pelas palavras. E comprava-lhes o coração com mel de juras. Não era intencional na dor que lhes cominava. Queria ao mesmo tempo que a afeição que sentia por ela lhes chegasse.

“Que esta insatisfação me cegue! Que me engane no que vejo! Não quero condenar as mulheres à imperfeição…” – ele não era feliz.

Havia momentos que parecia que sim. Quando lhe dedicava as suas madrugadas no papel. Sentia que ela o lia.

Estava quase certo da sua demência mas preferiu não ter certeza. No fundo acreditava que tinha uma ausência de memória. Um rasgo no passado que o protegia. Aquele amor que ele sentia e não sabia por quem.

Mas o olhar que ele sabia de cor, que lhe contava quantas pestanas tinha, quantas estavam desviadas… aquele olhar ele reconheceria em qualquer parte em qualquer hora.

Ela que ele não via, que só lhe sentia o aroma. Ela que ele não lhe sabia o nome, que só lhe sentia o respirar.

Ela.

Foi no dia do rio vermelho que as viu.

Estava estendido na casa de banho amolecido em sangue. Arrumou-lhe as folhas. Arrumou-as e leu-as. Já tinha estado ali noutras ocasiões, não era a primeira vez mas as folhas só as vira naquele dia.

Não era a hora dele. Mas que razão havia para ele se querer matar? “Quem escreve assim tem uma alma grande. Só se for por isso… tão grande que não lhe cabe no corpo…” – pensava para si.

Deixou-lhe a porta aberta. Não era a hora dele.

Patrícia Prata

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Conto - parte 1

O sangue que tinha nas mãos não era de escrever as tantas palavras de amor. Era da raiva aos céus.

Via no chão um rio vermelho, amores incertos e vazios que lhe dilaceravam o coração.

Aquele carmino perseguia-o. Quantas vezes passou naquela ponte e lhe contou os metros de cima até abaixo. No fim de os contar perdia a vontade de lhe conhecer a descida repentina. Dizia que ia tentar aprender a viver mais uma vez.

Era nessas alturas que ele deixava que os pensamentos lhe lambessem as falanges dos dedos. Ficavam húmidos, escorregadios. Não sabia se era de escrever depressa ou se do receio de parar. Sabia que no dia que eles parassem, os próprios dedos o ceifariam: de raiva, de ódio, de prazer! Mas matariam-no!

Escrevia para ela.

Ela que não queria, que não podia, que não sabia.

Escrevia para ela que a via em cada cunhal. Sonhava em meter-lhe as mãos em cima! Pôr-lhe os dedos! Vê-la tão dentro até saborear-lhe a pele do estômago!

Aquele bem-querer excessivo era transportado nos olhares femininos com que se cruzava o seu. Era intenso. Era excessivo porque lhe rasgava as entranhas do corpo na demanda do olhar perfeito.

Continuava a procurá-la em cada beijo que recebia, em cada brado que entendia mas as salivas eram azedas, os aromas pútridos, a pele seca.

Naquele dia sentiu-a. Sentiu a sua presença mais perto, mais encostada a si. Não sabia porquê.

O seu corpo tinha reclamado a saliva alheia. “Homem é homem!” – dizia-lhe o amigo jornalista – “ e homem não pode estar sozinho!”.

Ele ouvia o jornalista e pensava “Esse foi o maior engano de quem arquitectou o cosmos. Porque qualquer animal é mais humano que o Homem. E qualquer Homem é mais animal que os demais.”

Pensava e agarrava-lhe no corpo. Do corpo que batia no seu corpo de animal. Não lhe interessava quem era e mais animal se sentia. Queria rasgar a roupa e penetrá-la. Não lhe conhecia o rosto e não queria conhecer. Não era o dela.

E continuava a puxar-lhe as nádegas. Se estava ali alguém ele não sabia. Eram pernas, eram cabelos e lábios que o comiam mas não era ninguém.

Chegava a pensar que devia ter poupado os vinte euros e procurado em si mesmo o alívio daquela tesão.

Chegou vazio a casa. Vazio de tudo. E não sentia nada.

Fez a barba rija dos cinco dias passados e arranhou os pulsos com a lâmina. Escarnecia-se dele próprio que nem um louco.

Jorrava seiva para cima das folhas escritas por si. Eram para ela.

Patrícia Prata

segunda-feira, 19 de abril de 2010

E o anjo já não era anjo...

E o anjo já não era anjo. O anjo era dor, era carne, era pele suada.
E das palavras que vivia e que lhe enchiam o coração ficou com a memória.
As falanges Dele deixaram de se mover. Dele que outrora o via garatujar.
E como desceu à Terra para O procurar e as palavras perderam-se, morreu na solidão do silêncio.

E o anjo já não era anjo. O anjo era mágoa, era desilusão, era expectativa fracturada.

E das asas de condão que tinha, ficou com as penas.
O papel perdurou branco, sem tinta. A tinta que Lhe saía das garras, porque sentia as palavras no sangue.
E como desceu à Terra e se fez mulher, encarnou, perdeu as asas e as palavras que Ele lhe dava, morreu na solidão rude.

E o anjo já não era anjo. O anjo era corpo, eram pernas e mãos, eram cabelos, eram lábios.
E o corpo que lhe ficou, permaneceu mudo e cego porque já não O lia, porque perdera a sua poesia.
E no dia que desceu à Terra Ele quis subir-lhe pelas pernas e alojar-se.
E anjo morreu. Morreu à espera das mil palavras que Ele lhe prometera e deixou de O ver perdido no corpo que a Terra lhe tinha emprestado.

E o anjo já não era anjo. O anjo era corpo, era pessoa.
E o anjo morreu. Sem palavras, sem asas, sem condão.

Patrícia Prata

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Anjo

O anjo via-o de longe e sentia o ar arrombar-lhe o peito e queria descer à Terra. Mas Deus não permitia. Dizia-lhe que a Terra era sítio de pecado, que o seu coração não suportaria as feridas terrenas e que o anjo seria mais feliz ali.

Foi o anjo cogitar nas feridas de que Deus falava. Tinha reminiscências das dores de quando foi humana e mesmo assim as dores não o aturdiam.

Levantava as asas de condão e não sabia para que serviam. Queria usar os seus braços no aperto dele, na volta do seu corpo. Via-o de cima, de longe, inatingível. E Deus observava-o.

Todos os dias o anjo sentia coisas a que não estava habituado. Não entendia a sede, não compreendia a fome mas se Deus lhe tinha dito que ali seria mais feliz… assentia a Sua vontade.

Queria beber da água que ele bebia e não lhe chegava com as asas, queria comer do mesmo pão e não lhe sentia o sabor… E olhava para ele que continuava a escrever.

Lia-lhe as palavras do céu e sabia que não podia escrever… as suas mãos estavam destinadas a adejarem-se no Paraíso e lia mais… e mesmo sabendo que o Empíreo não permitia, empoleirava-se para ver a Terra e mesmo longe, amava-o cada vez mais. Não sabia porquê mas via-lhe nas falanges a doçura do amor, via-lhe nas letras a candura da paixão e não sabia o que era sentir e não sabia o que era amar.

E na noite de uma prece, na relíquia de duas mãos juntas que pediam a Deus que o salvasse… o anjo desceu. Não o fazia por altruísmo… fazia-o por egoísmo.

Queria amar! E sabia que não podia, sabia que Deus o observava. Mas o anjo já não ouvia os Mandamentos e procurou-o por toda a Terra.

Sentia que ele se escondia nas palavras, que fugia das promessas que escrevia, nas sentenças que regurgitava no papel. E porque não estava habituado, sentiu medo. Procurou Deus na Terra. E Deus disse que já a tinha abandonado há muito tempo. E o anjo sentou-se e esperou. Esperou que as palavras voltassem a encher-lhe o coração. Já não sabia viver sem elas. E esperou. E esperou.

Ao fim do terceiro dia ele foi ter com o anjo e com uma festa na face os seus olhos acordaram.

“Meu anjo! Quanto tempo te esperei! Agora que perdeste as asas para me encontrares, Deus levou-me para cuidar de ti.”

Patrícia Prata

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Só te leio nas entrelinhas

Na submersão dessa água que esconde

Que se põe na escuta e não diz

Que vê o que faço, que sabe o que fiz

Procuro-te por não sei onde

A água escurece mais

Não dizes para onde vais

E as incertezas que são minhas

Porque só te leio nas entrelinhas

Tornam-se pardas, sombrias

Chegam a ser doentias

E cansada de nadar, na água onde não sinto o fundo

Não sei se morreste para mim ou se só estás moribundo

Patrícia Prata

terça-feira, 23 de março de 2010

O Jardim das Delícias Terrenas


Acomodaram-se à volta da fogueira. Quando Jeremy e Maria chegaram o enredo aquecia no sabor do braseiro. Não só de calor vivia aquele enleio de gente. Era o álcool que lhes drenava as veias, a música que lhes entranhava a alma, os clamores de liberdade, a raiva que se soltava e queria falar, o corpo que se afrouxava e se queria despir e as palavras cheias de voz e sem nada para dizer. Tudo se agregava, tudo se misturava. Não havia preconceitos nem com a nudez nem com a demência. A pintura esboçava um quadro de El Bosco. Parecía o Jardim das Delícias Terrenas. Entre o Céu e o Paraíso, entre a dúvida e a certeza estavam aqueles canadianos desinibidos, nos prazeres que o Céu lhes negava e sem qualquer sentimento de culpa não pareciam amedrontados com a visão do Inferno. O seu olhar mostrava que queriam viver tudo o que o céu lhes proibia porque o efémero era o que lhes intimidava o espírito.


Patrícia Prata, in My Second Novel

sexta-feira, 19 de março de 2010

Vil Abandono

Não se ouviam vozes, nem o rasgo do vento na areia, nem a marcha lenta dos répteis. Não se ouviam folhas a romper a terra nem o pingo da fadiga que lhes escorria pela testa. O silêncio mortificava aquele quadro já defunto. A vida que ali podia ter existido já se ausentara há tanto tempo que nem os vestígios da morte se exibiam por terem decoro de tão vil abandono.

Patrícia Prata, in My Second Novel

segunda-feira, 8 de março de 2010

Somos pequenos...

Rita manuseava as suas folhas soltas. Seria bom ir à Ilha de Todos os Santos. O nome da ilha suscitava-lhe um apetite invulgar. A sua imaginação dizia-lhe que aquela lezíria teria algo contemplativo, como se fosse lugar de devoção, quase místico. Não a conhecia. Nem de nome, nem de nada. Não fazia ideia sequer que era sítio conhecido para os surfistas. Aquela ignorância rompia-lhe a consciência. Germinava-lhe a noção que faz lembrar que somos pequenos, que o mundo é grande e que o tempo é pouco. Uma certa danação rasgava-lhe as têmporas: "Porque é que o mundo é tão grande se não o posso conhecer todo?".

Patrícia Prata, in My Second Novel

quinta-feira, 4 de março de 2010

De que falamos quando falamos do mar?

Maria sabia porquê, aquele mar chamava o passado e quando as ondas lhe cruzavam o caminho sentia-se a acender um pretérito já cansado de correr pela sua razão.
"Quando estou no mar sinto-me ausente de tudo e ao mesmo tempo mergulho num silêncio que me liberta do ruído da vida que levo, e este olhar de que falas não é de nenhum segredo que guarde, é da vontade que tenho em abraçar o horizonte e de não ficar somente a olhar. É ao mar que confesso os meus medos, as minhas ilusões e na água limpo as feridas que fecham com o tempo e na troca das ondas recebo sempre um sorriso, mesmo quando vivo entre a mágoa e a paixão. Este é o mar que conheço, que me deixa correr sobre as suas ondas. E esta é a explicação para o meu olhar longínquo, porque me agarro ao passado com tanta força que os meus ossos estalam de cobardia, de não me querer ablaquear e é só aqui que me esqueço e me desprendo e deixo que os músculos se descontraiam."

By Patrícia Prata in My Second Novel

segunda-feira, 1 de março de 2010

Rocha

E a rocha amolece... não é o que parece.
Prostra-se da insegurança e não dança...
... e não corre que a força foge dos pés.
Se a côr lívida tinge a tez, sereno é esse olhar forçado
Que por dentro amedrontado
Finge ser a rocha dura
E murmura... e murmura...

By Patrícia Prata