E o anjo disse-lhe “É mais simples acreditares que sou o demónio do que um anjo que foi enviado por deus. É mais fácil viver-se sem pensar de que lado se está, sem saber para onde se vai nem o que se quer. É mais fácil a resignação aos acontecimentos do que a escolha do caminho que se pretende. Tudo é mais fácil quando não se tem de decidir, quando o peso do nosso decreto nos apodrece a especulação da existência. Mas… sou um anjo. E as asas que carrego são pesadas mas fazem de mim um ser ditoso. Porque eu decidi estar aqui para te contemplar as alas, as tuas alas, porque ainda que não as vejas, eu conheço-as. Sei-as de cor e sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra para me mostrar que tudo é efémero. Mas… eu sou a eternidade e acredito na perpetuidade das coisas, dos actos. Por mais que penses que se deve ignorar o vindouro, é hoje que o escrevemos. É hoje que eu decido sobre o amanhã. É verdade que é hoje que sentimos o corpo florescer mas não é por esse teu desapego da paixão eterna que o mundo vai deixar de amar. Se te abotoas a essa indiferença não chegarás a conhecer todos os ápices. Mas deixo-te voar… assim… sem conheceres as tuas asas… sem saberes que elas existem. Porque sou um anjo. Porque desacredito na vulgaridade da vida e me aparto do trivial. Hoje deixo-te. E na insónia de um anjo que se elevou pelas asas de outrem e que volta ao empíreo, rogo para que descubras que as asas são nivosas, que são alvas…”.
Arantza baixava o olhar. Sabia que o anjo lhe falava de amor. Mas desconhecia o amor. Conhecia a dúvida. E por mais que olhasse para as suas costas não conseguia ver as asas de que lhe falava o anjo. E com mais incertezas se cobria.
“Eu sei. Eu sei que não vês as asas. Mas só as conhecerás quando te aprontares a voar. E é no salto para o desconhecido que a força delas se revelará.” – o anjo deixou-a. Suspirou de melancolia porque conheceu a saudade.
Patrícia Prata