segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Perpetuidade

E o anjo disse-lhe “É mais simples acreditares que sou o demónio do que um anjo que foi enviado por deus. É mais fácil viver-se sem pensar de que lado se está, sem saber para onde se vai nem o que se quer. É mais fácil a resignação aos acontecimentos do que a escolha do caminho que se pretende. Tudo é mais fácil quando não se tem de decidir, quando o peso do nosso decreto nos apodrece a especulação da existência. Mas… sou um anjo. E as asas que carrego são pesadas mas fazem de mim um ser ditoso. Porque eu decidi estar aqui para te contemplar as alas, as tuas alas, porque ainda que não as vejas, eu conheço-as. Sei-as de cor e sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra para me mostrar que tudo é efémero. Mas… eu sou a eternidade e acredito na perpetuidade das coisas, dos actos. Por mais que penses que se deve ignorar o vindouro, é hoje que o escrevemos. É hoje que eu decido sobre o amanhã. É verdade que é hoje que sentimos o corpo florescer mas não é por esse teu desapego da paixão eterna que o mundo vai deixar de amar. Se te abotoas a essa indiferença não chegarás a conhecer todos os ápices. Mas deixo-te voar… assim… sem conheceres as tuas asas… sem saberes que elas existem. Porque sou um anjo. Porque desacredito na vulgaridade da vida e me aparto do trivial. Hoje deixo-te. E na insónia de um anjo que se elevou pelas asas de outrem e que volta ao empíreo, rogo para que descubras que as asas são nivosas, que são alvas…”.



Arantza baixava o olhar. Sabia que o anjo lhe falava de amor. Mas desconhecia o amor. Conhecia a dúvida. E por mais que olhasse para as suas costas não conseguia ver as asas de que lhe falava o anjo. E com mais incertezas se cobria.



“Eu sei. Eu sei que não vês as asas. Mas só as conhecerás quando te aprontares a voar. E é no salto para o desconhecido que a força delas se revelará.” – o anjo deixou-a. Suspirou de melancolia porque conheceu a saudade.





Patrícia Prata

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mas ela não...

Vítor olhava-a. Sabia que por trás daqueles bastiões que ela mostrava ter, o corpo vacilava-lhe de insegurança. Ele conhecia-a.



Sabia que por mais rijo que fosse o seu olhar, era a sensibilidade que lhe habitava o ser.





E como ela gostava de ajudar os outros…! Mas só ele sabia. Só ele entendia que era ela quem mais precisava de ajuda.





E ela que não falava! E ele que só escrevia…





E ela não falava em amor mas o coração transbordava bem-querer.



Ela não dizia “Amo-te” mas ele conhecia-lhe as promessas ocultas.



Não pronunciava “Desculpa” mas ele identificava-lhe a remissão no olhar.





Ela esperava que ele lhe reconhecesse o amor nos seus olhos e que parasse de escrever. Que largasse as canetas e os pincéis e agarrasse pelos braços e a beijasse e a colhesse nos seus galhos!





Já não lhe chegava os poemas de amor que ele escrevia. Já não lhe chegava as letras e as palavras que encontrava nos seus cadernos.





Mas calava-se. Acreditava que um dia ele ia dar sem ela lhe pedir.





Ele sabia. Ele conhecia-lhe todas as curvas dos seus pensamentos, todas as dobras e sinuosidades dos seus entendimentos e sabia que um dia… quando o prazo do seu amor expirasse, ele ia querer largar as canetas e os pincéis, ele ia querer agarrar-lhe nos braços e beijá-la… mas ela não.





Patrícia Prata

sábado, 3 de setembro de 2011

Nas penas dele

E ele disse-lhe como se as penas lhe saltassem do corpo por danação, como se todo o mal o encarnasse naquele dia, naquele minuto, naquele segundo, como se as florestas ardessem no seu canastro todas de uma só vez.



Disse-lhe sem respirar, sem expressão, como se o mundo fosse acabar naquele dia e ele não quisesse saber, como se os pais o matassem e as flores murchassem para sempre. Disse-lhe como se Deus tivesse morrido e acordado no corpo do demónio, como se água secasse nos seus olhos de rio e o amor se esgotasse no coração dos anjos.



Disse-lhe porque a queria magoar. Disse-lhe porque a amava demais para a ver feliz. Desse amor insalubre que pulveriza a individualidade, que trucida a ventura pela sua simplicidade. E disse-lhe outra vez como se aquela cólera a pudesse matar todos os dias até ao final da sua vida, até ao final da vida dele. Porque preferia morrer a vê-la feliz. Porque preferia que as penas lhe caíssem das asas celestes a vê-la sorrir sem ser para ele.



E morreu. Morreu asfixiada nas penas dele.



Patrícia Prata