terça-feira, 23 de março de 2010

O Jardim das Delícias Terrenas


Acomodaram-se à volta da fogueira. Quando Jeremy e Maria chegaram o enredo aquecia no sabor do braseiro. Não só de calor vivia aquele enleio de gente. Era o álcool que lhes drenava as veias, a música que lhes entranhava a alma, os clamores de liberdade, a raiva que se soltava e queria falar, o corpo que se afrouxava e se queria despir e as palavras cheias de voz e sem nada para dizer. Tudo se agregava, tudo se misturava. Não havia preconceitos nem com a nudez nem com a demência. A pintura esboçava um quadro de El Bosco. Parecía o Jardim das Delícias Terrenas. Entre o Céu e o Paraíso, entre a dúvida e a certeza estavam aqueles canadianos desinibidos, nos prazeres que o Céu lhes negava e sem qualquer sentimento de culpa não pareciam amedrontados com a visão do Inferno. O seu olhar mostrava que queriam viver tudo o que o céu lhes proibia porque o efémero era o que lhes intimidava o espírito.


Patrícia Prata, in My Second Novel

sexta-feira, 19 de março de 2010

Vil Abandono

Não se ouviam vozes, nem o rasgo do vento na areia, nem a marcha lenta dos répteis. Não se ouviam folhas a romper a terra nem o pingo da fadiga que lhes escorria pela testa. O silêncio mortificava aquele quadro já defunto. A vida que ali podia ter existido já se ausentara há tanto tempo que nem os vestígios da morte se exibiam por terem decoro de tão vil abandono.

Patrícia Prata, in My Second Novel

segunda-feira, 8 de março de 2010

Somos pequenos...

Rita manuseava as suas folhas soltas. Seria bom ir à Ilha de Todos os Santos. O nome da ilha suscitava-lhe um apetite invulgar. A sua imaginação dizia-lhe que aquela lezíria teria algo contemplativo, como se fosse lugar de devoção, quase místico. Não a conhecia. Nem de nome, nem de nada. Não fazia ideia sequer que era sítio conhecido para os surfistas. Aquela ignorância rompia-lhe a consciência. Germinava-lhe a noção que faz lembrar que somos pequenos, que o mundo é grande e que o tempo é pouco. Uma certa danação rasgava-lhe as têmporas: "Porque é que o mundo é tão grande se não o posso conhecer todo?".

Patrícia Prata, in My Second Novel

quinta-feira, 4 de março de 2010

De que falamos quando falamos do mar?

Maria sabia porquê, aquele mar chamava o passado e quando as ondas lhe cruzavam o caminho sentia-se a acender um pretérito já cansado de correr pela sua razão.
"Quando estou no mar sinto-me ausente de tudo e ao mesmo tempo mergulho num silêncio que me liberta do ruído da vida que levo, e este olhar de que falas não é de nenhum segredo que guarde, é da vontade que tenho em abraçar o horizonte e de não ficar somente a olhar. É ao mar que confesso os meus medos, as minhas ilusões e na água limpo as feridas que fecham com o tempo e na troca das ondas recebo sempre um sorriso, mesmo quando vivo entre a mágoa e a paixão. Este é o mar que conheço, que me deixa correr sobre as suas ondas. E esta é a explicação para o meu olhar longínquo, porque me agarro ao passado com tanta força que os meus ossos estalam de cobardia, de não me querer ablaquear e é só aqui que me esqueço e me desprendo e deixo que os músculos se descontraiam."

By Patrícia Prata in My Second Novel

segunda-feira, 1 de março de 2010

Rocha

E a rocha amolece... não é o que parece.
Prostra-se da insegurança e não dança...
... e não corre que a força foge dos pés.
Se a côr lívida tinge a tez, sereno é esse olhar forçado
Que por dentro amedrontado
Finge ser a rocha dura
E murmura... e murmura...

By Patrícia Prata