
Acomodaram-se à volta da fogueira. Quando Jeremy e Maria chegaram o enredo aquecia no sabor do braseiro. Não só de calor vivia aquele enleio de gente. Era o álcool que lhes drenava as veias, a música que lhes entranhava a alma, os clamores de liberdade, a raiva que se soltava e queria falar, o corpo que se afrouxava e se queria despir e as palavras cheias de voz e sem nada para dizer. Tudo se agregava, tudo se misturava. Não havia preconceitos nem com a nudez nem com a demência. A pintura esboçava um quadro de El Bosco. Parecía o Jardim das Delícias Terrenas. Entre o Céu e o Paraíso, entre a dúvida e a certeza estavam aqueles canadianos desinibidos, nos prazeres que o Céu lhes negava e sem qualquer sentimento de culpa não pareciam amedrontados com a visão do Inferno. O seu olhar mostrava que queriam viver tudo o que o céu lhes proibia porque o efémero era o que lhes intimidava o espírito.
Patrícia Prata, in My Second Novel