sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

(Re)visita

 

É sempre aqui que me encontro,

Neste caminho areado.

Não preciso de sinais,

Nem de passadeiras.

Não preciso de sentir o cabelo penteado

Nem de saber de cor as Janeiras.

 

Aqui não tenho medo que a roupa me assente mal.

Não quero saber se o buço está feito,

Se deixei o jantar preparado,

Se tenho um propósito ou só um fado.

 

Aqui só sinto.

Sinto sangue.

Sinto ar.

Sinto o rastilho a incendiar.

O arbítrio.

O real.

Sinto-me o ponto cardeal.

Tudo está bem.

Tudo está certo.

Como se o azul estivesse aberto.

Só para me acolher

Junto com o seu bando.

 

Que eu nunca mais me volte a esquecer

De me vir ver de novo, de vez em quando.


Patrícia Prata

sábado, 15 de janeiro de 2022

Cabras

 

Neste atalho

Oiço o que me circuita.

Vou-me içando.

Vou tombando.

O carreiro é meandroso… comentam.

“Não julgas como é o globo.

Tu lascas deduções.

Produz.”

Mas se este caminho é meu,

Se estes joelhos moídos são a razão do meu andar,

Se estas dobras lesionadas dos meus braços são o motor das minhas fibras,

Porque não me posso erguer nesta montanha assim como julgo?

Faz-me falta cair cem vezes.

Ou sem vezes mais cairei.

Não importa.

As cabras sempre chegam á pua.


Patrícia Prata

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

É só cá dentro que me sinto cá fora

 

No escuro da noite,

Vou em passos espreitando o caminho

Nessa ideia de cidade que tenho…

Nesse sonho em que me vejo sozinha

Vou sem medo.

É só quando abro os olhos que a realidade me afeta

E é só aí que arrepio o carreiro.

É só no dia que duvido das curvas.

Mas também é só no medo que me vejo a coragem

É só no vento que me sinto a pele.

 

No escuro da noite,

Vou em silêncio, curiosa

Nessa ideia geométrica da vida.

Vou sem medo.

É só quando as unhas rasgam que a vontade de correr chega.

E é só aí que se me gastam as solas

É só no frio que visto aconchego.

Mas também é só no escuro que vejo a luz.

É só cá dentro que me sinto cá fora.


Patrícia Prata