sábado, 8 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 02/08/2009 - 11º Dia – Ulaan Bataar (+7h que em Lisboa)


Ulaan Bataar é a capital da Mongólia.


Quando chega a Dezembro, começo a pensar nas minhas viagens do ano seguinte e tenho sempre alguns destinos já pensados, mas nunca eu pensei ir á Mongólia. Por razão nenhuma em especial. Mongólia?! O que há lá?!
Pois bem, foi uma surpresa agradável.


Chegámos ao centro da cidade, onde uma praça enorme pretende revelar que o seu povo é grande. Mostram, profundo respeito pela religião mas segundo o nosso guia local, são pouco praticantes de budismo.


A cidade está, praticamente, em construção. Vêem-se muitos edificios de habitação a erguerem-se entre as ruas e aparentam ser de qualidade. Por entre as gruas, aparecem os edificios antigos que parecem cerzir a cidade. Os carros movem-se em consciência automática, porque não há sinais, nem passadeiras, nem nada que nos faça lembrar as regras a que nós ocidentais estamos habituados. Mas não é preciso! Aqui funciona. Ninguém se atropela e sobrevivem, perfeitamente, á confusão.


É um pulsar do mundo com a batida diferente do nosso.


Seguimos em direcção ao miradouro. O miradouro tinha mais de 300 escadas e levava-nos aos olhos da cidade. Comecei a subir as escadas ao ritmo da descida do oxigénio. Pareciam hesitantes os que lá foram: apetecia chegar lá a cima sem ter que subir as escadas pois sob o calor seco que se fazia sentir, estas dúvidas eram legítimas.
Ao mesmo tempo que eu, subiu um senhor. Viaja sozinho. Costuma juntar-se ás irmãs e a amiga delas para fazer quarteto. É mais fácil… Um trio tem sempre um lugar vazio.


Não o conheço… é daquelas pessoas que passa despercebida. Que não deixa pegada… A única coisa que me lembro dele são os ténis que usava. Achava-os giros e modernos. Não sei porque recordo isto.

Faz-me lembrar uma amiga minha que realmente repara nessas coisas: o que é que a pessoa calça. Sempre que conhece alguém, nomeadamente, um rapaz que lhe interessa, repara no género de sapatos que usa. Eu, de facto, sempre ouvi dizer que o calçado revela muito das pessoas mas tal observação passa-me ao lado. Geralmente não julgo ninguém pelos sapatos mas fico intrigada como me ficou na memória este senhor pelos apetrechos que levava calçados.


Outro casal subiu. Muito simples e humildes. Têm uma ternura nos olhos que me enche o coração. De vez em quando um despique entre eles passa as paredes da cabine… mas um despique saudável, chegam a ser engraçados. Parece levarem a vida com leveza, sem grandes dissertações ou raciocinios. Vivem-na, ponto.


Cheguei lá a cima e apesar de eu estragar a média de idades não interessa nada, porque cheguei lá tão ofegante e cansada como qualquer outra pessoa com mais idade. O calor sugou-me a energia. Respirei fundo e olhei em redor, era um monumento em memória dos combatentes da guerra, mongóis e russos, lado a lado.


Quando olhei, tão alta que estava, sentia-me como se tivesse ido colocar a última estrela no cimo da árvore, para lhe dar aquele brilho especial. Que planicie verdejante se estendia naquele mapa! Os telhados coloridos brincavam na grama como se fossem morangos prontos para ser colhidos. Parecia que a Primavera tinha chegado em altura inesperada.

Do queixo da cidade, via-se o buda no seu regaço, que aparece no meio do nada, porque o seu meio envolvente são pequenas casinhas baixas, o que faz dar mais ênfase ao gigante dourado.

Descemos até ele. Um cheiro a incenso no ar marcava o território sagrado. Aproximavam-se com ar de respeito e agradecimento… um agradecimento pela vida e não tanto com o ar de angústia, do querer pedir algo em oração. Não sei se é próprio do ocidental ou do católico… a vida é miserável, nada é suficiente para agradecer e pedimos tudo até que Deus fique com os bolsos vazios.


Uma senhora do grupo, pelo qual sinto uma grande admiração, disse-me numa certa ocasião, uma frase muito bonita: “Deus não ficou pobre com o que já me deu e não ficará com o que ainda me vai dar”.

Fiquei a pensar naquelas palavras e creio, também, pensar da mesma forma até porque acredito que Deus não está aqui para nos castigar. Se os católicos dizem que Deus é nosso pai, que razão teria ele para nos prejudicar? Se um pai da terra só quer ver os seus filhos bem, não seria o Pai do Céu a querê-los mal. Não sei ainda que fé é a verdadeira… não sei se interessa muito. Eu sou católica, cresci a acreditar que existe um Deus e se nos criou á sua imagem, deu-nos o livre arbitrio para fazermos as nossas escolhas e o retorno depende de nós porque apanhamos com duas mãos o que com uma damos.


A fé revela a força de uma pessoa. Os bravos que não acreditam em nada ou não dizem verdade ou um dia quebram.

Seguimos para o palácio de Inverno.

O calor seguia-nos como se fôssemos flores para abelhas, fazendo-nos transpirar e molhar as t-shirts. A maior parte tinham sido compradas já nesta viagem. Já se viam t-shirts de Moscovo, da Praça Vermelha, verdes, amarelas, um misto colorido de “salada russa”.


Não estava muito conservado este Palácio… as cores outrora fortes estavam esbatidas do sol e a madeira comida pelos bichos.

Seguiamos o nosso guia: um rapaz alto com rosto autêntico de mongol. Olhos rasgados e sorriso simpático, falava espanhol e tentava falar português.
Quando dava as indicações soltava uma gargalhada, de vez em quando, quando emitia palavras portuguesas e reconhecia que não as conseguia pronunciar muito bem.
A certa altura perguntou-me o nome e disse que era um nome muito bonito mas eu não consegui retribuir-lhe o elogio porque o seu nome era tão dificil de pronunciar como estranho para os meus ouvidos.
O Palácio não era só um edificio, tinha várias daquelas casinhas vermelhas orientais cerzidas de telhados bicudos e debroados a dourado. Quando entrávamos dentro dessas casas corria uma aragem fresca e aliviava-nos o calor. Pensei que fosse ar condicionado colocado lá para apaziguar os turistas que por lá passavam mas, segundo o guia, aquele ar fresco era próprio das casas, tinham sido feitas de forma a serem frescas no Verão e conservar o calor no Inverno.
Os pátios levavam-nos de um edificio a outro, supostamente sem nenhuma regra mas existiam umas setas que tornavam o itinerário mais rigido, para que não nos esquecessemos de visitar nenhuma casa mas como era de esperar dispersamo-nos. Dividimo-nos, sem intenção aparente, em pequenos grupos, encontrando-nos entre nós numa ou outra casa.


Cruzei-me algumas vezes com o compadre do Sr. Alegre que também me tirou fotos ao longo da viagem por sua iniciativa. De inicio mostrava-se um pouco mais distante, ou pelo menos não tão dado, o que revelava mais facilmente que só se dá se gostar mesmo.

Gosto de pessoas assim, genuínas, não faz fretes, o que é importante e completamente honesto para toda a gente.


Como o invejo! Tantas vezes que me falta a coragem de dizer: “Tu és uma seca! Se me desamparasses a loja fazias melhor! Estás-te a repetir, essa história já me contaste 3254 vezes!“. Quantas vezes?! A muita gente! Mas alguma coisa em mim receia magoar alguém e deu-me uma capacidade de resistência que por vezes não queria ter… faz-me perder tempo.


Depois de almoço fomos a um espaço de criação textil. Era um espectáculo onde, para além das danças e músicas tradicionais mongóis, houve um desfile de alta costura que conjugava a sensualidade das roupas orientais com a beleza da sua tradição.


Estávamos a precisar deste momento de relax. Apenas beleza… sem grandes explicações teóricas, apenas ver e sentir.

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