sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Fingir

Pausa, pausa... finjo que dela não preciso,

Engano-me a mim mesma, com mestria e arte.

Mas no silêncio, onde o tempo é indeciso,

Revela-se a verdade: que o meu peito a resguarde.

 

Finjo que a correria é o meu eterno fado,

Que na turbulência, o meu ser encontra abrigo.

Mas na ausência da inquietude, no caminho sossegado,

A pausa infiltra-se, subtil, como antigo amigo.

 

Nesse fingir, sou a poeta de cada dia,

Escondo a fome de um descanso tão humano.

Finjo não querer essa pausa, finjo bem, mas é engano,

Pois nela, secretamente, a minha alma se alivia.

Patrícia Prata

Pausa

 

Pausa.

Mesmo quando o tempo insiste em galopar.

Mesmo sob as vozes que clamam que é na corrida que nos definimos.

É na pausa em que paramos, neste silêncio cardíaco, que o mundo se desdobra.

Aqui dentro é onde tudo acontece.

Patrícia Prata

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

O ritmo dual de quem escreve

 

Não sei se reconheço o que escrevo assim desta forma... a falta de tempo para ponderar deixa-me ansiosa. Cada coisa tem o seu próprio tempo. Como ousar não respeitar o tempo que cada uma demanda? Se o que redijo é sempre ponderado... sempre lhe é concedido o devido tempo. Talvez seja necessário pausar antes de deixar fluir, talvez seja um erro, talvez permitir que a corrente rompa as comportas seja surpreendente, mas, sim, existe alguma reserva em mim. Este interstício, que decorre desde que exprimo o que penso até que se materialize no papel, é o tempo preciso para a colheita do fruto maduro. Menos tempo, e o fruto estará imaturo. Mais tempo, e o fruto perecerá. Neste ímpeto de escrever de improviso, parece que se espera que a vida inteira se dê nesse intervalo, nesse instante. Eu prefiro aguardar pelo tempo devido das coisas e pelas coisas no seu devido tempo.

Contudo, há beleza nesta pressa, nesta faísca que só a urgência pode acender. Há verdades que só emergem sob a pressão do momento, sem o lapidar do tempo. Na diligência da expressão, talvez haja uma autenticidade que a deliberação tende a polir em excesso. O coração, ao ditar sem filtros, desvela mistérios que a razão, com o seu ritmo meticuloso, muitas vezes oculta. E assim, nesta dança entre a precipitação e a paciência, entre o arrojo e a ponderação, a escrita transforma-se num campo de batalha onde tempo e tempo se enfrentam – o cronológico e o interior, o marcado pelo relógio e o ditado pela alma. Talvez já devesse saber, que quem escreve, deve ser um artífice capaz de equilibrar estes dois mundos, sabendo que no teclado ou na caneta residem tanto o imediato quanto o eterno.


Patrícia Prata