quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A minha vida na tua


A minha vida na tua

Foi hoje que me disseram para escrever o que me magoa.
Que eu nem sei o que é...
Por mais que pense, tenho uma ideia perdida... lá bem fundo,
Naquele canto que ninguém quer ver,
Nem eu vou lá espreitar.

Foi hoje que com candura me disseram para resolver a dor.
Que eu já nem lembro onde é...
Por mais que tente, sinto qualquer coisa... lá bem longe,
Naquele ermo âmago que ninguém diz que tem,
Neu eu vou lá lembrar.

Mas eu sei. Se forçar as memórias...
São indistintas mas fazem-me suar.
Porque é mais fácil sentir raiva do que tristeza.
Porque é mais fácil gritar do que chorar.

São sempre as vezes que te quero perdoar.
E reconto-me a nossa história.
E vejo-te a dar o que sabes.
E sei que o que dás é tudo o que tens.
Mas não te posso desculpar.
  
Sei bem que a tua vida foi dura.
Também tu vives na mágoa da vida.
Essa vida antes de mim e antes de ti.
E narro-me a tua amargura...
Mas não consigo relaxar.

Queria embalar-me na tristeza.
Mas prefiro esta dureza.
Porque o corpo rijo me diz
Que enquanto choro me mostro
Que enquanto endureço pareço feliz.

domingo, 9 de setembro de 2018

Dias de luto


Escrevo sem palavras que correm
Essas são duras para quem é vil
Não encontro compaixão em mim
Não encontro, certamente
Dias que dizem não, sem querer que me fuja este chão
Que junta gente e afasta pessoas
Sei que o corpo aqui está e jaz na pedra fria,
Nesta nua mancebia

E sem parar, porque o mundo não pode, morrem.
E aí vejo-as a sair do covil.
São elas o verdadeiro Caim.
E com pózinhos de perlinpimpim
Saem brilhantes como um doido sabichão
Que me mostra as gentes boas
E do joio sai quem um dia
De palavras doces me enchia.