quinta-feira, 26 de junho de 2014

Virga-férrea

Se te perco… se te perco são desses pés!! - disse-lhe. És grotesco, sabias?
Ele olhava-a de tal forma pesada que ... lhe deprimia o focinho – sabia ele.
Queria bater-lhe. Queria cilindrar-lhe o crânio debaixo dos seus pés grotescos!

São pés! São pés puta! – pensava ele antes de lhe britar a carranca. (...)

Patrícia Prata

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Decifrar destroços



Eu que decifrava destroços

Galguei folhas para soletrar convenções

Deixei ossos na estrada, esmaguei canções

Prometi que me encaixava numa banda desenhada

Servi jogos de compromissos, riscos, esquissos.

Patrulhei afamada venda, levei-te daqui para fora

Deixei-te à porta, na tarde que demorava,

Disse que te amava como quem devora

Calcei-te os pés nas minhas meias e de dentro da guitarra

Toquei.


Patrícia Prata

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Três

Eram três.
Permitam-me que fale assim sem quebrar, sem rosto, sem voz.
Com uma cana nas mãos, enche o bico com grãos… grão a grão…
Falta o pão, seca a boca, fica louca sem roupa, sem mais tecido na pele…
Procura.
De manhã sai para a rua, nua… como sempre nua. Não! Não é da lua! É da ausência.
Esta permanência.
Fica castigada. Não foi a mãe nem o pai. Foi a nação.
Presa por sentir que perdeu a mão. A mão que trabalhou, cavou, semeou, colheu, cedeu, deu, viveu… mas não morreu.
Está viva. Acordada.
Então porque lhe devolvem nada? Fecham portas. Portas dela, fecham também a janela e a ela…chamam de sorna…
Como? Se lhe negam a jorna…
Levam o puxador para os grandes, com lustro dourado e suor. Estupor!
A culpa desses três diria oca, desculpa hipócrita, um murro na boca, um estouro no cú! Foste tu!

Foste tu regência! Que me tirou o emprego e a carteira enquanto falavas de fado para eu não perceber os porquês, enquanto tu culpavas aqueles mesmo três!

Patrícia Prata 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Preliminar derrapagem

Forte, cheia,
Cansada, desocupada,
Rude enfreada.
Corre cavalgada.
Lê pela madrugada, cresce esperta, dedicada.
Arregaça pulsos, sobe montanhas.
Sem manhas.
Cem manhas. Descobre que nascida é criada. Conta ser gente, instruída, ser gente educada.
Conta ter papéis na carteira, memória alargada.
Não comete erros. Sagaz na descoberta. Liberta.
Corre sem medo, cai rochedo, quebra picos, sai ligeira, sem eira.
Primeira.
Preliminar na derrapagem, conta tudo, conta a rodagem.
Triste, foge da pureza, que é contar nada, pega nas teclas em seus dedos. Troca com elas segredos.
Privada da alegoria que a vida prometeu um dia…

não contar, não fazer falta … andar para sempre de gola alta.

Patrícia Prata