sexta-feira, 29 de julho de 2011

Corpo Desabitado

Foi lá que expirou a afecção. Debelou-se como se nunca tivesse existido. Não sabia se do corpo desabitado em que ficou se das rimas que já não podia compor. Era uma indiferença quase dada nas suas mãos, errante em memórias recentes mas já débeis do fracasso. Eram calos e crostas que caiam sem que o seu cortiço pedisse. No chão via os despojos da reminiscência que outrora guardara com afecto. Mas pouco lhe dizia. Tão pouco que nem sabia porque razão a sua mente tinha escolhido o desdém como opção. Talvez da consciência do cimélio que era e que foi desvalido ao acaso.



Sim. Houve um momento em que o vilipêndio ceifou o amor. Houve um momento em que acordou do ardor e viu que nada restava.



O fogo extinguiu-se.





Patrícia Prata

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Era mais

E chegou cheia de si. O mundo parecia desembrulhar-se em cadernos escritos. As palavras galgavam dos fólios como se exigissem permanecer no sopro das vozes que as liam. Eram grandes e desmedidas como a sua boca. Mas eram palavras honestas, com uma força vulcânica que lhe saia do interior do seu físico afunilado. Sorria porque ignorava o vindouro. Era hoje que sentia o seu corpo florescer de linhas tortas por textos incertos aos olhos do globo. Não fazia ideia de que lado estava o diabo nem se deus a conhecia. Queria deserdar-se dos negalhos convencionais. Sabia que se agigantava em si própria um conhecimento mais profundo da sua alma quanto mais se apartava do trivial. Sentia que quanto mais vivia mais tinha o direito de desacreditar na vulgaridade da vida. Era mais. Era mais do que o ser de alguém. Era mais e feliz.



Patrícia Prata