A miopia de Francisco era intencional e era dolorosa, tornara-se numa doença sem retorno. A sua miopia iria levá-lo à permanente cegueira, à infelicidade total. No seu inconsciente sabia que nunca ia ser feliz, mas preferia viver na ilusão de um dia encontrar a mulher que o preenchesse, preferia que a fraude da sua vida cobrisse os seus olhos, porque a vergonha que o atormentava era terrivelmente pesada para os seus ombros e não suportaria o peso de admitir que a sua felicidade estaria nos braços de um homem. Gostava, realmente, que ele conseguisse ser feliz, que o medo que o afrontava rompesse as correntes que o impediam de seguir o seu verdadeiro caminho mas a defesa automática e inconsciente que transportava na sua mente, rejeitava todas as motivações e emoções que o levariam a tomar fosse que passo fosse nessa direcção e a repressão conduzia-o para baixo, tão fundo que já nem ele próprio ouvia a sua voz interior. Estava abafada pelos seus receios e medos e o seu enterro já tinha sido há tanto tempo que as letras lapidadas na sua mente já tinham desaparecido, já nem se lembrava do que se tratava. E como era uma intenção solene, tinha decidido buscar o pote de ouro no fim do arco-iris, num dia sem chuva, num dia seco. Caminhava e, no seu cepticismo sabia que nada ia encontrar mas a teimosia em contrariar-se, alimentava-lhe a força das pernas e continuava a andar, e andava, andava. Num caminho sem volta mas sem destino.
Patrícia Prata, in My First Novel
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