segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Deixava-o morrer aos bocados

Aqueles fólios contundidos no chão traziam-lhe sabores e aromas que desconhecia. Sentava-se a lê-los e sabia que não podia. Mas as palavras que deixava nos papéis pareciam promessas e juramentos. Todas as folhas tinham cheiros diferentes e cores que o levavam para longe daquele quarto. Quantas vezes fugia do empíreo só para vir ler os seus poemas, só para sentir as suas sentenças e juras… Havia dias que parecia obcecado em olhar para baixo, queria vê-lo escrever mais, soprava-lhe aos ouvidos para que fosse para casa aprisionar-se ao papel. Não era a atitude mais certa para um anjo, chegava a conceber o egoísmo como um estado de espírito que se ganhava com a convivência humana. A obsessão pelos seus textos era tão intensa que muitas vezes se esquecia de o salvar. Deixava-o morrer aos bocados, até se lembrar da sua missão.

Houve alturas que descia sem permissão, sem o beneplácito divino. Descia porque o queria ver. Ficava horas empoleirado sobre o pulso de Vítor. Gostava de o contemplar a enrolar os dedos nas folhas e de sujar as mãos com a tinta que parecia sair-lhe dos olhos. Saboreava o momento de ver as letras enroscadas umas nas outras até formarem palavras, até se amestrarem em frases e em longas narrativas ou em demoradas poesias.

Patrícia Prata

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

No meio do vulgo

Queria chegar a casa, atirar as coisas ao acaso para o chão, deixar o vestido enovelado e os sapatos caídos, queria que a flor se perdesse nas escadas e que os seus pés sujos da lama que tinha pisado, sujassem o soalho. Queria caos, queria força e vento a soprar-lhe na cara e pessoas a perguntar-lhe o que ela tinha e o cabelo desgrenhado e uma garrafa de vinho partida, papéis a voar pelo ar, canetas espalhadas na cama, tinta azul a pintar-lhe as mãos, queria gritos a tapar-lhe os ouvidos e limpar o nariz à camisa, queria pôr os dedos na boca até sentir o estômago saltar! A vida era vida todos os dias mas era pouco e por mais que tentasse agarrá-la, parecia que lhe fugia pelas estreitas linhas da distracção. O homem que vira no meio do vulgo tinha isto e mais no olhar. “Tinha coisas! Coisas que lhe saíam pelos olhos!” – de certa forma sentia que o tinha deixado fugir, que tinha perdido qualquer coisa, sentia um peso desconhecido, uma sensação de que lhe faltava qualquer coisa… como quando se sai de casa e se se apercebe no momento de fechar a porta que a chave ficou dentro.

Patrícia Prata

Rosa-dos-ventos

Vítor esperou que a dança descansasse, que os pés adormecessem sobre a rosa-dos-ventos e que a neblina cobrisse a sua insegurança. Queria falar-lhe, queria saber quem era aquela alma que ele tão bem conhecia, de quem eram os olhos azuis e maduros que o espiavam por trás do embuço. Apesar de tudo sentia-se feio, malparecido. A barba tinha-lhe crescido até se encrespar em grumos irregulares. O nariz inchado dos soluços e as lágrimas secas, deixaram-lhe a pele salgada.

Levava um chapéu negro que do uso estava ruço, velho. Cobria-lhe todas as expressões da face e era isso que Vítor queria. Que as rugas do seu rosto não revelassem a que sabia a sua alma e de que cor se vestiam os seus pensamentos. Sabia mesmo assim que o aroma da sua dolência era amarelo. Amarelo morto, podre. Quanto mais tempo passava mais decomposto ficava. Mesmo assim… feio, oculto por trás do chapéu e da cardina melancólica que arrastava nos pés, decidiu avançar o seu corpo pesado e desengraçado.

Patrícia Prata

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Charco de lágrimas

E ficaram os dois a olharem um para o outro, separados por uma turba de gente agonizada pela violência do corpo de Vítor. Arantza perplexa com a situação e Vítor embaciado no seu estado de quase alienação. Só queria chegar a ela. Queria dizer-lhe coisas absurdas, mas queria dizer-lhas. Que a adorava, que a amava, não sabia. “Mas porque é que não lhe posso dizer que a amo? Se é loucura amar alguém que se viu pela primeira vez, maior é a loucura de não voltar a amar! Ah! Quero que este amor me rasgue por dentro! Já não sou quem fui, não serei quem devia ser, não sei porque corro nem porque escrevo, não sinto nada na pele, nem na boca que me sabe a vinagre, nem as mãos que me esmagam a tesão! Ahh! Não sinto o suor nem as folhas finas de papel que me cortam os dedos!! Não sinto os dentes que me mordem de raiva nem os gritos que me tornam surdo! Não sinto o intestino a revolutear-me as vísceras nem o charco das lágrimas de quem magoo! Não vejo nem o dia nascer nem a noite embalar-me o sono! Ai! Prefiro arrancar as unhas dos dedos a viver neste inferno! Que tenho eu a perder se lhe disser que a amo? Talvez nunca mais possa estar tão perto do céu como agora…talvez nem a morte me queira para ela, nem deus nem o diabo, nem os cabrões dos gnomos!”

Patrícia Prata

Viver entre o excesso e a escassez

Havia os loucos que caminhavam a seu lado e os que a apanhavam no encalço para admirar a sua perfeição.

Quem a via não teria coragem de a achar louca. Talvez excessiva, talvez exagerada mas nunca demente. Quem a olhava tinha a sensação de viver curtas-metragens, umas a seguir às outras, cheias, novas, curiosas, atraentes, como se o último episódio que vivia nada tivesse a ver com o seguinte; como se a sua vida fosse um manto de retalhos, uns melhores que outros, uns maiores que outros, uns com mais sabor, com mais aroma, com mais ou menos força, com mais ou menos alma mas cheios, a transbordar e a derramar tagalhos a cada passada. Era assim que a viam, era assim que queria viver: entre o ter tudo ou perder tudo.

Patrícia Prata