segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Resignação

"Tinha alguma amargura entranhada nos interstícios da alma e escondia-se no frenesi da vida que levava para não ter tempo de pensar nas suas penas.
Deixara de acreditar no afecto quando encontrou o amor e ele se alvorou por não ser aquilo que idealizava. Cresceu a admitir que o amor era a convergência de duas pessoas num único caminho, sem desvios, atalhos ou ramais. Não havia espaço para o espaço de cada um, haviam cedências e transigências que culminavam num único ser homogéneo e esquecendo-se que todas as pessoas são diferentes, que as suas necessidades são distintas mergulhava numa solidão quase insular.

Relacionava-se com os homens à espera de encontrar esse ser que se liquefaria na quimera de um amor sem defeitos. E nessa incessante demanda cruzava-se com outro tipo de malfeitores, eram os perversos do coração que por cada beijo trocado, ganhava uma chaga profunda, um estigma que aos olhos dos outros não se via. Servia apenas para erguer a incredulidade, para alimentar a desconfiança e a suspeita de que na vida a felicidade é a resignação."

By Patrícia Prata in My Second Novel

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Contra todas as probabilidades

Contra todas as probabilidades... viver depois... Se Deus me dissesse onde vou estar depois da efeméride funesta ... podia decidir se queria voltar a sentir ar nos pulmões. Assim morro todos os dias um pouco, à espera que a decessa me venha buscar.

Contra todas as probabilidades... sigo em frente por acreditar que a indulgência cobre, em certas ocasiões, o mundo e deixa que a Primavera renasça sem que as folhas secas de Inverno se agarrem ao chão.

Contra todas as probabilidades... vivo os dias como se fossem o primeiro de muitos outros, como se a vida não me fugisse. Porque o medo que tenho que o perdão não me contemple mais o olhar é tão forte como a vontade que o tempo passe sem o notar.

Contra todas as probabilidades... falo com a boca fechada, porque a dor no peito é tão forte que me come as palavras.

Contra todas as probabilidades, engulo o medo e espero que a noite passe depressa, que o sol volte com as flores da Primavera e que as folhas enregeladas pelo frio do inverno descubram que o seu lugar é debaixo da terra...

By Patrícia Prata

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Provação

Como vôo nas palmas da tua mão, num consenso irregular, numa força regida pela batuta que me rege...
Se pudesse... queria não pensar... queria adiar esta provação...
Só me elevo na onda das partituras,só me esqueço quando abro o ouvido... senil do medo... perdido do peso...
A inconsciência que me bate à porta e me relembra a dor do fardo...
Pesa-me,
Castra-me,
Se pudesse... queria não pensar... queria adiar esta provação...
Ai as forças que me faltam... não sei se posso caminhar... São as correntes do pecado...
Se os olhos se abrissem com leveza bradava aos céus...
E mesmo quando o sol se mostra não consigo ver a luz!
Esta cegueira intemporal deixa azedar-me a alma.. Será que a tenho? Se destes caminhos não saiu quebrada, não deixou o meu corpo atrás, sem explicar?
As veias insípidas já não trazem sangue, porque o demónio bebeu dele e se embriagou...

Se pudesse... queria não pensar... queria adiar esta provação...

Patrícia Prata

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Estilhas das memórias

"Rita era mais insegura do que aparentava. Simplesmente queria tudo o que as outras mulheres queriam mas ficava à margem, esperando que a vulgaridade não a apanhasse. Sonhava com a paixão mas não se descalçava para pôr os pés na areia e quando chegava a altura de gritar, engolia a voz com medo que o mundo a ouvisse.

(...) Com o tempo revelavam-se-lhes os segredos como manigâncias inocentes, sem querer pôr a descoberto as suas fragilidades e incertezas, desenhava a cera um destino que não importava mas a gordura que lhe ficava nas mão revelava que no fundo queria saber.

(...) Rita colocava o olhar numa utopia que lhe servia de dossel ao seu imaginário, suspirava estilhas dos momentos que tinha gravado na sua memória. Já não sabia se tinham acontecido ou se tinham abraçado as suas histórias nas folhas de papel soltas que levava na pasta."

Patrícia Prata, in My Second Novel