sábado, 8 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 29/07/2009 - 7º Dia – Krasnoyarsk (+7h que em Lisboa)


O dia começou cedo.


Acordámos com menos uma hora que o dia anterior. Mesmo assim o sono não tomou conta de mim. Queria que o dia me revelasse que valia a pena viajar porque a expectativa cresce sempre que saio do comboio para conhecer uma nova cidade.


É acreditar que a “bolinha de mercúrio” vai crescer mais um pouco.
Esperámos, novamente, pelo avô e neto. Mais um caso neste comboio.
Quando parecia insólito um caso, eis que aparecem dois. Dois netos com seus avós. Duas gerações tão distantes no tempo mas tão próximas no espaço. Um espaço que pode ser desconfortável de tão próximo.


A diferença ainda é maior que a minha e o miúdo, tão orgulhoso de acompanhar o avô. De vez em quando via-se uma pontinha de cansaço, de paciência a esgotar-se… mas como o compreendo… E sei que nada disso poderá significar uma maior ou menor afecto.
O avô fazia-me soltar gargalhadas. A espontaneidade dele fazia-me rir… haviam vezes que de repente se ouvia a sua voz a dizer “SAL!” ou “BRANDY!”… aparentemente do nada ter-se-ia lembrado que queria aquilo imediatamente.
E lá vinham eles os dois, de passo atrasado, no fundo do comboio… o menino de 17 anos com o avô de 74.
57 anos de um hiato profundo e de um carinho visivel.


Antes de chegarmos reparei que a paisagem se modificou durante a noite. Ganhou uma vida diferente. Ganhou montes e pessoas, casinhas engraçadas de madeira e estradinhas e sinos e cãezinhos a correr, meninas a dançar, cavalos a passear… Era um presépio vivo!


Eram quase seis da manhã! Em Portugal, lembrei-me que se estariam prestes a deitar. Levantei-me e fui para a sala dos chuveiros para tomar banho.
Esta altura do dia faz-me lembrar os acampamentos em que participei. Recordo-me do frio que apanhava para tomar banho. O que acontece aqui é que a água é muito pouca, sai um fiozinho, quase que tenho de chapinhar para levar água ao corpo. Depois ensaboo-me e espero que a água volte a aparecer.
Estou a começar a gostar deste ritual. Pelo menos sinto sempre uma expectativa em relação ao banho… É engraçado como podemos, facilmente, relativizar as coisas e apercebermo-nos como temos a vida facilitada. Um banho, que é uma coisa tão banal para nós, pode tornar-se numa incógnita todos os dias.. Parece quase inconcebivel…


Acabando o banho, volto ao camarote para apanhar o meu casaco. Tenho de ir da carruagem 6 até á 11 que é onde fica o restaurante. Cada carruagem é separada por duas portas pesadas e mais duas portas finas no inicio de cada uma(no mínimo). Portanto… é fazer as contas! Na carruagem 10 é onde fica o primeiro restaurante e é nessa zona que começa o “nauseabundo”. Não sei porquê... mas quando passo nesse sitio há um cheiro que quase me faz regurgitar! Nem o hábito faz o monge! Mai andiammo! Entro na carruagem 10 e já tomam o pequeno almoço, ou direi mesmo “la coladzione” os nossos fratellos italianos, pessoas bem dispostas, com ar descontraido mas arranjado, mostrando que não se preocupam com o ar que têm mas preocupando-se. Têm um sorriso simpático e acolhedor. Quando passo por eles, entre as carruagens, sempre me entregam um olhar em mãos e me abrem as portas… Pensava que os italianos fossem uns brutos… foi a ideia com que fiquei quando os conheci na terra deles…


Nesta carruagem “ a galéra” também toma o pequeno almoço! É! Também estão cá “uns caras” do Brasil!! Parecem simpáticos. Têm aquele ar sofisticado do Rio de Janeiro mas sem grandes snobismos.


Saimos para a cidade de Krasnoyarsk. Chegámos cedo e ainda se sentia na cidade aquele cheiro de madrugada.
A nossa guia local, uma mulher alta e magra, com uma presença forte, expressava-se em espanhol.. Sem problema… já estamos habituados. Demonstrava conhecimento nas explicações mas não conseguia ser imparcial… as suas convicções politicas saiam-lhe da pele como aroma que se transpira. Pareceu-me uma mulher decidida e independente, com alguma revolta. O seu olhar distante advinha da cultura e não do coração, porque transmitia sensibilidade. Conversámos durante o almoço e eu ia traduzindo-lhe do espanhol para o português ou vice versa.


No final da visita a guia ofereceu a algumas pessoas um termómetro para medir a temperatura ambiente mas a diferença está na amplitude térmica, que marca 50º negativos até 50º positivos.
Foi agradável receber um. Já tenho um sitio especial para ele, como todas as coisas que trago das minhas viagens… para além dum cantinho especial na minha memória.


A primeira paragem foi ao sitío onde esta foi fundada. Existe um arco de celebração dos seus 375 anos. No centro um monumento a homenagear alguém que, por amor, tinha vindo para a Sibéria. Perdi-me um pouco ao ouvir a história deste senhor… pareceu-me interessante… era alguém que vinha da América latina com um propósito qualquer… mas entretanto, enquanto a guia explicava tão simpáticamente, deixei-me levar nos meus pensamentos… quando voltei á terra tinha perdido o essencial da história.

Mais adiante parámos num memorial dos mortos pela 1ª Guerra Mundial. Logo cá fora se impunham uns quantos tanques, poderosos, grandes. Mostravam o poderio adormecido sob forma bélica, mas não registei nenhuma admiração profunda.


Quando entrei no edificio senti que as almas daqueles homens nos espiavam. Queriam mostrar quanto sofreram e tinham deixado ali as almas para tomar conta do recado. E os arrepios que senti na pela era a forma de se expressarem.
Na entrada, um painel cilindrico estendia-se sob o tecto e tinha uma fotografia de uma senhora que transpirava tristeza mas um certo “calejamento” na alma não a deixava chorar.
Apertava a mão na boca, com a força da esperança. Fiquei ali alguns minutos a especular os seus pensamentos..


Tanto para a esquerda como para a direita existiam grandes paineis com os nomes de todos aqueles que morreram na guerra.
Corri os paineis que estavam por ordem alfabética e em cima de cada coluna tinha a letra correspondente. Fui caminhando junto aos painéis seguindo a ordem e, por cada letra que lia, pensava em nomes conhecidos, que inevitavelmente me levavam a pessoas conhecidas.. Que tristeza. Que atrocidades foram cometidas..
É tão fácil esquecermos estes lapsos da humanidade!


Parei numa das salas que tinha cartas de identidade autênticas. ou seja, pessoas autênticas! E prendi-me a um olhar. Um olhar de incerteza mas ao mesmo tempo de esperança. Senti-me desconfortável e desolada. A esperança tinha sido em vão…


Continuámos a nossa visita á cidade.
Passámos no rio Angará e fomos num barco rápido dar a volta a parte do rio. A paisagem era tranquila. O rio calmo sobressaia dos verdes montes que serviam de base e em baixos as casas de madeira com telhados inclinados e compridos salpicavam de cores o verde da paisagem.
A tranquilidade era contagiosa, tinha chegado áquelas montanhas e margens para se instalar e não tinha intenção de se ir embora.


Todos entraram para dentro do barco, estava um grupo de folclore russo tipico da zona a cantar e dançar mas não consegui resistir á beleza natural e optei por ficar na parte exterior.
Cruzei os braços sobre a varanda do barco, encostei o queixo e fiquei, com os olhos semi cerrados, a olhar a natureza. Sentia o calor do sol da manhã a entrar-me na pele e o aroma fresco do mar e ludibriar-me o olfacto.. Que paz de espirito.. não me apetecia sair dali.. estava a carregar as baterias da minha alma.

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