sábado, 3 de dezembro de 2011

Se eu fosse um livro

Se eu fosse um livro comia-te as palavras
Esses sonhos que te rodopiam a alma e cantam apenas para ti
Esses medos que afugentam quem te quer as letras, quem te ama as promessas

Se eu fosse um livro perdia-me nas tuas linhas
Essas que me prometem o mundo sem que as palavras se escrevam
Esses verbos que se cruzam nas manhãs em que acordo do teu lado

Se eu fosse um livro rasgava-me em gazetas
Essas onde se lêem que vais despertar das sentenças que te aprisionam
Essas que se abrem com as mãos de quem escreve há mais de um século

Se eu fosse um livro
Não tinha nome
Tinha fome

Não tinha cor
Tinha sede

Não tinha folhas
Tinha frio

Patrícia Prata

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Perpetuidade

E o anjo disse-lhe “É mais simples acreditares que sou o demónio do que um anjo que foi enviado por deus. É mais fácil viver-se sem pensar de que lado se está, sem saber para onde se vai nem o que se quer. É mais fácil a resignação aos acontecimentos do que a escolha do caminho que se pretende. Tudo é mais fácil quando não se tem de decidir, quando o peso do nosso decreto nos apodrece a especulação da existência. Mas… sou um anjo. E as asas que carrego são pesadas mas fazem de mim um ser ditoso. Porque eu decidi estar aqui para te contemplar as alas, as tuas alas, porque ainda que não as vejas, eu conheço-as. Sei-as de cor e sinto-lhe o sopro quando as bates uma na outra para me mostrar que tudo é efémero. Mas… eu sou a eternidade e acredito na perpetuidade das coisas, dos actos. Por mais que penses que se deve ignorar o vindouro, é hoje que o escrevemos. É hoje que eu decido sobre o amanhã. É verdade que é hoje que sentimos o corpo florescer mas não é por esse teu desapego da paixão eterna que o mundo vai deixar de amar. Se te abotoas a essa indiferença não chegarás a conhecer todos os ápices. Mas deixo-te voar… assim… sem conheceres as tuas asas… sem saberes que elas existem. Porque sou um anjo. Porque desacredito na vulgaridade da vida e me aparto do trivial. Hoje deixo-te. E na insónia de um anjo que se elevou pelas asas de outrem e que volta ao empíreo, rogo para que descubras que as asas são nivosas, que são alvas…”.



Arantza baixava o olhar. Sabia que o anjo lhe falava de amor. Mas desconhecia o amor. Conhecia a dúvida. E por mais que olhasse para as suas costas não conseguia ver as asas de que lhe falava o anjo. E com mais incertezas se cobria.



“Eu sei. Eu sei que não vês as asas. Mas só as conhecerás quando te aprontares a voar. E é no salto para o desconhecido que a força delas se revelará.” – o anjo deixou-a. Suspirou de melancolia porque conheceu a saudade.





Patrícia Prata

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mas ela não...

Vítor olhava-a. Sabia que por trás daqueles bastiões que ela mostrava ter, o corpo vacilava-lhe de insegurança. Ele conhecia-a.



Sabia que por mais rijo que fosse o seu olhar, era a sensibilidade que lhe habitava o ser.





E como ela gostava de ajudar os outros…! Mas só ele sabia. Só ele entendia que era ela quem mais precisava de ajuda.





E ela que não falava! E ele que só escrevia…





E ela não falava em amor mas o coração transbordava bem-querer.



Ela não dizia “Amo-te” mas ele conhecia-lhe as promessas ocultas.



Não pronunciava “Desculpa” mas ele identificava-lhe a remissão no olhar.





Ela esperava que ele lhe reconhecesse o amor nos seus olhos e que parasse de escrever. Que largasse as canetas e os pincéis e agarrasse pelos braços e a beijasse e a colhesse nos seus galhos!





Já não lhe chegava os poemas de amor que ele escrevia. Já não lhe chegava as letras e as palavras que encontrava nos seus cadernos.





Mas calava-se. Acreditava que um dia ele ia dar sem ela lhe pedir.





Ele sabia. Ele conhecia-lhe todas as curvas dos seus pensamentos, todas as dobras e sinuosidades dos seus entendimentos e sabia que um dia… quando o prazo do seu amor expirasse, ele ia querer largar as canetas e os pincéis, ele ia querer agarrar-lhe nos braços e beijá-la… mas ela não.





Patrícia Prata

sábado, 3 de setembro de 2011

Nas penas dele

E ele disse-lhe como se as penas lhe saltassem do corpo por danação, como se todo o mal o encarnasse naquele dia, naquele minuto, naquele segundo, como se as florestas ardessem no seu canastro todas de uma só vez.



Disse-lhe sem respirar, sem expressão, como se o mundo fosse acabar naquele dia e ele não quisesse saber, como se os pais o matassem e as flores murchassem para sempre. Disse-lhe como se Deus tivesse morrido e acordado no corpo do demónio, como se água secasse nos seus olhos de rio e o amor se esgotasse no coração dos anjos.



Disse-lhe porque a queria magoar. Disse-lhe porque a amava demais para a ver feliz. Desse amor insalubre que pulveriza a individualidade, que trucida a ventura pela sua simplicidade. E disse-lhe outra vez como se aquela cólera a pudesse matar todos os dias até ao final da sua vida, até ao final da vida dele. Porque preferia morrer a vê-la feliz. Porque preferia que as penas lhe caíssem das asas celestes a vê-la sorrir sem ser para ele.



E morreu. Morreu asfixiada nas penas dele.



Patrícia Prata


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Por trás dos sulcos

Chegava fatigada, quase moída e derreada do empenho violento que levava todos os dias nas suas mãos. Eram mãos já amarrotadas pelos anos estóicos que lhe aconteciam nas veias. Não sabia viver de outra forma e apesar disso tinha consciência que tinha errado mas já não podia voltar atrás. Não chegava a ser um arrependimento nem uma contrição, sabia apenas que a vida que tinha levado não tinha sido a mais feliz. E tinha sido ela a fazer essa escolha. Quando olhava para a neta sorria-lhe por trás dos sulcos e dizia-lhe: “O amor não existe para nos fazer felizes. Existe para nos fazer mais felizes!” -e continuava a lida da casa na esperança que as palavras se arraigassem nas funduras da alma da neta.





Patrícia Prata

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Estreitos Barbantes

Dizia-lhe que não fazia ideia de quantas memórias tinha apagado desde que se deixara morrer para ela. Sentia-se como se uma enfermidade o consumisse percorrendo-lhe os estreitos barbantes que moravam no seu corpo. Era propositado. Queria que os bichos o merendassem. Assim de vez. Até deixar de sentir que tinha polpa. Batia-lhe o coração na mão e sentia a voz da dor na ponta dos seus dedos. Era assim que as memórias se apagavam. Era assim que dando lugar à dor física, a dor do seu espírito se aquietava.




Quantas vezes respirou fundo até sentir que o peito se apagava nos pulmões, até sentir que a sede não passava quando sentia a boca molhada. Quantas vezes se perdeu no silêncio dos seus ouvidos e nas gretas da sua pele seca. Por mais que se procurasse não encontrava o que tinha sido. Era outra pessoa. Já nem se lembrava. Já nem lhe doía.







Ela olhava-o nos olhos com a tristeza de quem perde alguém querido. Queria pegar-lhe nas mãos mas as fendas da sua casca arranhavam-lhe a delicadeza da pele. Gostava dele. Mas já não o encontrou. Era outra pessoa. Nem ela se lembrava. Nem a ela lhe doía.







Patrícia Prata

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Corpo Desabitado

Foi lá que expirou a afecção. Debelou-se como se nunca tivesse existido. Não sabia se do corpo desabitado em que ficou se das rimas que já não podia compor. Era uma indiferença quase dada nas suas mãos, errante em memórias recentes mas já débeis do fracasso. Eram calos e crostas que caiam sem que o seu cortiço pedisse. No chão via os despojos da reminiscência que outrora guardara com afecto. Mas pouco lhe dizia. Tão pouco que nem sabia porque razão a sua mente tinha escolhido o desdém como opção. Talvez da consciência do cimélio que era e que foi desvalido ao acaso.



Sim. Houve um momento em que o vilipêndio ceifou o amor. Houve um momento em que acordou do ardor e viu que nada restava.



O fogo extinguiu-se.





Patrícia Prata

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Era mais

E chegou cheia de si. O mundo parecia desembrulhar-se em cadernos escritos. As palavras galgavam dos fólios como se exigissem permanecer no sopro das vozes que as liam. Eram grandes e desmedidas como a sua boca. Mas eram palavras honestas, com uma força vulcânica que lhe saia do interior do seu físico afunilado. Sorria porque ignorava o vindouro. Era hoje que sentia o seu corpo florescer de linhas tortas por textos incertos aos olhos do globo. Não fazia ideia de que lado estava o diabo nem se deus a conhecia. Queria deserdar-se dos negalhos convencionais. Sabia que se agigantava em si própria um conhecimento mais profundo da sua alma quanto mais se apartava do trivial. Sentia que quanto mais vivia mais tinha o direito de desacreditar na vulgaridade da vida. Era mais. Era mais do que o ser de alguém. Era mais e feliz.



Patrícia Prata

domingo, 19 de junho de 2011

Sigilo Profundo

Tentava ouvi-las na sua alma. Os seus olhos azuis sobressaiam nos cabelos loiros que cobriam o seu rosto. O seu sorriso era aberto mas as gargalhadas secavam no fim de cada palavra. Trazia na alma um segredo escondido. Queria partilhá-lo com as suas amigas mas não tinha coragem. A sua forma excêntrica de viver ocultava a tristeza do seu âmago. Filipa tinha vindo a esta viagem para esquecer, para apagar das suas veias, o sangue que lhe envenenava o coração. Olhava para as suas amigas e sabia que nenhuma imaginaria que ela vivia num sigilo profundo, tão discreto que a empurrava para uma solidão que ninguém compreenderia. Procurava nas margens da baía um zorro, uma personagem que a salvaria da opressão, da fraqueza, do mau estar que deixara em Lisboa e que não sabia como encarar. As suas mãos finas pousavam-lhe no colo esguio, como se se fossem perder por entre a consternação que alinhava a sua respiração. Era quase silenciosa, parecia ter receio que o pulsar das aurículas e dos ventrículos revelassem a sua mágoa. A sua testa, já colada ao vidro baço, revelava que o tempo que ali estava a divagar era já longo e moveu a cabeça para ouvir Bia.



Patrícia Prata

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entre as alparcas

Iam para Mazatlán para trabalharem. Estavam a contratar pessoas para uma construção nova nos arredores da cidade. Não sabiam do que se tratava, apenas que havia a possibilidade de arranjar trabalho. Iam para a porta da empresa logo pela alvorada, na esperança de serem levadas para trabalhar naquele dia, como se fosse uma antiga praça de jorna. E aquilo não era visto como uma situação invulgar, simplesmente a tomavam como parte da inevitabilidade da vida deles. Não havia nem esperança nem expectativas. Naqueles olhares a morte já lhes tinha levado os sonhos. Tacanhos nos seus joelhos remendados pelos anos de trabalho e pela insipiência da fortuna, deixavam que a existência lhes passasse humilhada sob as alparcas.

Patrícia Prata

domingo, 8 de maio de 2011

O tempo das coisas


Ela aguardava que a vida se desse toda naquele dia. Não queria esperar pelo tempo das coisas nem pelas coisas a seu tempo. Para ela, era o tempo dela. Passava-lhe na cabeça ser da idade…


Há alturas em que a vida parece ter todo o tempo do mundo. Parece que falta muito para que as coisas aconteçam e ainda bem. E há alturas em que deixa de ser preciso o momento certo, apenas que aconteçam coisas ou que se projectem coisas. Coisas.


Não parecia importar-se com os temores de outrora. Mais valia partir a cabeça, rachar os ossos, ficar sem força nas pernas, perder a voz a gritar mas fazer!


Mas caminhar sozinha era coisa que a intimidava e ele estava noutro tempo. Ele estava no tempo dele.




Patrícia Prata

terça-feira, 3 de maio de 2011

Há dias assim...

Há dias assim...



Em que se escreve sem vontade


Em que a chuva não molha e o sol não ilumina


Há dias em que a floresta não prospera


Em que tudo o que se aguarda é que se cumpra uma sina


Há dias em que os cavalos não correm


Em que o dia é escuro e a noite nele se abriga


Há dias em que as pessoas não morrem


Em que a voz doce não nos oferece uma cantiga


Há dias em que acordamos com vontade de abraçar os mundos


De esperar que o dia acabe sem matar a expectativa


Há dias assim…


Que o corpo que transportamos nos chama de moribundos



Patrícia Prata

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Não se ouve nada

Mesmo que cante a voz não se ouve


É em surdina propositada


Que das palavras que digo


Não se ouve nada



Peso pesado,


Não sei porque o carrego


Este medo contaminado


De soltar o meu próprio ego



Patrícia Prata

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Deixava-o morrer aos bocados

Aqueles fólios contundidos no chão traziam-lhe sabores e aromas que desconhecia. Sentava-se a lê-los e sabia que não podia. Mas as palavras que deixava nos papéis pareciam promessas e juramentos. Todas as folhas tinham cheiros diferentes e cores que o levavam para longe daquele quarto. Quantas vezes fugia do empíreo só para vir ler os seus poemas, só para sentir as suas sentenças e juras… Havia dias que parecia obcecado em olhar para baixo, queria vê-lo escrever mais, soprava-lhe aos ouvidos para que fosse para casa aprisionar-se ao papel. Não era a atitude mais certa para um anjo, chegava a conceber o egoísmo como um estado de espírito que se ganhava com a convivência humana. A obsessão pelos seus textos era tão intensa que muitas vezes se esquecia de o salvar. Deixava-o morrer aos bocados, até se lembrar da sua missão.

Houve alturas que descia sem permissão, sem o beneplácito divino. Descia porque o queria ver. Ficava horas empoleirado sobre o pulso de Vítor. Gostava de o contemplar a enrolar os dedos nas folhas e de sujar as mãos com a tinta que parecia sair-lhe dos olhos. Saboreava o momento de ver as letras enroscadas umas nas outras até formarem palavras, até se amestrarem em frases e em longas narrativas ou em demoradas poesias.

Patrícia Prata

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

No meio do vulgo

Queria chegar a casa, atirar as coisas ao acaso para o chão, deixar o vestido enovelado e os sapatos caídos, queria que a flor se perdesse nas escadas e que os seus pés sujos da lama que tinha pisado, sujassem o soalho. Queria caos, queria força e vento a soprar-lhe na cara e pessoas a perguntar-lhe o que ela tinha e o cabelo desgrenhado e uma garrafa de vinho partida, papéis a voar pelo ar, canetas espalhadas na cama, tinta azul a pintar-lhe as mãos, queria gritos a tapar-lhe os ouvidos e limpar o nariz à camisa, queria pôr os dedos na boca até sentir o estômago saltar! A vida era vida todos os dias mas era pouco e por mais que tentasse agarrá-la, parecia que lhe fugia pelas estreitas linhas da distracção. O homem que vira no meio do vulgo tinha isto e mais no olhar. “Tinha coisas! Coisas que lhe saíam pelos olhos!” – de certa forma sentia que o tinha deixado fugir, que tinha perdido qualquer coisa, sentia um peso desconhecido, uma sensação de que lhe faltava qualquer coisa… como quando se sai de casa e se se apercebe no momento de fechar a porta que a chave ficou dentro.

Patrícia Prata

Rosa-dos-ventos

Vítor esperou que a dança descansasse, que os pés adormecessem sobre a rosa-dos-ventos e que a neblina cobrisse a sua insegurança. Queria falar-lhe, queria saber quem era aquela alma que ele tão bem conhecia, de quem eram os olhos azuis e maduros que o espiavam por trás do embuço. Apesar de tudo sentia-se feio, malparecido. A barba tinha-lhe crescido até se encrespar em grumos irregulares. O nariz inchado dos soluços e as lágrimas secas, deixaram-lhe a pele salgada.

Levava um chapéu negro que do uso estava ruço, velho. Cobria-lhe todas as expressões da face e era isso que Vítor queria. Que as rugas do seu rosto não revelassem a que sabia a sua alma e de que cor se vestiam os seus pensamentos. Sabia mesmo assim que o aroma da sua dolência era amarelo. Amarelo morto, podre. Quanto mais tempo passava mais decomposto ficava. Mesmo assim… feio, oculto por trás do chapéu e da cardina melancólica que arrastava nos pés, decidiu avançar o seu corpo pesado e desengraçado.

Patrícia Prata

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Charco de lágrimas

E ficaram os dois a olharem um para o outro, separados por uma turba de gente agonizada pela violência do corpo de Vítor. Arantza perplexa com a situação e Vítor embaciado no seu estado de quase alienação. Só queria chegar a ela. Queria dizer-lhe coisas absurdas, mas queria dizer-lhas. Que a adorava, que a amava, não sabia. “Mas porque é que não lhe posso dizer que a amo? Se é loucura amar alguém que se viu pela primeira vez, maior é a loucura de não voltar a amar! Ah! Quero que este amor me rasgue por dentro! Já não sou quem fui, não serei quem devia ser, não sei porque corro nem porque escrevo, não sinto nada na pele, nem na boca que me sabe a vinagre, nem as mãos que me esmagam a tesão! Ahh! Não sinto o suor nem as folhas finas de papel que me cortam os dedos!! Não sinto os dentes que me mordem de raiva nem os gritos que me tornam surdo! Não sinto o intestino a revolutear-me as vísceras nem o charco das lágrimas de quem magoo! Não vejo nem o dia nascer nem a noite embalar-me o sono! Ai! Prefiro arrancar as unhas dos dedos a viver neste inferno! Que tenho eu a perder se lhe disser que a amo? Talvez nunca mais possa estar tão perto do céu como agora…talvez nem a morte me queira para ela, nem deus nem o diabo, nem os cabrões dos gnomos!”

Patrícia Prata

Viver entre o excesso e a escassez

Havia os loucos que caminhavam a seu lado e os que a apanhavam no encalço para admirar a sua perfeição.

Quem a via não teria coragem de a achar louca. Talvez excessiva, talvez exagerada mas nunca demente. Quem a olhava tinha a sensação de viver curtas-metragens, umas a seguir às outras, cheias, novas, curiosas, atraentes, como se o último episódio que vivia nada tivesse a ver com o seguinte; como se a sua vida fosse um manto de retalhos, uns melhores que outros, uns maiores que outros, uns com mais sabor, com mais aroma, com mais ou menos força, com mais ou menos alma mas cheios, a transbordar e a derramar tagalhos a cada passada. Era assim que a viam, era assim que queria viver: entre o ter tudo ou perder tudo.

Patrícia Prata

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Bariloche



A sensação de chegar a um aconchego, como se me fosse aninhar para ouvir o timbre das águas do lago… foi isso que senti quando cheguei a Bariloche.


Escondida no meio de montanhas e serranias, salta para o quadro como se fosse o Les Vessenots, apetece entrar e ver o que se passa dentro das casinhas de madeira que se abrigam nos geios dos acervos.


Os cabeços brancos e a sensibilidade de calor nos vales fazia pensar que algo não estava certo. Mas estava. Tudo perfeito. Era o sol que me afagava a face e o cerúleo claro dos tanques naturais que me debulhavam os entendimentos.


Tudo fazia sentido num mundo que não é perfeito mas que parecia ser. As cores conjugavam-se entre o céu, a terra e a água. O verde era mais verde naquela paisagem e o azul era mais real. Os cães com pelos que lhes tapavam o olhar não escondiam que estavam felizes por viver ali. Havia gente a correr, a andar, a tirar fotografias e a querer que tudo se amarrasse às suas memórias. Cada pormenor, cada detalhe não podia passar inobservado.


Ao fundo a maior montanha de todas mostrava a sua cor branca. Chamava-nos de longe para que a fossemos ver. Era o Tronador. E quanto mais gritava mais se percebia a razão do seu nome. Tronador… Trovão para nós. Quanto mais subíamos mais entendíamos. Sempre que parte do glaciar caia sobre as águas era como se um trovão caísse sobre nós. Um ruído imponente e que abraçava todo o vale. Sob ele sentíamo-nos pequenos, como se os 60 metros de altura do glaciar nos fossem esmagar a qualquer momento.


Lindo, grande, altivo, quase arrogante mas imperdível.



Patrícia Prata

sábado, 8 de janeiro de 2011

Mar del Plata



O que dizer de Mar del Plata…


A primeira impressão foi a de chegar a um cenário descrito por Henry Miller, como se toda a danação que se pode sentir por um sítio estivesse presente naquele cerco. Não sei se era do meu estado de espírito ou da confusão que envolvia aquele burgo que me causava náuseas.

Da horda que se pregava com violência para chegar à praia até à cor escura do mar e às areias desarranjadas, tudo me fazia pensar porque razão tinha ido eu parar àquele lugar.

Andei para ambos os lados, caminhei horas e não encontrei nada que me ajudasse a sentir bem ali.

E como de vez em quando o destino nos prega partidas, não consegui transporte para sair a não ser dois dias depois.

Ufff…



Patrícia Prata

domingo, 2 de janeiro de 2011

31/12/10 Buenos Aires



Sem despertador o corpo salta do beliche. Do segundo andar ouço a respiração das restantes habitantes do quarto. Ainda dormem. Talvez a noite tenha sido longa, talvez o cansaço lhes habite o cortiço de tal forma que a curiosidade não lhes pica o corpo.


É a manhã do último dia do ano e tudo parece tranquilo. Plácido demais. Os museus e as galerias hoje não abrem.

É na rua que tenho de granjear e saciar este apetite. A descontracção não me faz pensar se existem perigos naquela bela cidade.

Caminho para La Boca. Parece perto. Levo a máquina ao peito e mochila nas costas. Há um argentino que se aproxima. Não me sinto ameaçada, a abordagem começa a ser encarada com normalidade. Depois de saber que sou portuguesa, fala-me do jogador madeirense de que todos falam; da equipa encarnada e da verde. Enumera os argentinos que jogam em Lisboa. Conto-lhe que vou ver o estádio de La Boca Juniors e ele pede-me que guarde a máquina e leve a mochila à frente. “É muito perigoso!”

Só depois senti algum receio em ir… mas já estava a chegar. De facto não é um bairro bonito, nem mesmo o estádio lhes engrandece em nada. Os prédios são sombrios, altos e velhos. Não se vê ninguém nas ruas.

Chego ao estádio. Fechado. Feio.

Nas lojas da La Boca há turistas, quase todos brasileiros, assim como na maior parte das ruas de Buenos Aires, o português que oiço vem com sotaque.

Não sei bem de onde, mas sou arrebatada por uma enchente de pessoas. Estão no Caminito. Logo a seguir ao estádio aparece uma rua colorida, com casas pintadas de madeira, gente a dançar o tango e a puxar-nos para dançar.

Duas horas depois descubro que La Boca é longe. Já não consigo ir a pé. Dois pesos argentinos é quanto custa no máximo um bilhete de autocarro, o que equivale a 0.40€. Só temos é de ter moedas.

Falta-me ver o cemitério de Recoleta. Tão raro ir a um em Lisboa, sempre tenho a sensação de acordar quem não devo. Deixai-os sossegados! Mas Recoleta é diferente. Há um silêncio de paz que habita naqueles jazigos. Não parecem contemplar a morte mas a serenidade e ainda que estivessem muitos turistas a vê-lo, o labirinto das tumbas não permitia ver mais do que um ao mesmo tempo. Cheguei a sentar-me lá pelo meio a sentir o zéfiro que por ali passava para falar aos que chegavam mas não ficavam.

E vi mais daquelas ruas que se entornavam de vida, que me vertiam de cores e sabores. Só faltava Puerto Madero.

… que ficou para se mostrar de noite, na noite de despedida do ano, na Noche Vieja.



Feliz Año Nuevo, Argentina!


Patrícia Prata

30/12/10 Buenos Aires




Dez da manhã.



É com calor que a cidade de Buenos Aires me recebe. Cheia de uma energia que traz uma canícula obstinada na ponta dos dedos. São esses dedos que nos tocam o pescoço quando a brisa nos diz que nos quer provar.

Não interessa de onde és. Aqui és da Argentina. Porque quando tocas com os pés no chão sentes que a terra te quer agarrar.

E as gentes…

São quentes vivos e cálidos nas palavras. Mesmo quando te dão afeições exaltadas é porque é assim que o seu coração bate. Não por desrespeito ou insolência, mas por energia e espontaneidade.

Ponho-me a correr porque quero ver tudo e o tempo é pouco. Tudo parece perto, tudo parece aqui e a seguir.

As ruas de Santelmo são estreitas mas longas. Caem-lhe os prédios sobre si mesmo, como se procurassem na sua idade mostrar a vida de outros dias. Em cada esquina há uma mercearia. A fruta colorida pinta-lhe as áleas de vermelho e amarelo, de verde e de laranja. Apetece comer-lhes a polpa!

Nas paredes vivem murais com palavras de liberdade, de socialismo. Algumas manifestam a saudade de Évita Perón, cantam-lhe hinos e poesias nos muros e libertam-se em palavras mais violentas.Na varanda da Casa Rosada, quase que a vemos por detrás das cortinas, é porque a alma dela ainda vive naquelas artérias. Parece procurar que o esquecimento a não apague.

As ruas são grandes. O que parece aqui perto é longe porque não lhe vejo o fim. Ando e ando até que as pernas ganham voz e choram de cansaço.

A plaza de los Dos Congressos è imponente: onde termina a Rivadavia e começa a Av. de Mayo.

Ando mais um pouco. A Plaza de Mayo é já ali.

Da Plaza de Mayo vê-se o Obelisco pela Rua Roque Sáenz Peña. Parece perto… mas são cerca de doze “quadras” como lhe chamam.

No caminho apanho a Florida. Cheia. Não sei se o calor vem do ar se vem das pessoas que ali passam. No chão as cores misturam-se em tecidos e em presentes para turistas. Dançam tango, cantam Bob Marley e tocam trompete. Não tem fim. A rua termina no Retiro.

Já não tinha a certeza de ter pés e continuei a andar. Há sempre mais qualquer coisa do outro lado da estrada que te chama a atenção. E as ruas grandes e perpendiculares camuflam a verdadeira distância e no engano andas mais um pouco.



Seis da tarde e chegava ao hostal.


Patrícia Prata