quinta-feira, 15 de abril de 2021

Chinelar

 

 

Nesta brecha de luz

No grão de areia que se sentou por entre os dedos

O som do chinelar nas ruas de calçada,

O bater desconcertante dos ramos na janela,

Nesse brilho apagado, achava eu que ninguém via,

O momento desinteressante que não importava para o caos.

E o universo acendeu-se,

Porque teve consciência de si mesmo.


Patrícia Prata

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Retalhos de luz

 São nos retalhos de luz que me encontro

Muitas vezes de repente.

 

Porque todos somos mentiras de vez em quando.

 

Todos somos dor ou magoamos.

Somos ódios, somos amor.

Pedimos desculpa, provocamos dor.

Somos amados. Amamos.

 

Todos somos meigos, todos somos duros.

Somos dóceis ou filhos da puta.

Construímos pontes, erguemos muros.

Deixamo-nos morrer, vamos à luta.

 

Todos perdemos, todos ganhamos.

Regeneramos, danificamos.

Somos todos nós.

Assim feitos de retalhos.

Retalhos de luz.

Mesmo quando frios, nos tornamos agasalhos.


Patrícia Prata

domingo, 11 de abril de 2021

Algo aconteceu

 

Algo aconteceu.

No momento achava que tinha sido um terramoto.

Daqueles que abrem fendas no chão, que rasgam a terra ao meio e engolem pessoas.

Parecia.

O fogo brotava de baixo e juro que o vi a derreter-me os pés.

Nem percebi como tudo aconteceu.

Não o vi chegar.

Não havia vulcões nem tsunamis, não havia fumo nem terra quente, nem cheiro a enxofre.

Nada.

Apenas um silêncio que não soube escutar.


Patrícia Prata