sábado, 30 de outubro de 2010

Degrau de mármore

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Talvez esse mesmo mundo estivesse a conjurar para que ela fosse empurrada para aquele lugar.

Depois das aulas tinha decidido pôr-se rumo ao prédio. Só o facto de descer a rua com o sol a vigiar-lhe as colinas de Lisboa, como se ele fosse o amo das ruelas e por amor cuidasse delas, só o facto de olhar os cabeços da cidade como se jogassem às escondidas e se apercebesse que o burgo se movia nos seus pés delicados de bailarina, só estes pormenores lhe enchiam o corpo de inspiração.

Corria como se estivesse atrasada e sabia que ninguém a esperava. Aguardava-lhe a casa, a velha porta de madeira e o degrau de mármore.

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Patrícia Prata

domingo, 17 de outubro de 2010

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Entre o amor e a loucura, entre deus e o diabo, escolho viver sem saber de que lado estou.

Patrícia Prata

domingo, 10 de outubro de 2010

Lapidação da vida

Era ela. Vítor tinha a certeza. Só ela podia saber que ele tinha passado a noite fora. Sentiu receio pela primeira vez. Um desassossego que lhe cortava a respiração. Olhava para trás, para o lado. Havia vento que lhe cruzava a pele, sons que se cravavam nos ouvidos como um tilintar permanente. Já aquele sol que lhe rompia a janela parecia queimar-lhe as íris. Havia uma luz forte que o atirava ao chão. Era ela. Era ela que o apedrejava de raiva, de uma cólera quase agonizante que o estorcegava. Quase que ele a via, quase que lhe sentia o cheiro, o doce cheiro que ele lhe conhecia. Mas agora ela odiava-o. Agora lapidava-lhe a vida. Talvez o tivesse feito sempre, desde que morreu.

Patrícia Prata