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Tinha decidido dar uma oportunidade àquela noite e deixava-se levar em reflexões de esperança.
Na mesa, a toalha comprida tapava-lhes os pensamentos. Havia vontades, havia intenções e deliberações. Queriam tocar-se, queriam que o aconchego da pele lhes levasse as sensações dos sentidos. Mas nada faziam.
Nascia um acanhamento saudável em ambos que lhes prendia as intenções. Sentados à mesa olhavam a janela e viam as candeias da cidade. “Aqueles archotes que lhes irrompessem a sala e a idealidade, e aquela música reconfortante que negociasse a aquietação espiritual de Vítor!” – era o que pensavam.
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O marufo já lhes corria no âmago e a música apelava pelo movimento dos seus corpos. Foi Vítor que se levantou. Nem ele próprio reconhecia os seus movimentos. Deixou que a sua mão alasse o corpo de Cristina para junto do seu. Pousou-a na cintura afunilada de mulher lúbrica e aconchegou-lhe a mão no seu próprio corpo. Dançavam.
O vestido no corpo feminino esboçava uma sensualidade ansiosa, deixava que o preto que lhe cobria as dobras do corpo exibisse a força do desejo no seu peito e o seu pescoço desvendava-se por entre as madeixas de cabelo castanho que se ondulavam nas partituras musicais em que dançavam.
Vítor olhava-a nos olhos, procurava-lhe agora o amor e a sensualidade mas foi no seu corpo esguio que depositou os seus entendimentos. Os seus ombros delicados e desabrigados permitiam que o bálsamo da sua pele se distribuísse pelo espaço envolvente. O espaço que agora Vítor partilhava com ela, o espaço entre o seu corpo e o dela.
Cristina deixou que a alça do vestido lhe escorregasse ombro abaixo e Vítor tirou-lhe a outra com brandura.
O tapete preto que ocupava toda a sala deixou que os seus corpos se desabotoassem das roupas que traziam. Havia um peso nas pálpebras de Vítor que fez com que ele se esquecesse do seu próprio corpo.
As mãos de Cristina esbulhavam-se no corpo dele, sem pudor (...). Se o amava pelas palavras, ali sentia apenas os sons. Se o queria pelas letras, ali cobiçava-lhe o sabor da boca.
Vítor deixou que ela o cobrisse, que a nudez dela revestisse o seu canastro. Via agora os seus olhos e os seus cabelos resvalarem-se nos movimentos quase imorais que dava ao seu espigueiro e da loucura que sentia quando o peito lhe roçava os olhos queria que aquele momento se prolongasse. E prolongou-se.
Prolongou-se até à exaustão, até que o cansaço os sucumbisse no chão, no tapete negro.
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Patrícia Prata