quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bem-querer sem querer

Era dia.

A luz feria-lhe os olhos e aprisionava o seu olhar por detrás da almofada. As mortalhas macias invadiam-lhe as pregas do corpo. Não queria despertar do sonho que estava a ter. Via Helena a correr-lhe para os braços. Os seus olhos azuis trespassavam-lhe a profundeza da alma.

Sabia com toda a certeza que a amava. Não que a amasse mais do que a outras mulheres que tinha amado. Mas amava-a da maneira mais bela que se pode amar alguém: sem esperar a reciprocidade. Era um bem-querer sem querer nada em troca. Precisava, apenas, de saber que ela estava bem, que era feliz, que o seu sorriso era autêntico.

Patrícia Prata

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Entre o seu corpo e o dela...

(...)

Tinha decidido dar uma oportunidade àquela noite e deixava-se levar em reflexões de esperança.

Na mesa, a toalha comprida tapava-lhes os pensamentos. Havia vontades, havia intenções e deliberações. Queriam tocar-se, queriam que o aconchego da pele lhes levasse as sensações dos sentidos. Mas nada faziam.

Nascia um acanhamento saudável em ambos que lhes prendia as intenções. Sentados à mesa olhavam a janela e viam as candeias da cidade. “Aqueles archotes que lhes irrompessem a sala e a idealidade, e aquela música reconfortante que negociasse a aquietação espiritual de Vítor!” – era o que pensavam.

(...)

O marufo já lhes corria no âmago e a música apelava pelo movimento dos seus corpos. Foi Vítor que se levantou. Nem ele próprio reconhecia os seus movimentos. Deixou que a sua mão alasse o corpo de Cristina para junto do seu. Pousou-a na cintura afunilada de mulher lúbrica e aconchegou-lhe a mão no seu próprio corpo. Dançavam.

O vestido no corpo feminino esboçava uma sensualidade ansiosa, deixava que o preto que lhe cobria as dobras do corpo exibisse a força do desejo no seu peito e o seu pescoço desvendava-se por entre as madeixas de cabelo castanho que se ondulavam nas partituras musicais em que dançavam.

Vítor olhava-a nos olhos, procurava-lhe agora o amor e a sensualidade mas foi no seu corpo esguio que depositou os seus entendimentos. Os seus ombros delicados e desabrigados permitiam que o bálsamo da sua pele se distribuísse pelo espaço envolvente. O espaço que agora Vítor partilhava com ela, o espaço entre o seu corpo e o dela.

Cristina deixou que a alça do vestido lhe escorregasse ombro abaixo e Vítor tirou-lhe a outra com brandura.

O tapete preto que ocupava toda a sala deixou que os seus corpos se desabotoassem das roupas que traziam. Havia um peso nas pálpebras de Vítor que fez com que ele se esquecesse do seu próprio corpo.

As mãos de Cristina esbulhavam-se no corpo dele, sem pudor (...). Se o amava pelas palavras, ali sentia apenas os sons. Se o queria pelas letras, ali cobiçava-lhe o sabor da boca.

Vítor deixou que ela o cobrisse, que a nudez dela revestisse o seu canastro. Via agora os seus olhos e os seus cabelos resvalarem-se nos movimentos quase imorais que dava ao seu espigueiro e da loucura que sentia quando o peito lhe roçava os olhos queria que aquele momento se prolongasse. E prolongou-se.

Prolongou-se até à exaustão, até que o cansaço os sucumbisse no chão, no tapete negro.

(...)

Patrícia Prata

domingo, 12 de setembro de 2010

No seu estrado, bocados grotescos...

(...)

E nessas alturas em que o corpo dava voz à vontade, cortava-se para que o sangue azedo que lhe corrompia a alma o abandonasse de vez.

Nunca conseguiu.

Não entendia porque a morte não se lhe caldeava ao corpo. Tantas vezes a procurou e tantas vezes a vida teimava em não abandoná-lo.

Não sabia porque pagava às mulheres para lhe darem prazer. Havia aquelas que se atiravam aos seus pés (...). Havia muitas mulheres que se apaixonavam pelos seus dedos, pelas suas linhas cravadas no papel.

Alturas houve que se envolvia com elas, abria-as de tal forma que no dia seguinte dava-lhe a sensação de lhes apanhar as entranhas no fundo da cama. Não as queria magoar mas não as amava. Odiava-as. Os seus corpos levavam-lhe a alma aos bocados grotescos. E por mais que se quisesse libertar, ela sempre o observava. Muitas vezes o seu corpo arrepiava-se com aquela figura que lhe aparecia nas alturas mais inesperadas.

Já não se lembrava como ela tinha chegado à sua casa, ao seu estrado. (...)

Patrícia Prata

Os amigos são para as ocasiões

Afinal o inimigo é o Irão. O malévolo que nos quer destruir com mísseis e ogivas nucleares.

E afinal é o Irão, agora.

Fico sempre baralhada e confundida com os inimigos que temos. Mudam sempre. Se não estivermos atentos às notícias perdemos a consciência para quem temos de alvitrar.

Ainda bem que existe uma Nato para nos avisar. Ainda bem que temos o olhar atento de Rasmussen para nos prevenir. Tal qual Grande Irmão que alerta para as jigajogas políticas do mundo. Ele sabe.

Portanto… só para afastar qualquer dúvida o Irão é o mau. Agora.

Mas… já tinha sido mau na Guerra Irão - Iraque. Não foi? Por enquanto ainda não queimam as notícias no fogo… Ainda se pode ir confirmar estas mudanças dos maus, dos bons e dos vilões. Dá a sensação que são sempre os mesmos mas vão-se alternando em mandatos.

O Iraque… Esse que depois afinal… afinal tinha armas de destruição maciça. Armas que ameaçavam a segurança mundial.

E continuo baralhada…

É verdade que o 11 de Setembro ajudou a vermos melhor o inimigo! Se não fosse o 11 de Setembro o “inimigo” seria quiçá o comunismo. Assim tudo fica mais fácil… Assim podemos defendermo-nos?!

Mas… não foram os EUA que utilizaram a energia atómica para fins militares? Aliás… não foi o único país que o fez? O que sempre se absolve com a segurança mundial? Mas Eles sabem.

Eles sabem… pelo menos escolher as amizades certas, nas alturas certas.

E agora temos de esperar pela invasão dos iranianos... Mas há a NATO. Sinto-me muito mais segura… ao menos vou sabendo quem são os “maus” e vamos pagando os ordenados dos senhores da indústria de armamento e aviação militar.

Porque afinal… vai sempre haver um inimigo… vai sempre haver uma justificação para que hajam investidas.

E o que interessa é que … amigos amigos, negócios à parte.

Patrícia Prata

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Contra a NATO - como se combatem guerras com guerra?!

Historicamente nas suas origens, talvez tivesse algum fundamento defensivo o Tratado que resguardava toda a área do Atlântico Norte. Mas a partir do momento que este carácter cautelar passou a ter a preponderância de poder intervir militarmente em qualquer lugar do mundo, a NATO passa a ser um grupo belicista provocando a constituição de novos grupos do mesmo género, noutros países.

É uma bola de neve!

O crescimento contínuo do armamento dos estados membros, provoca o rearmamento de países que os consideram seus rivais. Mais do que rearmamento dos estados membros, os Estados Unidos possuem armas nucleares nas bases da NATO, na Europa o que faz com que a exponha a uma possível guerra nuclear e cada vez mais fomente o crescimento de empresas bélicas e dos gastos militares.

Se observarmos, e nem é precisa muita atenção porque é flagrante, a NATO protege e defende os interesses dos países mais ricos e, muito basicamente, pode-se perceber que estes países ricos precisam de matérias-primas como o petróleo para poderem manter o seu nível de consumo e crescimento. Onde estão essas matérias-primas? Pois...! Nos países onde a NATO exerce o seu controlo militar.

Mais estranhamente, uma organização que se diz de carácter defensivo e estabilizador de políticas não democráticas permite que no seu seio constem países de ditaduras neofascistas e antidemocráticas.

E será mesmo a NATO uma organização democrática, sendo ela que se manobra sobre todas as outras instituições democráticas, sem pedir "cavaco", e sim sob o jugo militar dos Estados Unidos?

E é por estas razões e outras que a extinção da Nato seria imprescindível, nomeadamente para a concretização dos objectivos da Carta das Nações Unidas, cujo mais importante é o de não provocar novas guerras.

E como se combatem guerras com guerras? Como?

Patrícia Prata