terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Bariloche



A sensação de chegar a um aconchego, como se me fosse aninhar para ouvir o timbre das águas do lago… foi isso que senti quando cheguei a Bariloche.


Escondida no meio de montanhas e serranias, salta para o quadro como se fosse o Les Vessenots, apetece entrar e ver o que se passa dentro das casinhas de madeira que se abrigam nos geios dos acervos.


Os cabeços brancos e a sensibilidade de calor nos vales fazia pensar que algo não estava certo. Mas estava. Tudo perfeito. Era o sol que me afagava a face e o cerúleo claro dos tanques naturais que me debulhavam os entendimentos.


Tudo fazia sentido num mundo que não é perfeito mas que parecia ser. As cores conjugavam-se entre o céu, a terra e a água. O verde era mais verde naquela paisagem e o azul era mais real. Os cães com pelos que lhes tapavam o olhar não escondiam que estavam felizes por viver ali. Havia gente a correr, a andar, a tirar fotografias e a querer que tudo se amarrasse às suas memórias. Cada pormenor, cada detalhe não podia passar inobservado.


Ao fundo a maior montanha de todas mostrava a sua cor branca. Chamava-nos de longe para que a fossemos ver. Era o Tronador. E quanto mais gritava mais se percebia a razão do seu nome. Tronador… Trovão para nós. Quanto mais subíamos mais entendíamos. Sempre que parte do glaciar caia sobre as águas era como se um trovão caísse sobre nós. Um ruído imponente e que abraçava todo o vale. Sob ele sentíamo-nos pequenos, como se os 60 metros de altura do glaciar nos fossem esmagar a qualquer momento.


Lindo, grande, altivo, quase arrogante mas imperdível.



Patrícia Prata

sábado, 8 de janeiro de 2011

Mar del Plata



O que dizer de Mar del Plata…


A primeira impressão foi a de chegar a um cenário descrito por Henry Miller, como se toda a danação que se pode sentir por um sítio estivesse presente naquele cerco. Não sei se era do meu estado de espírito ou da confusão que envolvia aquele burgo que me causava náuseas.

Da horda que se pregava com violência para chegar à praia até à cor escura do mar e às areias desarranjadas, tudo me fazia pensar porque razão tinha ido eu parar àquele lugar.

Andei para ambos os lados, caminhei horas e não encontrei nada que me ajudasse a sentir bem ali.

E como de vez em quando o destino nos prega partidas, não consegui transporte para sair a não ser dois dias depois.

Ufff…



Patrícia Prata

domingo, 2 de janeiro de 2011

31/12/10 Buenos Aires



Sem despertador o corpo salta do beliche. Do segundo andar ouço a respiração das restantes habitantes do quarto. Ainda dormem. Talvez a noite tenha sido longa, talvez o cansaço lhes habite o cortiço de tal forma que a curiosidade não lhes pica o corpo.


É a manhã do último dia do ano e tudo parece tranquilo. Plácido demais. Os museus e as galerias hoje não abrem.

É na rua que tenho de granjear e saciar este apetite. A descontracção não me faz pensar se existem perigos naquela bela cidade.

Caminho para La Boca. Parece perto. Levo a máquina ao peito e mochila nas costas. Há um argentino que se aproxima. Não me sinto ameaçada, a abordagem começa a ser encarada com normalidade. Depois de saber que sou portuguesa, fala-me do jogador madeirense de que todos falam; da equipa encarnada e da verde. Enumera os argentinos que jogam em Lisboa. Conto-lhe que vou ver o estádio de La Boca Juniors e ele pede-me que guarde a máquina e leve a mochila à frente. “É muito perigoso!”

Só depois senti algum receio em ir… mas já estava a chegar. De facto não é um bairro bonito, nem mesmo o estádio lhes engrandece em nada. Os prédios são sombrios, altos e velhos. Não se vê ninguém nas ruas.

Chego ao estádio. Fechado. Feio.

Nas lojas da La Boca há turistas, quase todos brasileiros, assim como na maior parte das ruas de Buenos Aires, o português que oiço vem com sotaque.

Não sei bem de onde, mas sou arrebatada por uma enchente de pessoas. Estão no Caminito. Logo a seguir ao estádio aparece uma rua colorida, com casas pintadas de madeira, gente a dançar o tango e a puxar-nos para dançar.

Duas horas depois descubro que La Boca é longe. Já não consigo ir a pé. Dois pesos argentinos é quanto custa no máximo um bilhete de autocarro, o que equivale a 0.40€. Só temos é de ter moedas.

Falta-me ver o cemitério de Recoleta. Tão raro ir a um em Lisboa, sempre tenho a sensação de acordar quem não devo. Deixai-os sossegados! Mas Recoleta é diferente. Há um silêncio de paz que habita naqueles jazigos. Não parecem contemplar a morte mas a serenidade e ainda que estivessem muitos turistas a vê-lo, o labirinto das tumbas não permitia ver mais do que um ao mesmo tempo. Cheguei a sentar-me lá pelo meio a sentir o zéfiro que por ali passava para falar aos que chegavam mas não ficavam.

E vi mais daquelas ruas que se entornavam de vida, que me vertiam de cores e sabores. Só faltava Puerto Madero.

… que ficou para se mostrar de noite, na noite de despedida do ano, na Noche Vieja.



Feliz Año Nuevo, Argentina!


Patrícia Prata

30/12/10 Buenos Aires




Dez da manhã.



É com calor que a cidade de Buenos Aires me recebe. Cheia de uma energia que traz uma canícula obstinada na ponta dos dedos. São esses dedos que nos tocam o pescoço quando a brisa nos diz que nos quer provar.

Não interessa de onde és. Aqui és da Argentina. Porque quando tocas com os pés no chão sentes que a terra te quer agarrar.

E as gentes…

São quentes vivos e cálidos nas palavras. Mesmo quando te dão afeições exaltadas é porque é assim que o seu coração bate. Não por desrespeito ou insolência, mas por energia e espontaneidade.

Ponho-me a correr porque quero ver tudo e o tempo é pouco. Tudo parece perto, tudo parece aqui e a seguir.

As ruas de Santelmo são estreitas mas longas. Caem-lhe os prédios sobre si mesmo, como se procurassem na sua idade mostrar a vida de outros dias. Em cada esquina há uma mercearia. A fruta colorida pinta-lhe as áleas de vermelho e amarelo, de verde e de laranja. Apetece comer-lhes a polpa!

Nas paredes vivem murais com palavras de liberdade, de socialismo. Algumas manifestam a saudade de Évita Perón, cantam-lhe hinos e poesias nos muros e libertam-se em palavras mais violentas.Na varanda da Casa Rosada, quase que a vemos por detrás das cortinas, é porque a alma dela ainda vive naquelas artérias. Parece procurar que o esquecimento a não apague.

As ruas são grandes. O que parece aqui perto é longe porque não lhe vejo o fim. Ando e ando até que as pernas ganham voz e choram de cansaço.

A plaza de los Dos Congressos è imponente: onde termina a Rivadavia e começa a Av. de Mayo.

Ando mais um pouco. A Plaza de Mayo é já ali.

Da Plaza de Mayo vê-se o Obelisco pela Rua Roque Sáenz Peña. Parece perto… mas são cerca de doze “quadras” como lhe chamam.

No caminho apanho a Florida. Cheia. Não sei se o calor vem do ar se vem das pessoas que ali passam. No chão as cores misturam-se em tecidos e em presentes para turistas. Dançam tango, cantam Bob Marley e tocam trompete. Não tem fim. A rua termina no Retiro.

Já não tinha a certeza de ter pés e continuei a andar. Há sempre mais qualquer coisa do outro lado da estrada que te chama a atenção. E as ruas grandes e perpendiculares camuflam a verdadeira distância e no engano andas mais um pouco.



Seis da tarde e chegava ao hostal.


Patrícia Prata