Já há alguns dias que não tinhamos o privilégio de dormir numa cama confortável, espaçosa e sem balanço depois de ter tomado um banho refrescante com água corrente quente.
Como dizia Sócrates, na obra de Platão - Fédon, só se tem verdadeiro prazer depois de se conhecer a dor. E, na realidade, no nosso dia-a-dia, que não nos damos conta de determinadas coisas que temos e que estamos habituados, só percebemos o seu valor na sua ausência. E nesta ausência de algumas coisas que damos como certas todos os dias é que dei valor a como elas nos fazem falta, assim como um bom banho e um sono descansado.
Como dizia Sócrates, na obra de Platão - Fédon, só se tem verdadeiro prazer depois de se conhecer a dor. E, na realidade, no nosso dia-a-dia, que não nos damos conta de determinadas coisas que temos e que estamos habituados, só percebemos o seu valor na sua ausência. E nesta ausência de algumas coisas que damos como certas todos os dias é que dei valor a como elas nos fazem falta, assim como um bom banho e um sono descansado.
Depois deste ressuscitar de sensações, esquecidas pelo hábito, levantámo-nos e fomos tomar um pequeno almoço revigorante: um belo pequeno almoço continental.
Habituados, igualmente, ao pequeno almoço do comboio, que era servido com base em rações de unidades pormenorizadamente contabilizadas, os nossos olhos, que também comem, sorriram de degustação.
Ninguém falava. Todos passeavam pela sala do Hotel enchendo os pratos e correndo para as mesas para se deliciarem. Queriamos estar de barriga cheia para o passeio que se avizinhava.
Saimos para a camioneta onde o nosso simpático guia nos esperava. Já tinha colado de manhã o sorriso na cara e não tinha intenção de o tirar. Vinha com a alegria de trabalhar estampada no rosto, acreditando que disso os seus dois filhotes, que com tanto orgulho me mostrou no seu telemóvel, dependiam.
A paisagem tornou-se mais natural. Dava a sensação de sermos uma corrente de água que rompia os vales das montanhas e que contemplava nas suas margens a verdura que alimentava as vacas e os iaques passeantes .
A camioneta parecia não reparar que pela sua frente passeavam animais. Era tudo tão natural que pertenciam todos á paisagem. O condutor desviava-se das vaquinhas sem qualquer hesitação e um suspiro de alivio proliferava-se pela camioneta. Depois o sorriso de quem se apercebe que tudo aquilo era normal.
O caminho era longo, passávamos por vários acampamentos para turistas. A ideia destes espaços era proporcionar um descanso real, introduzido na natureza verdadeira. As tendas chamavam-se "ger" que são as habitações típicas dos nómadas mongóis. Tinham os confortos básicos essenciais e estavam situados no meio de montanhas fantásticas, sem grande altitude, mas reclamando para si todo o verde que encontravam no caminho. Este espaço natural era naturalmente partilhado com as vacas e iaques, que com toda a generosidade e passividade o faziam sem reclamar.
Passámos por uma pedra enorme com o feitio de uma tartaruga e lá em cima meia dúzia de pessoas queriam mostrar que a coragem podia ser da altura de uma rocha.
Regateámos um pouco com quem estava a vender artesanato no sopé da pedra e quem fazia a tradução era uma miudita dos seus 10 anos, que andava a correr de um lado para o outro tentando atender todos os turistas e ajudando sua mãe que não falava uma palavra em inglês.
Continuámos o nosso caminho até chegarmos ás nossas "gers". Iamos almoçar nelas. Estavam situadas num dos tantos vales que existiam nessa zona. Lembro-me que no caminho para lá sentia que percorria kms com a sensação que não ia dar a lado nenhum.
As tendas estavam em cima de uma plataforma de madeira que dava a sensação de ser um terraço e mantinha aquele grupo de tendas ao mesmo nivel. A nossa estava marcada com a bandeira portuguesa. Entrámos e sentámos-nos pelas mesas disponíveis. A comida não chamava por mim... andava a comer do mesmo há vários dias, apenas mudavam as cores dos legumes. Dizia aos meus companheiros de refeição o quanto sentia falta de um polvo á lagareiro com grelos salteados. Tenho a impressão que concordavam comigo mas que não queriam falar no assunto para não serem saudosistas. Nas viagens que faço a primeira ausência que sinto é da comida portuguesa. Mas na falta de melhor enchi a barriga com a intenção de ludubriar o estômago.
Ficámos ali um bocado. Andei pela planicie atrás das vaquinhas que descansavam. Sentia-me livre e apetecia-me andar sozinha a gozar aquele momento. Quem também costumava andar sozinha como eu, era a fotógrafa. Chamemos-lhe assim, porque sempre trazia uma máquina com um ar muito profissional e, de facto, as fotos transmitiam técnica. Também me tirou algumas, a mim e ao meu avô. Vinha do norte com um casal e irmã que demonstravam ser pessoas requintadas. O marido muito discreto e simpático e a esposa tinha uns olhos enormes e brilhantes, pareciam querer sair para falar mais.
Depois do almoço fomos a um hotel que se situava no meio destes vales e que aparentava ser uma antiga residência de um imperador oriental. Tinhamos vindo aqui para ver um espectáculo de folclore local.
Assemelhou-se muito ao espectáculo que tinhamos ido ver no dia anterior, na cidade de Ulaan Bataar e eu que ainda estava com a natureza a revirar-me os olhos de paixão, deixei-me levar e optei por andar no meio dela. Brincava com um cachorrinho que por ali andava a passear a sua juventude. A sua atrapalhação com as patitas e os saltinhos que dava, revelava boa disposição. Aproveitei-me disso. Senti-me uma miuda de 15 anos que brinca com o seu animalzinho de estimação e deixei-me estar...
Tinha sido um dia longo e regressámos ao Hotel quebrados do cansaço.

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