segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Sem sagrado nem profano

 

Na estrada debaixo de mim,

Mais outra gota que foi.

Nas solas batentes no chão,

Onde só eu sei quanto valho,

Sou as cartilagens dos dedos,

O sangue a correr, os pés a doer

As cãimbras nos gémeos, o coração a bater.

 

Toda eu sou eu.

Toda eu no mesmo momento.

Naquela estrada que arrepia caminho.

Na voz que se evapora da mente,

Todas as vozes que às vezes lá gritam,

Todas as vozes que choram.

Já lá não se demoram.

 

Toda eu sou eu.

Quando só oiço as válvulas empurrarem-me a frente.

Ali sou eu sem julgamento.

Sem reprimendas ou opiniões.

Sem jargões.

Sem avaliações.

Sem sagrado nem profano.

Sou eu toda neste espaço.

Sou eu toda nestas pernas, nestes quilómetros escassos,

Mas tantos.

Mas tantos.

Sem espuma dos dias

 

No teu olhar consigo ver a espuma do mar

Não porque são azuis

Esses gomos, mirtilos doces

Porque são cheios.

Porque ondulam por mim que te amo.

 

Tiraste-me da espuma dos dias

Nesse dia que te conheci

E contigo tudo se tornou abrigo

E nem sei como comecei.

 

Mas são fortes estes laços

São para sempre mesmo quando me levas o mar

Quando me escondes os gomos

Quando me deixas de olhar

 

Eu sei que é contigo.

Conheço-te a volta da prancha.

Quando rodopias os pés no descanso do pensamento

E quando o largas na água e recuperas o fôlego

Encontras esse estado isento.

 

Mas aqui estou.

E sempre estarei.

Sem promessas. Sem garantias.

Apenas sei.


Patrícia Prata

Treinador de bancada

 

Reza muito engraçada

É a minha com o meu Deus

Nunca digo quase nada

Ou então sou desbocada

Falo mal dos Seus ateus.

 

Deve rir-se à gargalhada

O Deus que me ouve o dia

Minha língua uma auto estrada

Ele treinador de bancada

Só ouve. Já nem pia.

 

Imagino-O lá na casa

Do Deus Senhor poderoso

Debaixo da Sua asa

A deixar o Pai em brasa

Ao ouvir-me em tom jocoso.

 

É que esta necessidade que tenho

De Lhe dizer o que eu cá acho

Faz-lhe tresmalhar o rebanho

Fá-Lo crescer de tamanho

E dar o Seu ar de macho.

 

Por mais que me lembre Maria

Que somos todos iguais

E que a Sua grande valia

Para matar a tirania

D´Ele poder ter dois pais

 

É dizer-lhe suavemente

Que em dias de sol aberto

Por mais sério que seja o crente

Terá de entender porque mente

Quando diz que crê no incerto.


Patrícia Prata

domingo, 27 de dezembro de 2020

Ainda é cedo

Não deixar que correr me doa

Que o medo me imobilize

Que os olhos se fechem.

Sou a força do vento quando acredito

Sou o espírito do sol quando me levanto

Sou as estrelas da noite quando durmo.

 

Ainda é cedo.

Ainda há tempo.


Patrícia Prata