sábado, 23 de janeiro de 2016

Le temps des cerises


Ela pegava nos sacos de areia como se tivesse a força de um varão. Eram braços delgados, declaravam ter força para coisa pouca. Mas pouco interessava. À medida que corriam as ruas levantavam mais sacos, mais pedras do chão. E esses braços delgados ainda tratavam dos que caiam a seus pés.

Eram pés que dançavam apesar da tristeza. Percorriam nus aquela dor infinda entre os morrentes e os desânimos e chegavam para o lado os corpos pelos quais já nada podia fazer. Havia momentos que tinha de deixar para trás quem amava, mas era a todos que amava, amava profundamente, como se ama alguém para toda a vida, para todo o sempre, amava-os porque juntos tinham sido mais fortes, juntos tinham conseguido o que ninguém jamais tinha conseguido, juntos eram um; eram um grande; enorme; colossal! Eles que grandes, colossais e que ao mesmo tempo eram pequenos, infinitamente exíguos, estreitos, apertados, tão diminutos aos olhos dos que se achavam gigantes, monstruosos, titanescos que quando chegaram fortes por serem juntos e – não estarem somente juntos mas por serem juntos – partiram o gigante e agigantaram-se ali mesmo para todos verem, para que todos pudessem sentir a liberdade. Eram eles grandes na cidade, fortes pelos seus braços já desgastados do trabalho, dominados pelos titãs que os obrigavam a ceder, a quebrar, a deixar que outro gigante se viesse apoderar do seu trabalho, das suas casas, daquilo que não sendo seu era seu.

Patrícia Prata

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Nas crateras dos vulcões

E quando te levantas a pensar que é desta?
Quando sais à rua com os cabelos na mão, presos nos dedos porque já te chegam ao chão?
Não te lembras.
Rogas pragas à memória.
Contas para ti própria uma história
Para te lembrares, para saberes que é de tudo isso que és feita
Mas mais ainda do que acreditas.
São as pernas incompletas, desfiadas que te atrasam o caminho. Mas são pernas que andam e que correm, porque na verdade o seu alento vem de dentro.
E aí estás tu.
Meretriz, sumida, perdida na vida, não sabes se és carrancuda ou só sisuda.
Achas que te dão cognomes nas costas e encostas para não ouvires. Está debaixo do teu braço.
Às vezes é só um abraço
Outras são línguas tortas, facas, serpentes, contentes por te matar, por te tirar esse alento que te vem de dentro.
E quando te levantas a pensar que é desta, continuas a partir tabique, a suplicar perdão, quando não!

Essa fenda não é tua. É da humanidade… que ainda não ganhou idade para deixar os juízos repousar nas crateras dos vulcões…

Patrícia Prata