domingo, 19 de junho de 2011

Sigilo Profundo

Tentava ouvi-las na sua alma. Os seus olhos azuis sobressaiam nos cabelos loiros que cobriam o seu rosto. O seu sorriso era aberto mas as gargalhadas secavam no fim de cada palavra. Trazia na alma um segredo escondido. Queria partilhá-lo com as suas amigas mas não tinha coragem. A sua forma excêntrica de viver ocultava a tristeza do seu âmago. Filipa tinha vindo a esta viagem para esquecer, para apagar das suas veias, o sangue que lhe envenenava o coração. Olhava para as suas amigas e sabia que nenhuma imaginaria que ela vivia num sigilo profundo, tão discreto que a empurrava para uma solidão que ninguém compreenderia. Procurava nas margens da baía um zorro, uma personagem que a salvaria da opressão, da fraqueza, do mau estar que deixara em Lisboa e que não sabia como encarar. As suas mãos finas pousavam-lhe no colo esguio, como se se fossem perder por entre a consternação que alinhava a sua respiração. Era quase silenciosa, parecia ter receio que o pulsar das aurículas e dos ventrículos revelassem a sua mágoa. A sua testa, já colada ao vidro baço, revelava que o tempo que ali estava a divagar era já longo e moveu a cabeça para ouvir Bia.



Patrícia Prata