segunda-feira, 31 de maio de 2010

Conto 2 - Última Parte

A indiferença era aparente. Sentia no seu corpo o peso do olhar dele e aquilo matava-o aos poucos. Ele falava e dava-lhe palavras, mas o morto da cama não o ouvia, só lhe via os lábios mexerem. Não queria ouvir na verdade e fazia-se defunto, só a respiração o acusava de ter vida.

Naquele dia ela não veio. Apareceu uma outra. Feia. Gorda. Que asco lhe dava aqueles dentes maltratados. E na sua agitação levantou-se. Queria partir o espelho para não ver a morte sorrir-lhe. Queria fechar a porta para ninguém o visitar. Não queria medicamentos nem drogas a enganarem-lhe o raciocínio.

“Não! Ela vai meter-me a mão em cima! Sai!”. – Gritou mas não se ouviu. A gesticulação que empreendia no corpo era de uma força abismal, no entanto, não se movia.

“Onde está aquele meu filho que eu me esqueci? Esse que me vem espreitar as pernas e as quer levar?!”. – Ele tinha os olhos abertos. Via. Lembrava-se. Ou não.

A médica “gorda”, “feia” tinha chegado há dois dias. Veio confirmar o que o médico que lá estava vinha dizendo há muito tempo.

Foi o jovem fisioterapeuta, que se sentiu mais castigado. Todos os dias durante dois anos exercitava os seus joelhos na tentativa de conseguir alguma reacção. E disse a Laura, sua colega enfermeira que ia sentir a falta dele. Dava-lhe a sensação que ele o ouvia. “Há dias que parece que está zangado…”.

“Disparate… ele não vê nem ouve, nem tem consciência. Está cá mas é como se não estivesse. A Dra. tem razão.” – Laura dizia isto com alguma frieza. Os seus dentes grandes saiam-lhe da boca sem pedir permissão. Tão grandes que só se viam as saliências brancas a rasgarem-lhe a expressão. Parecia estar sempre a sorrir.

O jovem fisioterapeuta arrumou-lhe os apetrechos que levava todos os dias e ajudou a enfermeira a guardar as seringas e as garrafas espalhadas pelo quarto que ultimamente serviam para tornar aquela forma de vida mais digna.

Uma dignidade que era mais confortável para os que o viam.

Enquanto arrumavam as tralhas diziam que tinha sido o melhor atleta de todos os tempos. Tinha corrido meio mundo e o acidente que lhe tinha cortado as duas pernas levara-lhe a vida e a alma.” Como é que alguém pode ficar assim?”.

A médica gorda e feia entrou na sala: “Ele não tem família. Ninguém vem cá desde que ele entrou em coma. O cérebro morreu. Podem desligar a máquina, por favor.”

Patrícia Prata

terça-feira, 25 de maio de 2010

Conto 2 - Segunda Parte

Levantou-se. Ainda sentia as pernas. Tinha a certeza de estar vivo e não conseguia evitar olhar para o quase morto na cama. “Se pudesse, dava-lhas … “ – pensava como se lhe arrancassem aos nacos a carne das tíbias.

“Amanhã volto!” – os olhos que o miravam aparentavam indiferença. Ele não sabia se tinha perdido a alma ou se estava só moribundo.

Assim que batia com a porta ele levantava-se. Respirava fundo e penteava os seus cabelos escassos a olhar-se para o espelho. Meditava sobre as razões que o levavam a ir ali.

“Quem é ele? Vem aqui para me julgar! Já o vi a olhar-me para as pernas! Cobiça! É o que é! Para estes gajos é que Deus não olha! Andam aqui a açoitar-me o entendimento! Mais a porra com eles! Se não for Deus a o levar, que o leve o diabo!” – olhou para a porta e viu Laura.

Laura trazia sempre aquele sorriso. De tão manso acalmava-lhe a sanha. Esquecia-se dele e do outro que o via. E deitou-se na paz do Senhor. Queria portar-se bem para que Laura lhe continuasse a sorrir.

Tanto devaneio e delírio, tanto desatino e desacerto e esqueceu-se que tinha um filho. E sentia-lhe as mãos nos cabelos escassos. Rosnava.

E a morte espreitava-o pelo espelho. Quanto mais lhe mostrava os olhos menos lhe metia medo.

“Volto amanhã!” – saía com a sensação de lhe ter deixado as pernas, tal era a força que tinha de fazer para atravessar a sala.

Patrícia Prata

domingo, 23 de maio de 2010

Conto 2 - Primeira parte

Olhava para ele com o remorso da vida. Aqueles anos de loucura tinham-lhe dado argumentos suficientes para se esquecer que tinha um filho.

“Levanta-te!” – se pudesse dava-lhe as pernas. Não tinha dúvidas do seu afecto por ele mas teria sido tarde, talvez.

Nem sequer sabia se ele o ouvia. Era um olhar longínquo. Tentava entender-lhe a alma através da respiração. Olhava para o tecto e para baixo dos lençóis. Não sabia se a demência se entranhava no espírito ou se o rancor lhe roubara a voz.

Punha-lhe a mão em cima. A agressividade com que a tirava mostrava-lhe que não queria o seu amor. Não era preciso falar. Havia vezes que não sabia se o esforço fazia sentido.

“Para quê? Só porque há uma relação familiar? Valerá a pena passar-lhe as mãos nos cabelos, nos escassos cabelos que tem?” – e achava que sim.

Quando se lembrava dos bons momentos que tinham tido, regressava tão atrás no tempo que se perdia nos anos. Não sabia quantos eram… dez? Vinte? Eram muitos e pesados.

Quantas vezes chegara a casa e lhe apanhara a seringa do chão, a garrafa vazia na mesa. O corpo não comportaria tantos maus tratos. E quanto pior se tratava, mais sozinho se sentia. Não queria partilhar aquela dor com ninguém. Não era porque não os amasse. Era por vergonha. Havia vezes que a vergonha se tornava alheia. Como se saísse do corpo para espiar a vida e visse que ao seu redor não havia ninguém e quanto mais andava mais as pessoas lhe fugiam.

Ainda bem! Era o que queria. A solidão da bebedeira.

Todas as noites acordava com a sensação de estar morto. Olhava em redor para se certificar que não tinha sido apedrejado até à morte. Mas não via sangue.

Bem sabia que ela o tinha debaixo de olho. O olhar da decessa já nem lhe causava arrepios. Parecia esperar por ela todas as noites.

Patrícia Prata

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Lançamento do livro Pretérito Imperfeito


Hoje às 18h30 na Fnac Chiado, lançamento do meu primeiro romance, Pretérito Imperfeito

domingo, 9 de maio de 2010

Conto - Última Parte

Deus perguntou-lhe: “ Mas que tanto olhas para baixo?”.

Não Lhe podia responder, sabia que não podia mas o que sentia era forte demais. Continuava a querer lê-lo. A querer devorar-lhe as palavras.

Todos os dias via-o de longe e sentia o ar arrombar-lhe o peito e tentava encobrir a vontade que tinha em descer à Terra.

Deus não permitiria. Quando lhe pediu que descesse no dia do rio vermelho foi porque não era a hora dele. Mas Deus não repousa nem dormita. Via a vontade que o seu anjo tinha em descer. Via que a divindade lhe escorregava pelas penas e que a humanidade se infiltrava no seu espírito. Assim como é: vil.

Amava-o demais para o perder para a Terra. Era o seu anjo preferido. Sabia que as suas penas cairiam de mágoa e dizia-lhe que aquela Terra que o deslumbrava era sítio de pecado, que o seu coração não suportaria as feridas terrenas e que seria mais feliz ali.

Foi o anjo cogitar nas feridas de que Deus falava. Tinha reminiscências das dores de quando foi humana e mesmo assim as mágoas não o aturdiam.

Duvidava daquela felicidade aparente. Daquele céu … daquele Deus que o impedia de sentir. Levantava as asas de condão e não sabia para que serviam. O que queria era usar os braços! USÁ-LOS! Usá-los no aperto dele, na volta do seu corpo. Via-o de cima, de longe, inatingível.

Todos os dias o anjo sentia coisas a que não estava habituado. Não entendia a sede, não compreendia a fome. “Mas porque é que Deus me diz que aqui serei mais feliz?!” - assentia a Sua vontade contra a sua própria.

E de cima olhava-o. Invejava as suas mãos que escreviam. Queria beber da água que ele bebia e não lhe chegava com as asas, queria comer do mesmo pão e não lhe sentia o sabor… E olhava para ele que continuava a escrever. A escrever. E amava-o. E amava as suas palavras.

Sabia que não podia escrever… as suas mãos estavam destinadas a adejarem-se no Paraíso e lia mais… e mesmo sabendo que o Empíreo não permitia, empoleirava-se para ver a Terra. Não sabia porquê mas via-lhe nas falanges a doçura do amor, via-lhe nas letras a candura da paixão e não sabia o que era sentir e não sabia o que era bem-querer.

Não esperou que Deus o mandasse salvar de novo. Não esperou que outro rio vermelho sujasse os pés da rapariga do andar de cima. O anjo desceu. Desceu sem permissão divina. Não o fazia por altruísmo… fazia-o por egoísmo.

Queria amar! Queria sentir! E sabia que não podia, sabia que Deus o observava. Mas o anjo já não ouvia os Mandamentos e procurou-o por toda a Terra.

Sentia que ele se escondia nas palavras, que fugia das promessas que escrevia, nas sentenças que regurgitava no papel. E não o encontrava. Procurou-o nas folhas soltas, nos livros abertos, nas inscrições de amor em bancos de jardim e não o via.

E o anjo sentou-se e esperou. Esperou que as palavras voltassem a encher-lhe o coração. Já não sabia viver sem elas. E esperou. E esperou.

Acordou no corpo dela. No olhar dela. Já não tinha asas. Tinha braços, tinha cabelos, tinha lábios. E a Terra que sentia o amor do anjo pelo poeta disse a Deus que lhe dava um corpo. Que dava um corpo ao seu anjo preferido.

“ Este é o livre arbítrio que criei. Dai-lhe o corpo, Terra! À Terra há-de voltar! “. E a Terra obedeceu.

Quando acordou sentia-se atordoada, tonta. Tinha de ir para casa, não sabia porquê. Quase que não sabia onde. Subiu as escadas, os longos degraus até ao quinto andar tiravam-lhe o fôlego. E já quase à sua porta, sentiu um calafrio quando passou no andar de baixo.

Empoleirou-se no corrimão e viu a porta do rapaz que vivia no andar de baixo, aberta. Da estranheza que o arrepio lhe dera e da curiosidade que tinha sobre aquele homem, voltou atrás e entrou na sua casa.

Patrícia Prata

sábado, 8 de maio de 2010

Conto - parte 4

À rapariga do andar de cima ausentou-se-lhe a voz. Queria gritar, queria vociferar e nada. O desassossego roubara-lhe a súplica da boca, como se uma força maligna não a deixasse socorrê-lo.

Respirou fundo e sentiu um calor que começava no seu ombro até se proliferar na garganta. Ouvia na sua alma um rogo sacro: “Só assim o salvarás.” – Pegou no telefone e chamou a ambulância.

Veio a assistência, vieram os médicos e os enfermeiros e a agitação na escada do prédio.

Ele imóvel, alienado. O corpo parecia sofrer de solidão mas não estava morto. Era como se o espírito o sobrevoasse e a lua o seguisse no trajecto para o hospital.

Ela deixou-o seguir na ambulância: “É familiar?”- Não era. Nem sabia se ele os teria.

“Acho que ele é sozinho.”

Acordou dois dias depois. Os pulsos ligados, um ramo de flores. “Foi a sua vizinha!” – respondeu-lhe a enfermeira aos seus pensamentos – “ que belos olhos azuis ela tem…” – sorria e ajeitava o ramo num vaso já usado pelos anos que o hospital tinha.

“Ah sim? … Não conheço, não reparei…” – olhava para o dia que o vigiava pela janela. Muita claridade, mas daquela cinzenta, daquela que não consegue romper as nuvens e se contenta com vestidos pardacentos, mas ainda assim, um dia cheio de luz. Franzia os olhos porque lhe rasgavam as íris, tapava-as com o lençol e debaixo dele via as ligaduras. E contemplava-as.

“Mas que vizinha?” – perguntava debaixo das mortalhas. Não se recordava de nenhuma vizinha. “Que raio foi ela intrometer-se na minha vida?! Na minha morte?!” – o sangue rompia-lhe as costuras.

Desde que lhe viu as folhas não deixou de pensar nelas. Ficou feliz de o ver regressar a casa, de o ver refazer palavras pelas suas mãos. E cogitava na rapariga do andar de cima. Não percebia porquê. Não sabia porque não a gostava de ver abrandar o passo no quarto andar. Enquanto a via deter-se no patamar pensava para si, para as suas asas: “ Ela que siga. Ela que o deixe escrever.”

E via-o escrever e comia-lhe as palavras como se lhe alimentassem as alas, as suas asas de condão.

Deus perguntou-lhe: “ Mas que tanto olhas para baixo?”.

Não Lhe podia responder, sabia que não podia mas o que sentia era forte demais. Continuava a querer lê-lo. A querer devorar-lhe as palavras.

Patrícia Prata

Conto - parte 3

Sempre fora poeta. Não sabia como tinha começado a enterrar-se nas suas próprias palavras. Tinha crescido a amá-las e quanto mais as conhecia, melhor as sabia usar em seu proveito.

No dia do rio vermelho, a rapariga que vivia no andar de cima à sua casa, viu a porta entreaberta. Tinha sentido um calafrio quando passou no quarto andar e parou.

Empurrou-a de manso. O estrugir da passagem causava-lhe tremores. Chamava-o pelo nome procurando a aprovação da própria casa. O soalho escuro agarrava-lhe os pés. Não parecia consentir a sua entrada.

Tudo escuro. Chegou à sala sem parar de o chamar e puxou os cortinados de veludo castanhos, pesados, agarrados à poeira.

Sempre o tinha achado diferente, reservado mas enigmático, secreto. Conhecia-lhe a voz do Bom dia casual que davam um ao outro nos encontros acidentais nas escadas do prédio. Eram umas escadas antigas, de madeira gasta, rangiam por tudo e por nada, sem razão aparente. Queriam chamar a atenção de quem lá vinha.

A rapariga do andar de cima sabia que eram aqueles fragores que a denunciavam e que, muitas vezes, detinham-no de sair. Ele preferia esperar que ela passasse. Ela ou outro qualquer. Tanto lhe fazia. Não era tolerante aos bons dias que faziam parte da estratégia de convivência. Dispensava.

Do seu andar de cima conseguia ouvi-lo. A ele e à sua música. Outras vezes ouvia-o a ler textos, palavras soltas. Encarava-as assim, soltas, porque a sua voz era inconstante nos decibéis e das vezes que falava mais baixo, ela não sabia se se calava ou se falava para não se ouvir. Houve um dia que o ouviu ler: “Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida se compõe de luz e de sombra.”

Achava ridículo pensar naquilo, mas se Deus lhe pedisse instruções para fazer O Homem Perfeito, um dos predicados seria ler Tolstoi. “ Ele está a ler Ana Karenina…” – e o coração dela minguava até se sentir pequeno demais para o seu corpo.

Nunca vira ninguém entrar na casa dele. Se tinha alguém era fora dali. E se era fora dali não era importante. Pensava constantemente nestas premissas e de vez em quando esboçava um sorriso de alívio: “Ele não tem ninguém…”.

Nos dias que o apanhava tentava dizer-lhe mais, mas nunca conseguia dizer-lhe palavras suficientemente fortes para o prender. Era impenetrável. E ali estava a entrar-lhe em casa. A penetrar-lhe a sua intimidade.

A cada passo que dava o seu coração acelerava. Estava um ar pesado, como se se movimentasse em água salgada. Até a respiração lhe custava. Sentia-se num escafandro, o campo de visão limitava-se a si mesmo.

No quarto, o vazio. E continuou. Foi na casa de banho que se deteve mais tempo. Batia com leveza na porta e perguntava-lhe: “Está aí? Está tudo bem? A porta estava aberta… só queria saber se está tudo bem…”.

Era o silêncio que lhe respondia.

Hesitou, abriu a porta e foi o rio vermelho que lhe sujou os pés semi nus por levar sandálias. A alvura do seu rosto dizia-lhe que a sua alma já tinha deixado aquele corpo. Mas não. Ainda havia vida. A respiração denunciava-lhe a existência.

Patrícia Prata

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Conto - parte 2

As folhas que tantas mulheres lhe gabavam. Havia nele uma provocação permanente a elas. As palavras que lhe saíam dos dedos liam-lhes os pensamentos. Ele sabia. Olhava-as como se fossem alimento e à medida que se consumiam no seu discurso deixavam-se levar como o vento faz às palavras.

Leva-as o vento.

No fundo não as queria dedicar ao vento. Uma alma como a dele não o deveria fazer. Sabia-o. Sentia que o seu amadurecimento renascia mais forte sempre que as palavras que oferecia ao vento retornavam à sua procura. E crescia. E dedicava-as cada vez menos. Cada vez menos.

Mas nessa maturação indolente deixou que o amassem pelas palavras. E comprava-lhes o coração com mel de juras. Não era intencional na dor que lhes cominava. Queria ao mesmo tempo que a afeição que sentia por ela lhes chegasse.

“Que esta insatisfação me cegue! Que me engane no que vejo! Não quero condenar as mulheres à imperfeição…” – ele não era feliz.

Havia momentos que parecia que sim. Quando lhe dedicava as suas madrugadas no papel. Sentia que ela o lia.

Estava quase certo da sua demência mas preferiu não ter certeza. No fundo acreditava que tinha uma ausência de memória. Um rasgo no passado que o protegia. Aquele amor que ele sentia e não sabia por quem.

Mas o olhar que ele sabia de cor, que lhe contava quantas pestanas tinha, quantas estavam desviadas… aquele olhar ele reconheceria em qualquer parte em qualquer hora.

Ela que ele não via, que só lhe sentia o aroma. Ela que ele não lhe sabia o nome, que só lhe sentia o respirar.

Ela.

Foi no dia do rio vermelho que as viu.

Estava estendido na casa de banho amolecido em sangue. Arrumou-lhe as folhas. Arrumou-as e leu-as. Já tinha estado ali noutras ocasiões, não era a primeira vez mas as folhas só as vira naquele dia.

Não era a hora dele. Mas que razão havia para ele se querer matar? “Quem escreve assim tem uma alma grande. Só se for por isso… tão grande que não lhe cabe no corpo…” – pensava para si.

Deixou-lhe a porta aberta. Não era a hora dele.

Patrícia Prata

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Conto - parte 1

O sangue que tinha nas mãos não era de escrever as tantas palavras de amor. Era da raiva aos céus.

Via no chão um rio vermelho, amores incertos e vazios que lhe dilaceravam o coração.

Aquele carmino perseguia-o. Quantas vezes passou naquela ponte e lhe contou os metros de cima até abaixo. No fim de os contar perdia a vontade de lhe conhecer a descida repentina. Dizia que ia tentar aprender a viver mais uma vez.

Era nessas alturas que ele deixava que os pensamentos lhe lambessem as falanges dos dedos. Ficavam húmidos, escorregadios. Não sabia se era de escrever depressa ou se do receio de parar. Sabia que no dia que eles parassem, os próprios dedos o ceifariam: de raiva, de ódio, de prazer! Mas matariam-no!

Escrevia para ela.

Ela que não queria, que não podia, que não sabia.

Escrevia para ela que a via em cada cunhal. Sonhava em meter-lhe as mãos em cima! Pôr-lhe os dedos! Vê-la tão dentro até saborear-lhe a pele do estômago!

Aquele bem-querer excessivo era transportado nos olhares femininos com que se cruzava o seu. Era intenso. Era excessivo porque lhe rasgava as entranhas do corpo na demanda do olhar perfeito.

Continuava a procurá-la em cada beijo que recebia, em cada brado que entendia mas as salivas eram azedas, os aromas pútridos, a pele seca.

Naquele dia sentiu-a. Sentiu a sua presença mais perto, mais encostada a si. Não sabia porquê.

O seu corpo tinha reclamado a saliva alheia. “Homem é homem!” – dizia-lhe o amigo jornalista – “ e homem não pode estar sozinho!”.

Ele ouvia o jornalista e pensava “Esse foi o maior engano de quem arquitectou o cosmos. Porque qualquer animal é mais humano que o Homem. E qualquer Homem é mais animal que os demais.”

Pensava e agarrava-lhe no corpo. Do corpo que batia no seu corpo de animal. Não lhe interessava quem era e mais animal se sentia. Queria rasgar a roupa e penetrá-la. Não lhe conhecia o rosto e não queria conhecer. Não era o dela.

E continuava a puxar-lhe as nádegas. Se estava ali alguém ele não sabia. Eram pernas, eram cabelos e lábios que o comiam mas não era ninguém.

Chegava a pensar que devia ter poupado os vinte euros e procurado em si mesmo o alívio daquela tesão.

Chegou vazio a casa. Vazio de tudo. E não sentia nada.

Fez a barba rija dos cinco dias passados e arranhou os pulsos com a lâmina. Escarnecia-se dele próprio que nem um louco.

Jorrava seiva para cima das folhas escritas por si. Eram para ela.

Patrícia Prata