Ela pegava
nos sacos de areia como se tivesse a força de um varão. Eram braços delgados,
declaravam ter força para coisa pouca. Mas pouco interessava. À medida que
corriam as ruas levantavam mais sacos, mais pedras do chão. E esses braços
delgados ainda tratavam dos que caiam a seus pés.
Eram pés que
dançavam apesar da tristeza. Percorriam nus aquela dor infinda entre os
morrentes e os desânimos e chegavam para o lado os corpos pelos quais já nada
podia fazer. Havia momentos que tinha de deixar para trás quem amava, mas era a
todos que amava, amava profundamente, como se ama alguém para toda a vida, para
todo o sempre, amava-os porque juntos tinham sido mais fortes, juntos tinham
conseguido o que ninguém jamais tinha conseguido, juntos eram um; eram um grande;
enorme; colossal! Eles que grandes, colossais e que ao mesmo tempo eram
pequenos, infinitamente exíguos, estreitos, apertados, tão diminutos aos olhos
dos que se achavam gigantes, monstruosos, titanescos que quando chegaram fortes
por serem juntos e – não estarem somente juntos mas por serem juntos – partiram
o gigante e agigantaram-se ali mesmo para todos verem, para que todos pudessem
sentir a liberdade. Eram eles grandes na cidade, fortes pelos seus braços já
desgastados do trabalho, dominados pelos titãs que os obrigavam a ceder, a
quebrar, a deixar que outro gigante se viesse apoderar do seu trabalho, das
suas casas, daquilo que não sendo seu era seu.
Patrícia Prata
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