segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Deixava-o morrer aos bocados

Aqueles fólios contundidos no chão traziam-lhe sabores e aromas que desconhecia. Sentava-se a lê-los e sabia que não podia. Mas as palavras que deixava nos papéis pareciam promessas e juramentos. Todas as folhas tinham cheiros diferentes e cores que o levavam para longe daquele quarto. Quantas vezes fugia do empíreo só para vir ler os seus poemas, só para sentir as suas sentenças e juras… Havia dias que parecia obcecado em olhar para baixo, queria vê-lo escrever mais, soprava-lhe aos ouvidos para que fosse para casa aprisionar-se ao papel. Não era a atitude mais certa para um anjo, chegava a conceber o egoísmo como um estado de espírito que se ganhava com a convivência humana. A obsessão pelos seus textos era tão intensa que muitas vezes se esquecia de o salvar. Deixava-o morrer aos bocados, até se lembrar da sua missão.

Houve alturas que descia sem permissão, sem o beneplácito divino. Descia porque o queria ver. Ficava horas empoleirado sobre o pulso de Vítor. Gostava de o contemplar a enrolar os dedos nas folhas e de sujar as mãos com a tinta que parecia sair-lhe dos olhos. Saboreava o momento de ver as letras enroscadas umas nas outras até formarem palavras, até se amestrarem em frases e em longas narrativas ou em demoradas poesias.

Patrícia Prata

Sem comentários: