Vítor olhava-a. Sabia que por trás daqueles bastiões que ela mostrava ter, o corpo vacilava-lhe de insegurança. Ele conhecia-a.
Sabia que por mais rijo que fosse o seu olhar, era a sensibilidade que lhe habitava o ser.
E como ela gostava de ajudar os outros…! Mas só ele sabia. Só ele entendia que era ela quem mais precisava de ajuda.
E ela que não falava! E ele que só escrevia…
E ela não falava em amor mas o coração transbordava bem-querer.
Ela não dizia “Amo-te” mas ele conhecia-lhe as promessas ocultas.
Não pronunciava “Desculpa” mas ele identificava-lhe a remissão no olhar.
Ela esperava que ele lhe reconhecesse o amor nos seus olhos e que parasse de escrever. Que largasse as canetas e os pincéis e agarrasse pelos braços e a beijasse e a colhesse nos seus galhos!
Já não lhe chegava os poemas de amor que ele escrevia. Já não lhe chegava as letras e as palavras que encontrava nos seus cadernos.
Mas calava-se. Acreditava que um dia ele ia dar sem ela lhe pedir.
Ele sabia. Ele conhecia-lhe todas as curvas dos seus pensamentos, todas as dobras e sinuosidades dos seus entendimentos e sabia que um dia… quando o prazo do seu amor expirasse, ele ia querer largar as canetas e os pincéis, ele ia querer agarrar-lhe nos braços e beijá-la… mas ela não.
Patrícia Prata
Sem comentários:
Enviar um comentário