Vítor esperou que a dança descansasse, que os pés adormecessem sobre a rosa-dos-ventos e que a neblina cobrisse a sua insegurança. Queria falar-lhe, queria saber quem era aquela alma que ele tão bem conhecia, de quem eram os olhos azuis e maduros que o espiavam por trás do embuço. Apesar de tudo sentia-se feio, malparecido. A barba tinha-lhe crescido até se encrespar em grumos irregulares. O nariz inchado dos soluços e as lágrimas secas, deixaram-lhe a pele salgada.
Levava um chapéu negro que do uso estava ruço, velho. Cobria-lhe todas as expressões da face e era isso que Vítor queria. Que as rugas do seu rosto não revelassem a que sabia a sua alma e de que cor se vestiam os seus pensamentos. Sabia mesmo assim que o aroma da sua dolência era amarelo. Amarelo morto, podre. Quanto mais tempo passava mais decomposto ficava. Mesmo assim… feio, oculto por trás do chapéu e da cardina melancólica que arrastava nos pés, decidiu avançar o seu corpo pesado e desengraçado.
Patrícia Prata
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