Indecifrável é o céu lá fora: não sei se o sol resplandece ou se a chuva desce em pranto. Cruzo o limiar do metropolitano, uma parte de mim desvanece-se, deixando para trás o instante anterior. Envoltos nas páginas de um livro ou perdidos no telemóvel, os meus olhos e pensamentos esquivam-se. É a serenidade que me acompanha – por vezes, talvez aparente –, mesmo quando tudo à minha volta efervesce com gentes apressadas. De tempos em tempos, num raro desprendimento, observo essas almas que, como eu, navegam em busca de portos e propósitos. E assim como as formigas, que em labirintos de terra seguem um percurso invisível aos olhos dos homens, também as pessoas, nessa lida diária, obedecem a um ritual que lhes é próprio.
Hoje, mais uma vez, enquanto me encontrava na
plataforma do metropolitano, observava a dança intrincada dos cortiços em
movimento. As carruagens, serpentes metálicas gigantes, deslizavam pelos
trilhos e, das suas entranhas, emergiam seres apressados, carregando talvez
todo o peso do mundo. Contudo, algo prendeu o meu olhar, algo que sempre
acontecia, mas que hoje perturbava a minha serenidade; algo que desafiava a
harmonia inerente à existência: almas ansiosas por adentrar o metropolitano,
negando a passagem àqueles que ansiavam abandoná-lo.
Era um fluxo enganado, um tempo que se dobrou, uma luta entre o que era e o que deveria ser. O espaço, antes
compartilhado em harmonia, tornava-se palco de um embate silencioso e
desesperado. Os que saíam estavam presos num labirinto sem fim, enquanto os que
entravam aglomeravam-se na porta, querendo ocupar um lugar que ainda não lhes
pertencia.
Será que a compreensão da entrada e saída lhes
escapa, como bruma que se desvanece? Será o temor de perder o tempo, o carrasco
que os leva a desdenhar do mais elementar princípio de cortesia e convívio? Ou,
neste mundo de incessantes urgências, a empatia desfaz-se em grãos de areia?
E assim, perdida em pensamentos, vi a dança repetir-se
a cada paragem, a cada nova carruagem, como se fosse um espetáculo coreografado
pelos demónios do egocentrismo. O metropolitano transformava-se, então, num
espelho da sociedade em que vivemos, onde o simples ato de dar passagem aos
outros é ignorado em prol de um objetivo incerto e fugaz.
Mas entre tantos que se atropelavam, houve
aqueles que, como sentinelas de uma ordem há muito perdida, aguardavam
pacientes e atentos, permitindo que os passageiros saíssem, antes de se adentrarem.
A esses, eu não posso deixar de prestar minha homenagem, pois, mesmo diante do
caos, conseguem encontrar a beleza e a gentileza da convivência humana.
Será, então, a lição que me deixa esta dança dos
compartimentos: que haja espaço para a entrada e a saída, que possamos
compreender a importância do equilíbrio e da cortesia, e que, no fim de contas,
todos sigam em frente, rumo aos seus destinos, sem deixar que o egoísmo e a
pressa sejam os mestres da nossa dança.
Patrícia Prata
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