quinta-feira, 13 de abril de 2023

Reflexões no autocarro

Bate, bate cidade.

Reflete-se nas janelas do autocarro, enquanto os ânimos desfilam nos atalhos cotidianos, perdidos e encontrados no emaranhado das suas próprias vidas. A paisagem urbana desdobra-se à minha frente, revelando-me os confusos fios que tecem as histórias humanas.

Ao meu lado, uma mulher de olhos inquietos e sorriso enigmático mergulha numa conversa telefónica que parece tão trivial quanto profunda. Por quarenta minutos, o tempo parece ser apenas um sussurro, enquanto ela se envolve, de maneira aparentemente tranquila, na vida de um homem cuja existência mal começara a tocar a dela.

Surgia, do íntimo, um desejo de o esculpir, um espelho onde se projetavam anseios e inseguranças, ressonando audivelmente no espaço limitado do autocarro. Talvez seja porque a independência se insinue como um sopro, silenciosa e efémera, na agonia de encontrar a harmonia perfeita entre duas almas.

Talvez… porque as palavras da mulher flutuavam no ar, como fragmentos de um diálogo perpétuo que transcendiam o tempo e o espaço, revelando a complexidade das nossas interações. E, assim mergulhei nas águas turvas da minha própria humanidade, a mulher no autocarro levou-me a questionar os limites entre o ser e o outro, entre a necessidade de moldar e a aflição de ser moldado.

Talvez a resposta resida na própria ambiguidade da condição humana, na fluidez dos papéis que desempenhamos uns perante os outros. Somos simultaneamente artífices e matéria-prima, construtores e construídos, navegando no oceano infinito das possibilidades que nos são apresentadas.

O autocarro seguiu o seu caminho, e a mulher desapareceu na multidão, levando consigo um pedaço do enigma que somos todos nós. E, enquanto as ruas da cidade se desvanecem em sombras e memórias, o eco das suas palavras permanece, um lembrete constante da busca incessante pelo equilíbrio entre independência e dependência, entre o ser e o outro.

Patrícia Prata

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