Bate, bate cidade.
Reflete-se nas janelas do
autocarro, enquanto os ânimos desfilam nos atalhos cotidianos, perdidos e
encontrados no emaranhado das suas próprias vidas. A paisagem urbana desdobra-se
à minha frente, revelando-me os confusos fios que tecem as histórias humanas.
Ao meu lado, uma mulher de olhos
inquietos e sorriso enigmático mergulha numa conversa telefónica que parece tão
trivial quanto profunda. Por quarenta minutos, o tempo parece ser apenas um
sussurro, enquanto ela se envolve, de maneira aparentemente tranquila, na vida
de um homem cuja existência mal começara a tocar a dela.
Surgia, do íntimo, um desejo de o
esculpir, um espelho onde se projetavam anseios e inseguranças, ressonando audivelmente
no espaço limitado do autocarro. Talvez seja porque a independência se insinue
como um sopro, silenciosa e efémera, na agonia de encontrar a harmonia perfeita
entre duas almas.
Talvez… porque as palavras da
mulher flutuavam no ar, como fragmentos de um diálogo perpétuo que transcendiam
o tempo e o espaço, revelando a complexidade das nossas interações. E, assim mergulhei
nas águas turvas da minha própria humanidade, a mulher no autocarro levou-me a
questionar os limites entre o ser e o outro, entre a necessidade de moldar e a aflição
de ser moldado.
Talvez a resposta resida na
própria ambiguidade da condição humana, na fluidez dos papéis que desempenhamos
uns perante os outros. Somos simultaneamente artífices e matéria-prima,
construtores e construídos, navegando no oceano infinito das possibilidades que
nos são apresentadas.
O autocarro seguiu o seu caminho,
e a mulher desapareceu na multidão, levando consigo um pedaço do enigma que
somos todos nós. E, enquanto as ruas da cidade se desvanecem em sombras e
memórias, o eco das suas palavras permanece, um lembrete constante da busca
incessante pelo equilíbrio entre independência e dependência, entre o ser e o
outro.
Patrícia Prata
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