E ele disse-lhe como se as penas lhe saltassem do corpo por danação, como se todo o mal o encarnasse naquele dia, naquele minuto, naquele segundo, como se as florestas ardessem no seu canastro todas de uma só vez.
Disse-lhe sem respirar, sem expressão, como se o mundo fosse acabar naquele dia e ele não quisesse saber, como se os pais o matassem e as flores murchassem para sempre. Disse-lhe como se Deus tivesse morrido e acordado no corpo do demónio, como se água secasse nos seus olhos de rio e o amor se esgotasse no coração dos anjos.
Disse-lhe porque a queria magoar. Disse-lhe porque a amava demais para a ver feliz. Desse amor insalubre que pulveriza a individualidade, que trucida a ventura pela sua simplicidade. E disse-lhe outra vez como se aquela cólera a pudesse matar todos os dias até ao final da sua vida, até ao final da vida dele. Porque preferia morrer a vê-la feliz. Porque preferia que as penas lhe caíssem das asas celestes a vê-la sorrir sem ser para ele.
E morreu. Morreu asfixiada nas penas dele.
Patrícia Prata
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