segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Sem sagrado nem profano

 

Na estrada debaixo de mim,

Mais outra gota que foi.

Nas solas batentes no chão,

Onde só eu sei quanto valho,

Sou as cartilagens dos dedos,

O sangue a correr, os pés a doer

As cãimbras nos gémeos, o coração a bater.

 

Toda eu sou eu.

Toda eu no mesmo momento.

Naquela estrada que arrepia caminho.

Na voz que se evapora da mente,

Todas as vozes que às vezes lá gritam,

Todas as vozes que choram.

Já lá não se demoram.

 

Toda eu sou eu.

Quando só oiço as válvulas empurrarem-me a frente.

Ali sou eu sem julgamento.

Sem reprimendas ou opiniões.

Sem jargões.

Sem avaliações.

Sem sagrado nem profano.

Sou eu toda neste espaço.

Sou eu toda nestas pernas, nestes quilómetros escassos,

Mas tantos.

Mas tantos.

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