terça-feira, 2 de agosto de 2011

Estreitos Barbantes

Dizia-lhe que não fazia ideia de quantas memórias tinha apagado desde que se deixara morrer para ela. Sentia-se como se uma enfermidade o consumisse percorrendo-lhe os estreitos barbantes que moravam no seu corpo. Era propositado. Queria que os bichos o merendassem. Assim de vez. Até deixar de sentir que tinha polpa. Batia-lhe o coração na mão e sentia a voz da dor na ponta dos seus dedos. Era assim que as memórias se apagavam. Era assim que dando lugar à dor física, a dor do seu espírito se aquietava.




Quantas vezes respirou fundo até sentir que o peito se apagava nos pulmões, até sentir que a sede não passava quando sentia a boca molhada. Quantas vezes se perdeu no silêncio dos seus ouvidos e nas gretas da sua pele seca. Por mais que se procurasse não encontrava o que tinha sido. Era outra pessoa. Já nem se lembrava. Já nem lhe doía.







Ela olhava-o nos olhos com a tristeza de quem perde alguém querido. Queria pegar-lhe nas mãos mas as fendas da sua casca arranhavam-lhe a delicadeza da pele. Gostava dele. Mas já não o encontrou. Era outra pessoa. Nem ela se lembrava. Nem a ela lhe doía.







Patrícia Prata

Sem comentários: