sexta-feira, 3 de novembro de 2023

O ritmo dual de quem escreve

 

Não sei se reconheço o que escrevo assim desta forma... a falta de tempo para ponderar deixa-me ansiosa. Cada coisa tem o seu próprio tempo. Como ousar não respeitar o tempo que cada uma demanda? Se o que redijo é sempre ponderado... sempre lhe é concedido o devido tempo. Talvez seja necessário pausar antes de deixar fluir, talvez seja um erro, talvez permitir que a corrente rompa as comportas seja surpreendente, mas, sim, existe alguma reserva em mim. Este interstício, que decorre desde que exprimo o que penso até que se materialize no papel, é o tempo preciso para a colheita do fruto maduro. Menos tempo, e o fruto estará imaturo. Mais tempo, e o fruto perecerá. Neste ímpeto de escrever de improviso, parece que se espera que a vida inteira se dê nesse intervalo, nesse instante. Eu prefiro aguardar pelo tempo devido das coisas e pelas coisas no seu devido tempo.

Contudo, há beleza nesta pressa, nesta faísca que só a urgência pode acender. Há verdades que só emergem sob a pressão do momento, sem o lapidar do tempo. Na diligência da expressão, talvez haja uma autenticidade que a deliberação tende a polir em excesso. O coração, ao ditar sem filtros, desvela mistérios que a razão, com o seu ritmo meticuloso, muitas vezes oculta. E assim, nesta dança entre a precipitação e a paciência, entre o arrojo e a ponderação, a escrita transforma-se num campo de batalha onde tempo e tempo se enfrentam – o cronológico e o interior, o marcado pelo relógio e o ditado pela alma. Talvez já devesse saber, que quem escreve, deve ser um artífice capaz de equilibrar estes dois mundos, sabendo que no teclado ou na caneta residem tanto o imediato quanto o eterno.


Patrícia Prata

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