Sempre fora poeta. Não sabia como tinha começado a enterrar-se nas suas próprias palavras. Tinha crescido a amá-las e quanto mais as conhecia, melhor as sabia usar em seu proveito.
No dia do rio vermelho, a rapariga que vivia no andar de cima à sua casa, viu a porta entreaberta. Tinha sentido um calafrio quando passou no quarto andar e parou.
Empurrou-a de manso. O estrugir da passagem causava-lhe tremores. Chamava-o pelo nome procurando a aprovação da própria casa. O soalho escuro agarrava-lhe os pés. Não parecia consentir a sua entrada.
Tudo escuro. Chegou à sala sem parar de o chamar e puxou os cortinados de veludo castanhos, pesados, agarrados à poeira.
Sempre o tinha achado diferente, reservado mas enigmático, secreto. Conhecia-lhe a voz do Bom dia casual que davam um ao outro nos encontros acidentais nas escadas do prédio. Eram umas escadas antigas, de madeira gasta, rangiam por tudo e por nada, sem razão aparente. Queriam chamar a atenção de quem lá vinha.
A rapariga do andar de cima sabia que eram aqueles fragores que a denunciavam e que, muitas vezes, detinham-no de sair. Ele preferia esperar que ela passasse. Ela ou outro qualquer. Tanto lhe fazia. Não era tolerante aos bons dias que faziam parte da estratégia de convivência. Dispensava.
Do seu andar de cima conseguia ouvi-lo. A ele e à sua música. Outras vezes ouvia-o a ler textos, palavras soltas. Encarava-as assim, soltas, porque a sua voz era inconstante nos decibéis e das vezes que falava mais baixo, ela não sabia se se calava ou se falava para não se ouvir. Houve um dia que o ouviu ler: “Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida se compõe de luz e de sombra.”
Achava ridículo pensar naquilo, mas se Deus lhe pedisse instruções para fazer O Homem Perfeito, um dos predicados seria ler Tolstoi. “ Ele está a ler Ana Karenina…” – e o coração dela minguava até se sentir pequeno demais para o seu corpo.
Nunca vira ninguém entrar na casa dele. Se tinha alguém era fora dali. E se era fora dali não era importante. Pensava constantemente nestas premissas e de vez em quando esboçava um sorriso de alívio: “Ele não tem ninguém…”.
Nos dias que o apanhava tentava dizer-lhe mais, mas nunca conseguia dizer-lhe palavras suficientemente fortes para o prender. Era impenetrável. E ali estava a entrar-lhe em casa. A penetrar-lhe a sua intimidade.
A cada passo que dava o seu coração acelerava. Estava um ar pesado, como se se movimentasse em água salgada. Até a respiração lhe custava. Sentia-se num escafandro, o campo de visão limitava-se a si mesmo.
No quarto, o vazio. E continuou. Foi na casa de banho que se deteve mais tempo. Batia com leveza na porta e perguntava-lhe: “Está aí? Está tudo bem? A porta estava aberta… só queria saber se está tudo bem…”.
Era o silêncio que lhe respondia.
Hesitou, abriu a porta e foi o rio vermelho que lhe sujou os pés semi nus por levar sandálias. A alvura do seu rosto dizia-lhe que a sua alma já tinha deixado aquele corpo. Mas não. Ainda havia vida. A respiração denunciava-lhe a existência.
Patrícia Prata
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