À rapariga do andar de cima ausentou-se-lhe a voz. Queria gritar, queria vociferar e nada. O desassossego roubara-lhe a súplica da boca, como se uma força maligna não a deixasse socorrê-lo.
Respirou fundo e sentiu um calor que começava no seu ombro até se proliferar na garganta. Ouvia na sua alma um rogo sacro: “Só assim o salvarás.” – Pegou no telefone e chamou a ambulância.
Veio a assistência, vieram os médicos e os enfermeiros e a agitação na escada do prédio.
Ele imóvel, alienado. O corpo parecia sofrer de solidão mas não estava morto. Era como se o espírito o sobrevoasse e a lua o seguisse no trajecto para o hospital.
Ela deixou-o seguir na ambulância: “É familiar?”- Não era. Nem sabia se ele os teria.
“Acho que ele é sozinho.”
Acordou dois dias depois. Os pulsos ligados, um ramo de flores. “Foi a sua vizinha!” – respondeu-lhe a enfermeira aos seus pensamentos – “ que belos olhos azuis ela tem…” – sorria e ajeitava o ramo num vaso já usado pelos anos que o hospital tinha.
“Ah sim? … Não conheço, não reparei…” – olhava para o dia que o vigiava pela janela. Muita claridade, mas daquela cinzenta, daquela que não consegue romper as nuvens e se contenta com vestidos pardacentos, mas ainda assim, um dia cheio de luz. Franzia os olhos porque lhe rasgavam as íris, tapava-as com o lençol e debaixo dele via as ligaduras. E contemplava-as.
“Mas que vizinha?” – perguntava debaixo das mortalhas. Não se recordava de nenhuma vizinha. “Que raio foi ela intrometer-se na minha vida?! Na minha morte?!” – o sangue rompia-lhe as costuras.
Desde que lhe viu as folhas não deixou de pensar nelas. Ficou feliz de o ver regressar a casa, de o ver refazer palavras pelas suas mãos. E cogitava na rapariga do andar de cima. Não percebia porquê. Não sabia porque não a gostava de ver abrandar o passo no quarto andar. Enquanto a via deter-se no patamar pensava para si, para as suas asas: “ Ela que siga. Ela que o deixe escrever.”
E via-o escrever e comia-lhe as palavras como se lhe alimentassem as alas, as suas asas de condão.
Deus perguntou-lhe: “ Mas que tanto olhas para baixo?”.
Não Lhe podia responder, sabia que não podia mas o que sentia era forte demais. Continuava a querer lê-lo. A querer devorar-lhe as palavras.
Patrícia Prata
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