domingo, 9 de maio de 2010

Conto - Última Parte

Deus perguntou-lhe: “ Mas que tanto olhas para baixo?”.

Não Lhe podia responder, sabia que não podia mas o que sentia era forte demais. Continuava a querer lê-lo. A querer devorar-lhe as palavras.

Todos os dias via-o de longe e sentia o ar arrombar-lhe o peito e tentava encobrir a vontade que tinha em descer à Terra.

Deus não permitiria. Quando lhe pediu que descesse no dia do rio vermelho foi porque não era a hora dele. Mas Deus não repousa nem dormita. Via a vontade que o seu anjo tinha em descer. Via que a divindade lhe escorregava pelas penas e que a humanidade se infiltrava no seu espírito. Assim como é: vil.

Amava-o demais para o perder para a Terra. Era o seu anjo preferido. Sabia que as suas penas cairiam de mágoa e dizia-lhe que aquela Terra que o deslumbrava era sítio de pecado, que o seu coração não suportaria as feridas terrenas e que seria mais feliz ali.

Foi o anjo cogitar nas feridas de que Deus falava. Tinha reminiscências das dores de quando foi humana e mesmo assim as mágoas não o aturdiam.

Duvidava daquela felicidade aparente. Daquele céu … daquele Deus que o impedia de sentir. Levantava as asas de condão e não sabia para que serviam. O que queria era usar os braços! USÁ-LOS! Usá-los no aperto dele, na volta do seu corpo. Via-o de cima, de longe, inatingível.

Todos os dias o anjo sentia coisas a que não estava habituado. Não entendia a sede, não compreendia a fome. “Mas porque é que Deus me diz que aqui serei mais feliz?!” - assentia a Sua vontade contra a sua própria.

E de cima olhava-o. Invejava as suas mãos que escreviam. Queria beber da água que ele bebia e não lhe chegava com as asas, queria comer do mesmo pão e não lhe sentia o sabor… E olhava para ele que continuava a escrever. A escrever. E amava-o. E amava as suas palavras.

Sabia que não podia escrever… as suas mãos estavam destinadas a adejarem-se no Paraíso e lia mais… e mesmo sabendo que o Empíreo não permitia, empoleirava-se para ver a Terra. Não sabia porquê mas via-lhe nas falanges a doçura do amor, via-lhe nas letras a candura da paixão e não sabia o que era sentir e não sabia o que era bem-querer.

Não esperou que Deus o mandasse salvar de novo. Não esperou que outro rio vermelho sujasse os pés da rapariga do andar de cima. O anjo desceu. Desceu sem permissão divina. Não o fazia por altruísmo… fazia-o por egoísmo.

Queria amar! Queria sentir! E sabia que não podia, sabia que Deus o observava. Mas o anjo já não ouvia os Mandamentos e procurou-o por toda a Terra.

Sentia que ele se escondia nas palavras, que fugia das promessas que escrevia, nas sentenças que regurgitava no papel. E não o encontrava. Procurou-o nas folhas soltas, nos livros abertos, nas inscrições de amor em bancos de jardim e não o via.

E o anjo sentou-se e esperou. Esperou que as palavras voltassem a encher-lhe o coração. Já não sabia viver sem elas. E esperou. E esperou.

Acordou no corpo dela. No olhar dela. Já não tinha asas. Tinha braços, tinha cabelos, tinha lábios. E a Terra que sentia o amor do anjo pelo poeta disse a Deus que lhe dava um corpo. Que dava um corpo ao seu anjo preferido.

“ Este é o livre arbítrio que criei. Dai-lhe o corpo, Terra! À Terra há-de voltar! “. E a Terra obedeceu.

Quando acordou sentia-se atordoada, tonta. Tinha de ir para casa, não sabia porquê. Quase que não sabia onde. Subiu as escadas, os longos degraus até ao quinto andar tiravam-lhe o fôlego. E já quase à sua porta, sentiu um calafrio quando passou no andar de baixo.

Empoleirou-se no corrimão e viu a porta do rapaz que vivia no andar de baixo, aberta. Da estranheza que o arrepio lhe dera e da curiosidade que tinha sobre aquele homem, voltou atrás e entrou na sua casa.

Patrícia Prata

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