Tinha a cabeça sobre os seus braços adormecidos, havia dias assim. Havia dias que nem a roupa despia. Asilava-se entre os seus tentáculos fechados e deixava que a sua respiração se perdesse entre a mesa e os carrilhos esmagados.
Depois de algumas horas soltava um lamento de dor, de dormência muscular. Não sabia se o sangue tinha parado de correr ou se os seus membros tinham caído de podres.
“Estás aí hoje?” – via-a com os seus grandes olhos azuis, sempre que se levantava dos escritos.
Havia uma impetuosidade no seu olhar que parecia abalroar-lhe o corpo da cadeira. Ela estava sempre ali a observar-lhe as letras.
As promessas e sentenças que lhe saíam das mãos. Ele sabia que ela as apanhava - às folhas rasgadas do chão. Deixava-as lá para ela. Gostava de a ver amarfanhar-se nas folhas. Ela sempre esteve ali. Mesmo das vezes que ele se queria entregar à decessa, sentia-a presente. Como se o expiasse e o privasse do seu desejo de morrer.
E de manhã, quando se arrastava até à cama não entendia porque ela deixava tudo como ele tinha deixado. Depois de abrir as folhas, de ler os seus erros, as suas estrangulações, voltava a enovelar as gazetas e deixava-as no chão, errantes no acaso.
Patrícia Prata
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Errantes no Acaso
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