segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Anjo

O anjo via-o de longe e sentia o ar arrombar-lhe o peito e queria descer à Terra. Mas Deus não permitia. Dizia-lhe que a Terra era sítio de pecado, que o seu coração não suportaria as feridas terrenas e que o anjo seria mais feliz ali.

Foi o anjo cogitar nas feridas de que Deus falava. Tinha reminiscências das dores de quando foi humana e mesmo assim as dores não o aturdiam.

Levantava as asas de condão e não sabia para que serviam. Queria usar os seus braços no aperto dele, na volta do seu corpo. Via-o de cima, de longe, inatingível. E Deus observava-o.

Todos os dias o anjo sentia coisas a que não estava habituado. Não entendia a sede, não compreendia a fome mas se Deus lhe tinha dito que ali seria mais feliz… assentia a Sua vontade.

Queria beber da água que ele bebia e não lhe chegava com as asas, queria comer do mesmo pão e não lhe sentia o sabor… E olhava para ele que continuava a escrever.

Lia-lhe as palavras do céu e sabia que não podia escrever… as suas mãos estavam destinadas a adejarem-se no Paraíso e lia mais… e mesmo sabendo que o Empíreo não permitia, empoleirava-se para ver a Terra e mesmo longe, amava-o cada vez mais. Não sabia porquê mas via-lhe nas falanges a doçura do amor, via-lhe nas letras a candura da paixão e não sabia o que era sentir e não sabia o que era amar.

E na noite de uma prece, na relíquia de duas mãos juntas que pediam a Deus que o salvasse… o anjo desceu. Não o fazia por altruísmo… fazia-o por egoísmo.

Queria amar! E sabia que não podia, sabia que Deus o observava. Mas o anjo já não ouvia os Mandamentos e procurou-o por toda a Terra.

Sentia que ele se escondia nas palavras, que fugia das promessas que escrevia, nas sentenças que regurgitava no papel. E porque não estava habituado, sentiu medo. Procurou Deus na Terra. E Deus disse que já a tinha abandonado há muito tempo. E o anjo sentou-se e esperou. Esperou que as palavras voltassem a encher-lhe o coração. Já não sabia viver sem elas. E esperou. E esperou.

Ao fim do terceiro dia ele foi ter com o anjo e com uma festa na face os seus olhos acordaram.

“Meu anjo! Quanto tempo te esperei! Agora que perdeste as asas para me encontrares, Deus levou-me para cuidar de ti.”

Patrícia Prata

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