Olhava para ele com o remorso da vida. Aqueles anos de loucura tinham-lhe dado argumentos suficientes para se esquecer que tinha um filho.
“Levanta-te!” – se pudesse dava-lhe as pernas. Não tinha dúvidas do seu afecto por ele mas teria sido tarde, talvez.
Nem sequer sabia se ele o ouvia. Era um olhar longínquo. Tentava entender-lhe a alma através da respiração. Olhava para o tecto e para baixo dos lençóis. Não sabia se a demência se entranhava no espírito ou se o rancor lhe roubara a voz.
Punha-lhe a mão em cima. A agressividade com que a tirava mostrava-lhe que não queria o seu amor. Não era preciso falar. Havia vezes que não sabia se o esforço fazia sentido.
“Para quê? Só porque há uma relação familiar? Valerá a pena passar-lhe as mãos nos cabelos, nos escassos cabelos que tem?” – e achava que sim.
Quando se lembrava dos bons momentos que tinham tido, regressava tão atrás no tempo que se perdia nos anos. Não sabia quantos eram… dez? Vinte? Eram muitos e pesados.
Quantas vezes chegara a casa e lhe apanhara a seringa do chão, a garrafa vazia na mesa. O corpo não comportaria tantos maus tratos. E quanto pior se tratava, mais sozinho se sentia. Não queria partilhar aquela dor com ninguém. Não era porque não os amasse. Era por vergonha. Havia vezes que a vergonha se tornava alheia. Como se saísse do corpo para espiar a vida e visse que ao seu redor não havia ninguém e quanto mais andava mais as pessoas lhe fugiam.
Ainda bem! Era o que queria. A solidão da bebedeira.
Todas as noites acordava com a sensação de estar morto. Olhava em redor para se certificar que não tinha sido apedrejado até à morte. Mas não via sangue.
Bem sabia que ela o tinha debaixo de olho. O olhar da decessa já nem lhe causava arrepios. Parecia esperar por ela todas as noites.
Patrícia Prata
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