quarta-feira, 23 de junho de 2010

Por cima dos balcões dos cafés

Sentada, agarrada aos joelhos esticava o pensamento até aos velhos cheiros da infância. Sabia que as luzes eram diferentes porque estavam mais longe do chão... a idade não perdoava. E eram aqueles balcões dos cafés altos demais para ver o que se passava por trás.

Tinha levado em pensamento a força da saudade perdida, aquela que não volta nem faz falta.

E se o passado que corrompe as veias da vida que levamos, dissimula o que realmente somos? Ou é verdade que quem cresce aparece por cima dos balcões dos cafés, e quando os vê já os assimilou de tal forma que não dá conta que aprendeu a vê-los como nos contaram que eram e não como realmente são?

Sentada, desprendi-me dos joelhos e corri ofegante até ao passado mais antigo de que me lembrava. Senti a pele a rasgar-se das quedas e os pés descalços das pedras que pisava. E vi a bola e a boneca e o choro da quem quer mais não sabe porquê. Se o não que chega, vem sem explicação, mais tarde, vem na volta do vento. Quebrou-se o tendão dos esforços e sem uma inclusão rematada consegui ver as pontas soltas das minhas próprias maleitas. O saber não ocupa lugar… mas saber que a loucura começou no dequite e só acaba com a morte faz pensar…

Bem podia espreitar melhor por cima dos balcões dos cafés para ver que o chão estava sujo…

Sentada, voltei a abotoar-me aos joelhos e na volta de uma festa que se entrelaçava nos cabelos, quis-me levantar para ver o que lá estava por trás… por trás dos balcões dos cafés. Desses que não olhava desde que não os via por ser pequena demais. E nesse encaixe dos joelhos ouvi que do outro lado gritavam. Não sabia se era prazer ou dor. E com mais tempo percebi que aquele som já lá estava antes de poder subir-me pelas pernas acima, antes de saber que se desse a volta entrava no balcão.

E nunca me chamaram pelo lado esquerdo. Nem pelo lado direito.

Sentada, levantei-me. Na demanda dos detalhes vi que o saco estava vazio, quando pensava que estava cheio, conheci um arco-íris, quando sempre vi a preto e branco e a doçura revelou-se, quando a boca me amargou.

Sentada, agarrada aos joelhos esticava o pensamento até à infância. Foi ontem. Porque só hoje consegui ver por cima dos balcões dos cafés.

Patrícia Prata

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