terça-feira, 25 de maio de 2010

Conto 2 - Segunda Parte

Levantou-se. Ainda sentia as pernas. Tinha a certeza de estar vivo e não conseguia evitar olhar para o quase morto na cama. “Se pudesse, dava-lhas … “ – pensava como se lhe arrancassem aos nacos a carne das tíbias.

“Amanhã volto!” – os olhos que o miravam aparentavam indiferença. Ele não sabia se tinha perdido a alma ou se estava só moribundo.

Assim que batia com a porta ele levantava-se. Respirava fundo e penteava os seus cabelos escassos a olhar-se para o espelho. Meditava sobre as razões que o levavam a ir ali.

“Quem é ele? Vem aqui para me julgar! Já o vi a olhar-me para as pernas! Cobiça! É o que é! Para estes gajos é que Deus não olha! Andam aqui a açoitar-me o entendimento! Mais a porra com eles! Se não for Deus a o levar, que o leve o diabo!” – olhou para a porta e viu Laura.

Laura trazia sempre aquele sorriso. De tão manso acalmava-lhe a sanha. Esquecia-se dele e do outro que o via. E deitou-se na paz do Senhor. Queria portar-se bem para que Laura lhe continuasse a sorrir.

Tanto devaneio e delírio, tanto desatino e desacerto e esqueceu-se que tinha um filho. E sentia-lhe as mãos nos cabelos escassos. Rosnava.

E a morte espreitava-o pelo espelho. Quanto mais lhe mostrava os olhos menos lhe metia medo.

“Volto amanhã!” – saía com a sensação de lhe ter deixado as pernas, tal era a força que tinha de fazer para atravessar a sala.

Patrícia Prata

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